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27/04/2014 16h29

Um clássico na literatura carnavalesca - Salgueiro: Academia de Samba
Guilherme Guaral*

Um dos livros fundamentais na construção do mito sobre o pioneirismo do Salgueiro foi escrito pelo multimídia Haroldo Costa. Com o título Salgueiro: Academia de Samba, publicado em 1984, o jornalista ajudou a consolidar as bases da importância da agremiação no cenário carnavalesco. Seu texto foi citado e reproduzido em diversas obras posteriores sobre o tema, tornando-se um cânone no assunto.

Haroldo Costa. Foto: SRZD - Luciano Olivieri

Haroldo Costa nasceu no Rio de Janeiro em 1930 e foi criado na zona norte da cidade. Filho de um alfaiate e uma dona de casa, mudou-se com a família para Maceió, onde morou até os 10 anos. Ao regressar para o Rio de Janeiro, estudou no Colégio Pedro II e fez carreira no então efervescente movimento estudantil. Seu engajamento artístico, buscando representar elementos da cultura popular, sobretudo de origem afro-brasileira o impulsionou a fundar a Companhia de Danças Brasiliana. Participou como diretor artístico e bailarino e excursionou pela Europa, Estados Unidos e América Latina durante cinco anos.

A partir da década de 1960, atuou como produtor de espetáculos que contava com elenco de músicos e bailarinos ligados às escolas de samba. Participou de produções cinematográficas, teatrais e para a televisão. Em paralelo a esse trabalho, passou a publicar livros sobre cultura popular, tendo o Carnaval como mote central de seus textos. Segundo o próprio jornalista, a sua formação teatral, cercada pela militância, ganhou uma postura ativista, onde passou a lutar pela consolidação e o respeito às contribuições culturais negras no Brasil. Sua participação na cobertura dos desfiles das escolas de samba, na Rede Globo de Televisão, ajudou a consolidar sua posição de grande especialista no tema.

Livro 'Salgueiro: Academia de Samba'. Foto: DivulgaçãoO livro Salgueiro: Academia de Samba narrou a história da escola, desde a sua fundação em 1953 até os preparativos para o Carnaval do ano da publicação da obra. O tom adotado por Haroldo foi de uma narrativa cronológica e jornalística, mesclando matérias de jornal com depoimentos de sambistas e personagens que construíram essa trajetória histórica. Sua paixão está presente em todo o livro, e essa motivação pareceu ser o mote da escrita, tanto para ressaltar a importância do morro do Salgueiro quanto embasar a mística da escola que tem no seu lema, "nem melhor nem pior, apenas uma escola diferente", criado pelo ex-presidente Nelson de Andrade.

O que ocupou maior espaço foi sua intenção de construir um texto de exaltação ao "pioneirismo" salgueirense, centrado, no seu ponto de vista, nas temáticas e personagens retirados da "marginalidade histórica" que ganharam notoriedade a partir dos desfiles da escola na década de 1960. Haroldo Costa também fez parte dessa história. Como personagem observador, intercalou discursos e foi guiado, sobretudo, por suas próprias memórias, constituindo assim uma narrativa que mescla investigação jornalística e prosa memorialista.

As opções da escola foram tratadas pelo autor como prova da especialidade do Salgueiro em ser "pioneiro" no campo da diversificação das temáticas dos enredos e da própria estética que os desfiles passaram a ter depois da década de 1960 sob a influência da agremiação tijucana.

Um dos assuntos mais associados com a temática das escolas de samba, a questão da autenticidade, ou a perda desta, não foi tematizada por Haroldo. Essa discussão não se constituiu como mote em defesa da manutenção do status da agremiação. O Salgueiro por diversas vezes foi criticado pelos puristas como uma agremiação que estava desvirtuando a essência das escolas de samba. O discurso do jornalista procurou garantir o papel de destaque da escola a partir das ações "ousadas e pioneiras" que consolidaram o status da agremiação no reservado núcleo das grandes escolas de samba da cidade.

O jornalista procurou situar o leitor em relação ao espaço geográfico e às peculiaridades culturais do morro do Salgueiro, descrevendo os principais pontos de concentração cultural do espaço, tanto no que se referiam às questões religiosas quanto às esportivas e de lazer em geral. O olhar etnográfico foi um referencial recorrente nos capítulos iniciais, onde, após apresentar uma versão da ocupação do morro e justificar o nome com o qual foi batizado, nos apresentou sua teoria de ocupação realizada pelos migrantes de Minas Gerais, dos estados do Nordeste e interior do estado do Rio.

O legado do sincretismo religioso criou no morro a disseminação de ritmos e danças, como o jongo, o calango, o caxambu, o samba de roda e a folia de reis. Com isso, as festas religiosas e pagãs ganharam a centralidade no calendário dos moradores e tornaram-se o epicentro da reunião dos vários grupos que se formavam. Os encontros movidos pelas festividades religiosas eram motivos excelentes para que a culinária exercesse seu poder de aglutinação. A religiosidade afro-brasileira ganhou destaque com a referência às tendas espíritas, às benzedeiras e às diversas Tias que exerciam o poder simbólico da liderança religiosa. A Tenda do seu Paulino parecia ser o lugar central das práticas culturais do morro, e a sua fama levou à inclusão do espaço como um dos cenários do premiado filme Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus, de 1959.

Uma preocupação que ficou latente na obra foi colocar na balança a questão da criminalidade. Se por um lado o autor citou a crônica policial para relatar certa fama dos bandidos do morro, por outro lado ressaltou a presença de artistas e políticos que se sentiam seguros andando pelo espaço da favela, sendo inclusive local para as festas de aniversário, como as da vedete Virgínia Lane, narradas no livro.

Outra preocupação do jornalista foi o de situar o Morro como espaço estratégico no nascimento do samba. Não lhe dá a primazia, mas busca através de relatos e das pistas deixadas pelo jornalista Francisco Guimarães (Vagalume), em seu livro Roda de Samba, de 1933, como a descrição do morro do Salgueiro e sua musicalidade, sendo uma das primeiras localidades a praticar o novo ritmo. Interessante também notar que a designação de "Academia", nome com que batizou a agremiação vinte anos depois, já aparecia nesse livro como uma autodesignação dos moradores em relação a sua música.

O autor procurou contar o processo da gênese da escola. A mesma forma carinhosa de retratar os espaços físicos, o jornalista também utilizou em relação aos personagens. A partir de uma descrição física e comportamental, descreveu com reverência as figuras de Joaquim Casemiro, apelidado de Calça Larga, Antenor Santíssimo de Araújo, apelidado de Antenor Gargalhada, e Paulino de Oliveira. Esses personagens foram centrais, segundo Haroldo, nas tentativas dos moradores do morro do Salgueiro de criar agremiações Carnavalescas. Dos blocos às escolas de samba, destacou-se a importância das três agremiações, Depois Eu Digo, Unidos do Salgueiro e Azul e Branco, base da criação posterior da Acadêmicos do Salgueiro.

Sobre o processo de fusão, procurou desfazer a versão que definia a criação do GRES Acadêmicos do Salgueiro como fruto da união de três agremiações. Essa versão, repetida inúmeras vezes nas transmissões televisivas dos desfiles, foi esclarecida pelo autor que narrou outra versão para o fato. A união imediata, em março de 1953, foi da Depois eu Digo com a Azul e Branco. A Unidos do Salgueiro resistiu ao processo e ainda figurou por mais alguns anos como força independente. Após vários insucessos, a agremiação "enrolou a bandeira" e seus componentes foram se aproximando da nova escola do morro do Salgueiro. Ficou patente na obra a tarefa de desfazer o que tinha virado consenso na literatura sobre o Carnaval.

O jornalista creditou a intencionalidade da criação da nova escola a uma ação positiva da comunidade, pois percebeu que as três escolas separadas não causavam o impacto desejado no Carnaval carioca. Apesar da fama dos sambistas do morro do Salgueiro, suas pequenas agremiações não eram capazes de fazer frente às já estruturadas Portela, Mangueira e Império Serrano.

Além dos desfiles pioneiros do Salgueiro nos anos 1960, que discutirei nos próximos artigos, a obra apresentou os carnavais de 1972 até os preparativos para o Carnaval de 1984. Sobre esse período foram narradas as histórias sobre os desfiles, com detalhes dos enredos, sambas e resultados. Entre sucessos e fracassos, grande destaque foi dado ao bi-campeonato da escola em 1974/75, sob o comando de Joãozinho Trinta.

Apesar de toda a crise e a distância dos títulos nos anos 1980, Haroldo ressaltou que o lema da agremiação "Nem melhor nem pior, apenas uma escola diferente" empurrava o Salgueiro para continuar a buscar as inovações, como ser a pioneira em enredos sobre o meio-ambiente, por exemplo, O Reino Encantado da Mãe Natureza Contra o Reino do Mal (1979), e de trazer uma comissão de frente teatralizada e formada só por mulheres, atrizes da Rede Globo em Traços e Troças (1982).

Haroldo Costa reforçou a ideia de que o "preço da diferença", apresentada no dístico da agremiação, era a bússola de orientação, mas nem sempre era sinônimo de sucesso, como o segundo caso citado acima, que foi impiedosamente avaliado pelos jurados. No encerramento do livro, foi apresentada uma relação dos prêmios conquistados pelo Salgueiro no troféu Estandarte de Ouro. O autor listou a Ala dos compositores da agremiação e apresentou também toda a sua discografia.

Na próxima semana, destacarei outro livro emblemático na literatura sobre o carnaval carioca: As Escolas de Samba do Rio de Janeiro, do jornalista Sergio Cabral. Até lá!

Leia também:

- Pioneirismo do Salgueiro na temática afro-brasileira nos anos 60: verdade ou mito? - Parte 1

- Pioneirismo do Salgueiro na temática afro-brasileira nos anos 60: verdade ou mito? - Parte 2

- Minha paixão pelas escolas de samba

 

*Guilherme Guaral é historiador e colaborador voluntário do SRZD



Comentários
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    28/04/2014 21:53:55Rodrigo VasconcelosMembro SRZD desde 22/02/2014

    Grande mestre Haroldo Costa, faz muita falta nas transmissões dos desfiles! O melhor!

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    28/04/2014 09:11:48Marcos Vinicius Pereira MonteiroMembro SRZD desde 08/12/2012

    Sempre na leitura! Parabéns!

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