SRZD


06/11/2014 10h33

O urubu e o galo: crônica de uma semifinal épica
Diego Mello

A imensidão azul não acabava. Olhava para frente, olhava para os lados e a paisagem não mudava. De repente, um vento bateu e o olhar se perdeu. Em poucos segundos, o corpo rodopiava e caía em uma velocidade jamais vista. O urubu estava a toda indo para o chão. Foram segundos de desespero, mas logo tudo mudaria. Ao mesmo tempo em que abria os olhos, o animal tomou o controle de seu voo. O olhar dele foi direto para um círculo com uma grande área verde. Foi ali que resolveu descansar e, ao chegar lá, percebeu o que o esperava.

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Diego Tardelli comemora classificação. Foto: Divulgação

Milhares de pessoas se reuniam no espaço e gritavam em uma só voz. O urubu poderia ter se assustado e fugido - como outros animais já haviam feito -, mas por um motivo que não soube explicar, o rubro-negro que coloria o círculo o deixava mais forte. Foram precisos poucos segundos para as forças serem recuperadas. A ave se sentia bem ali e fez questão de sobrevoar cada centímetro da área. A cada avanço, as vozes aumentavam e os gritos ficavam mais altos. Se pudesse sorrir, era isto que ele faria. O urubu estava em casa.

Quando pousou novamente no verde, o urubu recolheu o corpo, relaxando. Os olhos já estavam se fechando quando uma sombra apareceu. Como quem quer defender o seu espaço, em um só movimento, o animal se ergueu. Foi quando um galo forte apareceu. Com penas pretas e brancas, o animal caminhava com um ar de superioridade. O galo tinha a certeza de que ali era o seu lugar. Ele só não sabia que aquela casa já tinha dono.

O dono da casa, então, subiu, subiu e atacou. O galo, indefeso, não resistiu ao primeiro golpe, mas tentou a todo custo machucar o rival. Insatisfeito, o urubu foi ao ataque novamente. Em um voo rasante, ele confundiu o adversário, chegou a ser derrubado, mas se recuperou. O galo estava derrotado.

O intruso saiu depenado, mas prometendo se vingar. Ao urubu, restava relaxar. O dono da casa se sentiu mais forte, ainda mais quando a imensidão rubro-negra o reconheceu. "Eu juro que no pior momento vou te apoiar até o final".

Durante uma semana, o urubu permaneceu no círculo rubro-negro. O animal recuperava as forças para uma batalha que sentia que precisaria disputar. Afinal, a promessa de vingança do galo ainda estava fresca em sua memória. E as promessas do adversário costumavam ser cumpridas, ou pelo menos era a informação que circulava.

Mesmo com um ar de preocupação, foram dias tranquilos. O único momento de tensão foi quando um indiozinho apareceu. Apesar dos esforços, ele logo sucumbiu e correu após ser atingido três vezes pelo urubu. De pouco em pouco, a força do animal ia aumentando.

As notícias sobre um possível contra-ataque do galo chegavam aos poucos e a desconfiança do urubu só aumentava. Pensativo, o animal resolveu arriscar. Recebendo o apoio de todos, ele levantou voo em direção ao território inimigo. O urubu sabia que não estaria sozinho por lá. Uma multidão rubro-negra prometera que o acompanharia e aqueles que não conseguiriam avisaram que estariam com o pensamento no grande momento.

O galo sabia que o urubu estava a caminho e já o esperava em sua grande mina. E assim como o adversário, ele não estava sozinho. Uma multidão vestida de preto e branco exigia que ele lutasse e vencesse. "Esse é o nosso ideal", eles gritavam.

O clima era tenso, mas de esperança em ambos os lados. Para o urubu, restava acabar com o que já tinha começado uma semana antes. O trabalho para o galo seria mais difícil, mas o desejo de vingança falava mais alto.

O urubu entrou na mina de forma cautelosa. Com passos curtos, a ave fazia o reconhecimento do local e armava os planos para derrotar o galo. Mas o dono da casa não quis esperar e já partiu para o ataque. Enquanto os avanços dele passavam perto, o visitante aguardava para dar o bote certeiro. E assim o fez.

Com muita rapidez, o urubu surpreendeu e conseguiu ferir o galo. Não demorou muito para o dono da casa responder. O visitante foi atingido. Feridas, as duas aves se recolheram quase que simultaneamente e, cansadas, precisaram recuperar as forças.

Os gritos que chegavam acabou com o descanso das duas aves. "Lutar, lutar, lutar, com toda nossa raça para vencer", ouvia o galo. Para o urubu, a fala era: "É meu maior prazer vê-lo brilhar, seja na terra, seja no mar, vencer, vencer, vencer".

Foi o galo que tomou a iniciativa, pressionando ainda mais o urubu. O plano do visitante era o mesmo de antes: esperar o bote certeiro. Mas dessa vez não deu certo. Insistente, o dono da casa acabou conseguindo ferir mais uma vez o adversário.

Em desvantagem, o urubu aguentava as investidas do rival. Escapando de todas as formas dos ataques, ele tentava desgastar o adversário. O galo, porém, ganhava força a cada momento. A imensidão em preto e branco o empurrava na direção da vitória. O visitante foi atingido mais uma vez. E mais outra vez.

A confiança do urubu foi destruída e, triste, tomou o caminho de casa. O galo cumprira a sua promessa. Forte e vingador, ele mandou o visitante embora, revertendo toda a situação. Sozinho na mina, ele olhava toda a alegria em preto e branco que antes o conquistara. Mas mal sabia ele que uma raposa o espiava.

 

 

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Comentários
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    07/11/2014 20:44:26Felipe CAnônimo

    Ã?tima crônica.

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