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Sidney Rezende

Sidney Rezende

ATUALIDADE. Jornalista, diretor do SRZD e um dos profissionais mais inovadores do país.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



27/07/2014 12h12

Os jornalistas precisam aprender a ouvir
Sidney Rezende

A gigantesca massa humana que foi às ruas reivindicar mais qualidade de vida no ano passado obrigou-nos a refletir sobre o melhor modelo de como levar informação da luta social ao cidadão brasileiro. É como se nosso ofício diante daquela fratura exposta tomasse de 7 X 1. O impacto dos protestos repercutiu nas mídias local e global. 

Manifestante. Foto: Reprodução

Na ocasião, a imprensa foi duramente criticada. Talvez um pouco menos que governantes que não conseguiram melhorar os serviços de transporte, saúde, educação e segurança do país. O movimento popular entrou para a história e provavelmente demorará muito tempo a se repetir. 

O reflexo é sentido até hoje. Foi um bom momento para transformações. Mas ele foi desperdiçado. Esperava-se inovações nas práticas democráticas na nossa relação com a sociedade. É frustrante constatar que elas não vieram. Nem por parte da estrutura política e nem pelo modelo de gestão da Comunicação. 

Paralelamente, a "Mídia Ninja" e as ações dos black blocs partiram para o confronto e suas ações desencadearam mudanças na forma de cobertura de manifestações públicas. Principalmente da maneira como os repórteres sempre cobriram estes eventos. Ficou perigoso identificar o profissional com o veículo de comunicação a que ele pertence. 

Os repórteres foram descobrindo aos poucos, e de repente, que ocupar as ruas era muito perigoso. Alguns se intimidaram. Nosso dever é o oposto. Jornalistas têm a obrigação de estar justamente onde não se quer que eles estejam. Levar a notícia é parte inerente da vida de quem jurou se dedicar a este ofício. 

Neste momento, estamos mal parados. Nos últimos 15 meses, assistimos impassíveis a multiplicação do "Jornalismo Biquíni", aquele que "mostra coisas interessantes, mas esconde-se o essencial". O jornalismo tornou-se partido político e o jornalista torna-se notícia. E ainda pensa que isso é o certo. Não é. 

Antes de tudo isso, já se reclamava que a imprensa publicava a acusação sem devida apuração. Quantas vezes ouvimos que a denúncia ganha destaque na capa e o desmentido é publicado no rodapé da página interna. 

Não é de hoje que nos acusam de destruir reputações. Tom Wolfe, colega ilustre, já disse isso certa vez: "Só existem duas maneiras de fazer carreira em jornalismo. Construindo uma boa reputação ou destruindo uma". 

Um dia, um empresário me disse com toda a educação: "Por que quando realizo um evento importante no meu hotel vocês não citam o nome do estabelecimento? Mas se tiver um incêndio num quarto o nome do hotel é estampado na capa em letras garrafais?". 

Precisamos parar de apontar o dedo em riste para quem julgamos ser os culpados. Jornalista não prende, não realiza inquérito, não julga. Jornalista deve informar tudo o que é pertinente ao fato. Não existe neutralidade, e, sim, isenção. Notícia não tem somente dois lados, e, sim, vários. Em alguns casos, incontáveis. 

Jornalista está se achando mais importante do que ele é. E, com esta falsa convicção, estamos sendo conduzidos para o cadafalso. 

Esta longa introdução é para chegarmos até uma conclusão simples: nós, jornalistas, não gostamos de ouvir. Não sabemos ouvir. Não aceitamos críticas. Somos arrogantes mesmo que não pensemos isso de nós. Talvez porque sejamos tão ludibriados, enganados por fontes maldosas e presos a horários perversos, que já partamos do princípio que estamos certos.

Por não termos paciência com o outro, mesmo que este "outro" seja a fonte que alimenta nosso "produto", estamos multiplicando este "ebola da arrogância" para as novas gerações de profissionais. E o grave é que os meninos que estão chegando são filhos de uma escola deficiente, com má formação cultural, educacional e intelectual. 

E, o mais grave, essa turma diz detestar política. Arrisco dizer que a maioria sequer sabe a diferença do que faz um deputado para um senador. 

Nas redações, nossos templos de trabalho, os jornais de papel e as revistas raramente são abertos. Nada é lido. Os garotos dizem que esse hábito é para idoso. O aparelho de TV fica ligado num só canal. Por isso se tem uma visão única. Neymar disse que jogadores brasileiros têm preguiça de treinar. Jornalistas têm preguiça de ler. O rádio, veículo sempre atual, é algo alheio à "cultura" da nova geração.  

Mas será que os focas não se informam pela internet? Falso. A esmagadora maioria prefere trabalhar no ar condicionado, não circular onde está a notícia, não andar pelas ruas, não conversar pessoalmente com o povo. Se pudessem escolher a opção, seria navegar nas redes sociais. Os jovens curtem basicamente o que circula no Facebook. 

O compromisso primário da profissão: "Para quem trabalho? Para que serve meu ofício? Dedicação máxima para levar informação para quem não tem, ser útil aos pobres" são utopias. 

Na verdade, estamos caminhando para algo parecido com o que fez o mocinho de o "Planeta dos Macacos". Seu laboratório gerou uma nova espécie de símio. 

O problema de não sabermos ouvir as ruas está nos empurrando para o descrédito. A imprensa surtou. Ao mesmo tempo que se chama ativistas sociais de vândalos, também é permitido chamá-los de jovens. Depende da ocasião. O pêndulo vai para um lado ou para outro conforme interesse específico. 

As redações que outrora abrigavam o pluralismo da sociedade hoje são redutos da velha direita. Aqueles que fizeram 1964 podem se orgulhar. Seus filhotes cresceram, ganharam musculatura. A direita venceu.

 Vamos ouvir mais a opinião pública e menos a publicada, antes que seja tarde.


Comentários
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    12/11/2014 11:04:00Sergio Braz da SilvaMembro SRZD desde 27/04/2016

    Olá Sidney, meu camarada!!! Sou o Sergio Braz, lembra de mim? trabalhamos em um banco no passado, começamos como office boy, lembra? Legal, ver que você se tornou um dos melhores profissionais do jornalismo, acompanho você desde a época da CBN, inclusive tentei falar com você diversas vezes, mas não consegui. Parabéns pelo seu trabalho, e digo foi muito bom trabalhar com você um dia. Grande abraço. Sergio Braz

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    11/08/2014 13:49:42Dacio MaltaAnônimo

    Adoraria ter escrito este artigo. Parabéns.

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    05/08/2014 09:16:48Fernando SoaresAnônimo

    Algumas questões: "Jornalismo Biquíni", aquele que "mostra coisas interessantes, mas esconde-se o essencial", por que não seria "Jornalismo Sunga", aonde você esconde seu machismo? Outra, a Mídia Ninja, Fora do Eixo, não partiu para o ataque, e a tática de autodefesa black bloc, como é de autodefesa, de garantia do direito de resistência à ordem ilegal, ao abuso de poder, não vai para o "confronto"... E o problema não é o facebook ou as redes sociais, que nos trazem muito maior diversidade de fontes e opiniões que a mídia corporativa, o problema é o ódio de classe dos patrões e a manipulação dos processos de produção da informação a seu bel prazer... Naturalizar as questões sociais como preguiça também é uma forma de preguiça!

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    03/08/2014 07:17:52Daise OliveiraAnônimo

    Consciente,pertinente e de uma verdade clara e assustadora. Obrigada por nos trazer à essa reflexão.

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    01/08/2014 16:07:38Aurora SelesAnônimo

    Sidney, seu texto é excelente e autêntico. Parabéns!

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    31/07/2014 11:56:36Marcos MartinsAnônimo

    Sua mea-culpa me impressionou, pela coragem de cortar na própria carne. O que hoje, como você escreveu, não existe dentro da profissão. Sempre te admirei. Mas, com este texto, atingiste a excelência. Bravo!!!!

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    30/07/2014 13:47:35Luis PhilipeAnônimo

    Acredito que também haja despreparo das "ruas" em entender o jornalismo. Falta conhecimento e leitura para entender o que, muitas das vezes, está sendo dito. Tenho certeza, por exemplo, de que várias pessoas me xingariam antes de chegar na próxima frase, e é a esse problema que me refiro. NO ENTANTO, isso não anula nada do que você disse com propriedade e conhecimento de causa...assino embaixo. Parabéns pela coragem! Abs.

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    30/07/2014 10:19:30LauraAnônimo

    Que bom! =)

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    30/07/2014 10:11:04Sidney RezendeMembro SRZD desde 23/05/2006

    Laura, muito obrigado por seus alertas. Já corrigimos. Valeu !!!!!

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    30/07/2014 00:40:50LauraAnônimo

    Sidney, Um dos melhores textos que li sobre o assunto. Parabéns! gostaria de corrigir dois pequenos erros. "jornalistas têm preguiça" ficou faltando um "i". No final você fala "as redações que outrora abrigava (deveria ser abrigavam) o pluralismo da sociedade hoje é (deveria ser hoje são)..." Desculpe a chatice! Beijos

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    29/07/2014 23:46:11Ricardo RaposoAnônimo

    Parabéns pela coragem e desprendimento para compartilhar.

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    29/07/2014 16:01:16Márcio KerbelAnônimo

    Faltava o contraponto, outras visões que não repercutissem o senso comum, faltava a alternativa JB, a escola do fato no ato, dos espaços abertos para todas as vozes da resistência democrática. Não falta mais, se perdemos o JB e sua rádio, temos agora o SRZD e suas plataformas. Uma regulação que modernize as relações na comunicação do país, pode estimular novos empreendedores e arejar este terreno, tornando possível, o surgimento de novos profissionais independentes e conscientes do seu papel de profissionais da notícia.

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    29/07/2014 11:51:31Maercio Daniel RamosAnônimo

    Espetacular! "Jornalista não tem que ser neutro, tem que ser isento" Prestem bem atenção nessa frase do Sidney. Parabéns!

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    28/07/2014 00:00:37Paulo PimentelAnônimo

    Excelente mea culpa. A midia não deve demonizar as manifestações como vem fazendo. Pelo contrário. A hipocrisia de se criticar as mazelas políticas sem valorizar a chamadàs ruas cria no espectador inteligente um paradoxo. Parabéns pela lucidez.

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    27/07/2014 23:26:49Zulma MercadanteAnônimo

    Acredito que estamos vivendo uma intensa crise ética em vários setores da sociedade. Junto a isso passamos por um momento de espetacularização da vida pessoal até de pessoas que possuem uma função na sociedade de reportar. Reportar, averiguar, checar e certificar são algumas das funções do jornalista. Me parece que vários profissionais tem "perdido a mão" em suas colocações. Discutir a distorção dos valores profissionais dessa profissão é fundamental. Estou entrando no mercado com uma grande preocupação no assunto. Me levanto disposta a enfrentar esses distorções.

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