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Maria Apparecida

Maria Apparecida

CARNAVAL. Historiadora, escritora e decoradora, é considerada uma das mais respeitadas autoridades do Carnaval de São Paulo. Há 35 anos começou a se interessar pelo samba, em que desenvolveu vários projetos. Entrou para a história ao se tornar a primeira carnavalesca da folia paulistana.

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06/11/2014 00h01

Mantendo as tradições
Maria Apparecida Urbano

Conversando com jovens estudantes, fizeram-me a seguinte pergunta: como deveriam ser os desfiles de Escolas de Samba para que não se perdesse e se mantivesse o respeito às raízes e às tradições?

Componente da Camisa Verde e Branco. Foto: Divulgação

Pois bem, vejamos primeiramente como é hoje: dando início aos desfiles, considerados um grande espetáculo que as escolas de samba apresentam, vem sempre a comissão de frente, que hoje é alegórica, muito bem coreografada.

Mesmo sendo considerada muito interessante, nada impediria de termos logo em seguida, a apresentação da comissão de frente tradicional, como era no principio, integrada pelo presidente da escola e sua diretoria.

A função da comissão de frente, por sinal trajada com roupa de gala, smoking, cartola ou chapéu, e bengala, era a de cumprimentar o público presente e apresentar a escola.

Gestos simples, porém feitos com muito respeito. O presidente fazia a marcação dos gestos. Mais tarde, a comissão passou a ser mais requintada, com doze componentes, de preferência todos com a mesma altura, e seguindo o regulamento ditado pela Uesp. Até há bem pouco tempo o presidente da Mocidade Alegre, Juarez da Cruz, vinha a frente, usando o seu gorro de pele e seu charuto, e isso era a sua marca.

Portanto, mesmo havendo uma comissão de frente alegórica, fazendo a abertura, deveria ser mantida a verdadeira comissão tradicional com o seu presidente e principalmente com a sua diretoria. É uma maneira de valorizar as tradições e fazer uma demonstração pública de quem é o presidente da escola que está desfilando, assim como no teatro na apresentação de um espetáculo onde se vê e se conhece quem é o diretor da peça e seus assistentes, que ajudaram a montar o espetáculo.

Casal de mestre-sala e porta-bandeira da Acadêmicos do Tatuapé em 1975. Foto: USP

Nos idos anos 70 e 80, antes de começar o desfile, eram distribuídos nas arquibancadas para o público livretos ou folhetins, que traziam o resumo do enredo, os autores, o samba enredo e seus compositores e o nome do carnavalesco e de toda a diretoria.

Era muito importante para quem estava assistindo que podia assim acompanhar o desenrolar do desfile lendo o enredo.

É como se faz até hoje nos teatros em que se recebe, na entrada, folhetos que anunciam o nome da peça, o assunto, o nome dos autores e dos diretores.

São dados muito importantes para quem está assistindo. Sem eles, apenas podemos admirar a beleza das fantasias e alegorias, e tentar, durante o desfile, decorar ao menos o refrão do samba enredo, imaginando qual é a história que está sendo contada.

Após a passagem da comissão, entra em cena o carro abre alas, cuja função é anunciar o nome da escola e o nome do enredo. Antes, até da década de 60, quando as escolas tiveram que acrescentar em seus nomes, Grêmio Recreativo Cultural, passou a ser obrigatório que no primeiro carro, figurasse o nome da agremiação.

A Barroca Zona Sul, na sua fundação em 1974, por Sebastião Eduardo do Amaral, com a intenção de formar uma das maiores escolas da cidade, criou o nome: Grêmio Recreativo Cultural Beneficente Escola de Samba Faculdade Barroca Zona Sul, o que não era comum naquela época, pois Faculdades existiam muito poucas; mas ele achava que, como seria a melhor escola, ela seria uma "Faculdade" do Samba. Além do nome completo das escolas, deveriam também trazer o nome do enredo.

Na FESEC, Federação das Escolas de Samba, foram discutidos em simpósios, encontros e reuniões, este dois quesitos. Isto porque antigamente era o abre alas que vinha na frente, pedindo "passagem". Eram faixas ou tripés, onde se lia: a escola tal pede passagem para apresentar o enredo tal. Era o primeiro quesito a entrar na avenida; depois é que vinha a comissão.

Mestre-sala e porta-bandeira, embora tivessem fantasias diferenciadas, não eram tão luxuosas e nem tão grandes, e suas danças eram mais requintadas. A maior atenção era dada ao pavilhão. Hoje, o luxo impera na apresentação dos casais, e creio que muitos casais desconhecem a origem dos desenhos dos seus pavilhões.

Baiana. Foto: Divulgação

Agora, vamos falar das baianas, uma das grandes tradições de todo o Carnaval, as "Mães do Samba", cuja vestimenta tanto lembra as mulheres quituteiras da Bahia, como das Mães de Santo dos terreiros de Candomblé. Saias rodadas, batas rendadas, pano da costa, turbantes, colares, pulseiras e balangandãs. Essa é a verdadeira vestimenta das baianas das primeiras escolas de samba; são as raízes. Elas que por muitos anos conseguiram criar seus filhos que se tornaram grandes sambistas.

Embora hoje exista uma ala chamada "das baianas", usando saias extremamente grandes, já não existem mais os itens tradicionais: são fantasias luxuosas, pesadíssimas, com grandes costeiros e chapéus, quase afogando as senhoras que vestem tais fantasias com tantos enfeites.

Seria muito bom que na frente dessa ala, que de "baiana" não tem nada, se apresentassem ao menos umas trinta baianas com trajes típicos das baianas tradicionais. Seria uma volta ao passado, quando se conservavam as tradições africanas.

Não me parece tão difícil que, dentro desse magnifico espetáculo, pensassemos em conservar as tradições do samba, passando para os jovens essa nossa cultura sambística, que eles devem conhecer e aprender a respeitar. Fica aqui a sugestão de quem vem lutando durante décadas pela conservação da nossa cultura afro-brasileira.

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