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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

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02/06/2014 13h45

Passistas na Curva!
Hélio Ricardo Rainho

Temos visto, em nossas reflexões e entrevistas do projeto "Quem És Tu, Passista?", dedicado à preservação dos artífices da dança do samba nas quadras e na avenida, algumas questões problemáticas. Indagados sobre temas por eles mesmos fomentados - tais como "identidade" (samba "de passista" ou "samba de malandro") e "valor do passista" (ser ou não ser "valorizado" pela escola) - reflexões apareceram e merecem ser depuradas.

No tocante à IDENTIDADE, muito se ouve falar do chamado "samba de malandro", uma provável fusão cultural entre a releitura da Lapa boêmia com seus malandros ancestrais (figurativamente sempre presentes nas escolas de samba) e a essencial dança de passista celebrizada por Tijolo da Portela, considerado pelos registros históricos o "criador" dessa dança, nos anos 50. Curiosamente, a despeito de um discurso de afirmação atual de que a dança do passista masculino é originariamente "um samba malandreado", o que vemos nas pesquisas sobre o próprio Tijolo acerca dessa manifestação soa bastante diferente:

"(...)sapato de couro, salto carrapeta e meias brancas, cano longo até quase os joelhos. Calça azul, camisa branca de man­gas compridas e colete azul. Passava pela avenida levantando aplausos do público. Ti­jolo, Tijolo, Tijolo!, gritavam à sua passa­gem (...) Para chegar àquele conjunto de coreo­grafias, Tijolo confessa terem sido diversas as suas fontes de inspiração. A maioria delas, contudo, assimiladas no cinema"
[ Fonte: A Dança do Samba - Exercício do Prazer, José Carlos Rêgo ]

Foto: Reprodução de Internet

Como se vê, o figurino daquele que é tido como "passista original" passava longe da caracterização do malandro que aprendemos a admirar atualmente. Somente na segunda metade dos anos 70, com a proeminência dos malandros milongueiros sambando como passistas na ala "Sente o Drama" do Império Serrano, que coincide com a criação do musical "Épera do Malandro" de Chico Buarque, aparecem as referências ao personagem "malandro" nos figurinos dos passistas. Que, também a partir desse momento, deixaram de se apresentar espalhados na escola e passaram a constituir "alas". O passista vestido de malandro, portanto, não remete à origem desse personagem, mas a um fenômeno ocorrido nos anos 70, que ganhou vulto e integrou, de certa forma, as performances de dança de salão às alas de passistas de escola de samba.

Também é relevante o registro da influência do cinema no repertório coreográfico de Tijolo. Saber que a dança do passista originou-se de elementos coreográficos diversos, inclusive do cinema, via de regra também refuta as constantes associações entre a ginga do passista e a evocação espiritual de entidades que, nem mesmo dentro de seu panteão, jamais se manifestaram "sambando no pé". Recorrente equívoco e temerosa associação que descaracteriza a arte do passista. Entendemos, por respeito e reverência a essa arte, que seus artífices nunca sambaram e nunca sambarão porque estão "encostados" ou "manifestados": passista samba porque é artista, porque cria e reproduz passos de samba. Não obstante a religiosidade inerente ao sambista, essa associação só nos convenceria se um médium sem nenhum vínculo com o samba conseguisse sambar graciosamente como passista quando incorporado de alguma entidade. Como sei que isso jamais será possível, fico no aguardo de que alguém, se for o caso, incorpore, então, não um "malandro", mas o próprio Tijolo, que morreu há algumas décadas e poderia "reaparecer" desfilando lindamente na avenida.
Será que algum "cavalo" se habilitaria?!

No que tange ao VALOR do passista, considero um tanto quanto temerosos os rumos da "corrida do ouro" para a profissionalização desse segmento. Muito provavelmente em busca de holofotes e fama, a grande maioria dos passistas parece muito mais preocupada com "shows", "eventos" e "valor individual" do que com a escola de samba, que é sua real fonte de pertencimento. Quando se usa o termo "valor", são raras as vezes em que vemos um passista considerar um valor intrínseco o simples fato de vestir a camisa de sua escola. Para eles, ter "valor" é receber cachê, ter lanchinho ou ser convidado para os shows da escola. Parece que o vínculo de pertencimento ao pavilhão da agremiação é fator secundário, ou mesmo irrelevante.

Entenda-se que o passista só existe em dois lugares: no frevo (de onde o nome originariamente foi retirado) e na escola de samba. O passista só é passista "de" e "para" a escola de samba! Deveria, portanto, desenvolver uma carreira motivado para as coisas da escola, para valorizar e prestigiar a escola, não o contrário. Afirmar-se como profissional e como artista da dança do samba é uma prerrogativa que deve acontecer em consonância com a escola de samba: construir uma história ligada a uma bandeira, a uma escola, e não reivindicando espaço e destaque para si mesmo. O que temos observado no projeto "Quem És Tu, Passista?" é um elo de pertencimento maior com os diretores/coordenadores do que com as escolas: "Se meu coordenador sair daqui, eu saio". A justificativa é de que o passista sente-se mais "valorizado" pela coordenação do que pela escola. O que também nos revela um considerável descaso na gestão das escolas de samba, que parece terceirizar os cuidados dos passistas ao encargo de seus coordenadores, tornando o segmento vulnerável e dissociado de sua razão de ser, que é pertencer e identificar uma escola de samba.

As escolas/academias de dança são importantes para aprimorar a dança, mas a afirmação técnica do genuíno passista - e sua consequente profissionalização - devem advir de uma alma de passista cujas fontes são a paixão e o orgulho de ser ESCOLA DE SAMBA. Essa lição, pelo visto, vem sendo pouco difundida e incentivada. Omissão das escolas de samba em assumirem e preservarem seus passistas, é preciso ressaltar.

O passista de escola de samba deve pensar primeiro em valorizar a escola, para depois ser valorizado por ela. Foi assim com todos os bambas e mitos do passado. Primeiro eles construíram um legado dentro das escolas de samba, depois tiveram seu reconhecimento. É lá na escola de samba que ele aprende e desenvolve sua habilidade. Fora dali, será dançarino, performer, qualquer outra coisa. As esquinas não são o território dos passistas, senão as quadras e a avenida dos desfiles!

Precisamos que os passistas de escola de samba olhem para si mesmos e se identifiquem como elementos que representam o samba territorial de uma agremiação, embaixadores da ginga e do estilo de sambar de uma escola. Passistas que, independente de sua vocação religiosa, sambem por si sós, provem que estão sambando porque são artistas genuínos, donos de seu corpo e de sua mente, conscientes de sua técnica durante a execução de seus passos; autores de seus movimentos, sem associá-los a rituais místicos que depreciam sua criação artística, descentralizam sua figura do processo criativo de sua própria dança, estando inteiramente dissociados do ofício.

Que nossos gloriosos passistas de escola de samba sobrevivam à ameaça da "modernização", e não se descaracterizem de sua representação do corpo simbólico da escola de samba, cedendo aos apelos do ego e do dinheiro que tantos malefícios já nos causaram e vêm causando a essa manifestação popular.

É preciso ter cuidado pra não derrapar na curva...

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Twitter @hrainho


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Comentários
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    03/06/2014 01:37:07capoeira=Aluísio MachadoMembro SRZD desde 21/09/2011

    Tenho pena do cidadão que se veste de Zé Pelintra para enganar o povo que samba == E olha que tem muitos == Malandro só pede carona para malandro, quando já é amigo de viagem == O PÃ? DA DANÃ?A

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