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17/07/2014 11h48

Legados da Copa
Adalberto Cardoso*

Terminado o mundial de futebol, e depois de tantos balanços já feitos sobre seus legados, gostaria de levantar alguns pontos para a discussão sobre "ganhadores" e "perdedores", tendo em vista o cenário eleitoral.

Torcedores da Copa do Mundo. Foto: FifaPerderam os que apostaram no "não vai ter Copa". Foi uma torcida variada. Incluiu ativistas sociais que estiveram à frente das manifestações de junho de 2013, alguns mais radicalizados e abertos à violência, outros sonhando com um grande levante que inviabilizaria o acesso aos estádios. Incluiu também alguns meios de comunicação, que só tiveram olhos para o que não estava pronto e, generalizando, construíram a ideia de que nada estaria pronto: nem estádios, nem aeroportos, nem metrôs, nem BRTs, nem redes de telecomunicações, nada. Incluiu, ainda, os partidos e candidatos da oposição, que ajudaram a construir o clima de caos e desmando, imaginando, com isso, ganhar alguns pontos quando suas previsões catastrofistas se confirmassem. E incluiu a própria Fifa, que afirmou, em várias ocasiões e até as portas do evento, que a escolha do Brasil havia sido um erro.

A população e os turistas que foram aos estádios viajaram pelo país por seus aeroportos e estradas, ocuparam as praias em festa, enviaram selfies dos estádios pelas redes wi-fi e de telefonia (o Facebook informou que o trânsito pela rede social bateu todos os recordes durante o evento), ficaram atônitos. Com tudo funcionando, e na maior parte das vezes funcionando bem, como explicar o clima de fim de mundo da cobertura anterior, inclusive internacional? Bem, o "não vai ter Copa" foi um movimento político, que apostou no fracasso da Copa como moeda eleitoral. Aposta, hoje se sabe, de alto risco.

Ganharam os que trabalharam para o sucesso do evento. A associação entre poderes públicos nos três entes federativos e iniciativa privada produziu a infraestrutura necessária ao bom andamento do esporte. Conseguiu-se inclusive desbaratar uma quadrilha internacional que operava no coração da organização das Copas há pelo menos 16 anos... Problemas houve, e haverá sempre (que o digam os sul-africanos, os britânicos e mesmo os alemães), mas não foram suficientes para eclipsar o sucesso.

Se a turma do "não vai ter Copa" estaria agora tocando o bumbo sobre o fracasso, não se pode recriminar os ganhadores de alardear seu sucesso. Todos esperavam dividendos políticos do evento. Um lado está colhendo o que plantou.

Há, porém, um perdedor inesperado, que nada tem a ver com a organização do evento e seus dividendos eleitorais. Reproduzo as palavras do reitor da Uerj, sobre a inaceitável prisão de ativistas antes da final: "o aprisionamento preventivo para quem tem atividade regular, endereço fixo e atividades que se relacionam com seu posicionamento ideológico não é a melhor atitude para a democracia".

 

*Artigo republicado com autorização do autor. Adalberto Cardoso é diretor do IESP-UERJ.


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