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Guilherme Guaral

Guilherme Guaral

Ator, autor e diretor de teatro, cinema e televisão. Ganhador do Prêmio Mambembe de Melhor Autor (1998). Professor da rede estadual de educação. Professor da Universidade Veiga de Almeida, desde 2002. Formado em História (UERJ), mestre em História (UERJ) e doutor em História (UFF). Lançou em 2012 o livro 'O Estado Novo da Portela'. Já atuou em várias funções acadêmicas e administrativas: coordenador do curso de História da UVA, Campus Cabo Frio (2009-2013), diretor de escola estadual (2001-2004), diretor do Teatro Municipal de Cabo Frio (2005-2008) e secretário municipal de Cultura de Cabo Frio (2009).

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28/11/2014 17h52

"Trinta": O cinema vai ao barracão
Guilherme Guaral

 As escolas de samba já foram retratadas algumas vezes no cinema. Na maioria das vezes, a história do filme se passa em uma comunidade e a escola é fictícia. Desde o filme Orfeu Negro ou Orfeu do Carnaval de 1959, passando pelos filmes do movimento do Cinema Novo esse namoro acontece. Alguns poucos e raros documentários também foram produzidos, tendo as agremiações como tema central, colocando em destaque seus personagens principais. Pela importância na vida cultural e social da cidade do Rio de Janeiro, acredito que o assunto ainda foi pouco abordado.

Joãosinho Trinta. Foto: Reprodução

Desde as primeiras notícias sobre o filme "Trinta" fiquei bastante entusiasmado. O destaque a Joãosinho Trinta, um dos maiores nomes dos desfiles, um carnavalesco na melhor acepção da palavra, já era impactante. Quando me aprofundei sobre o recorte que seria dado fiquei ainda mais ansioso para assistir o filme. Retratar um barracão, na contagem regressiva para um desfile, sendo este o primeiro assinado por João nos Acadêmicos do Salgueiro renderia um roteiro incrível. E de fato, rendeu.

O filme mescla uma narrativa histórica, com várias licenças poéticas, onde os personagens desferem frases que ficaram famosas na mitologia do carnaval carioca (pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual - Joãosinho Trinta; Tem que tirar da cabeça o que do bolso não dá - Fernando Pamplona) que não foram ditas naquele contexto, mas ajudam a compreender o personagem em questão.

Algumas passagens são frutos de uma cristalização da narrativa histórica, quando, por exemplo, a personagem Isabel (Valença) se recusava a desfilar como destaque no desfile de Joãosinho, pois poderia ofender Pamplona que a teria eternizado como Chica da Silva. Com todo respeito e admiração que tenho ao Pamplona, reafirmo que esse desfile emblemático do Salgueiro em 1963, que eternizou Isabel Valença como a escrava que se tornou uma dama, Chica da Silva, foi concebido e desenvolvido por Arlindo Rodrigues, que, aliás, só foi mencionado uma vez ao longo de todo o filme. Pequenos deslizes que não chegam a comprometer o todo.

O longa-metragem tem vários méritos: o elenco é um deles. A maioria dos atores está muito bem e Matheus Nachtergaele é um Joãosinho Trinta "reencarnado". Com uma atuação primorosa que guarda grande carga dramática nos silêncios, nos devaneios e nas explosões, situações características do carnavalesco na sua vida real. Percebe-se a entrega do ator e podemos "ver" Joãosinho e imaginar seus primeiros anos de envolvimento com as escolas de samba, e como esse encontro se tornou fundamental para a história dos desfiles e para a cultura brasileira de maneira geral.

O filme consegue ser poético e dramático. Mistura perfeita em se tratando dos preparativos para um desfile. A narrativa em contagem regressiva é genial e nos faz entrar na adrenalina do momento final. A cenografia, os figurinos, a edição, o roteiro e costurando tudo, a direção, são pontos de excelência no longa. O ingresso vale por cada cena do filme. Se você não gosta de Carnaval: assista ao filme! Se você é apaixonado por escolas de samba,  o que está fazendo parado que ainda não foi assistir a essa obra de arte?!?!?

 


Comentários
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    01/12/2014 22:26:02Diogo BonfimMembro SRZD desde 19/08/2010

    Sabe o que eu fico mais chateado professor Guilherme Guaral? Ã? que nesse exato momento, não há 1 cinema no Rio de Janeiro exibindo o filme! No Rio pouquíssimos cinemas exibiram o filme que ficou apenas 1 semana em cartaz! Um absurdo!

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