SRZD



Dicá

Dicá

CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



11/12/2014 15h00

1975, um ano de sambas memoráveis
Dicá

No ano de 1975 com o enredo "Tropicalia", de Elifas Andreato, desenvolvido por um dos mais completos sambistas que pisou na terra da garoa, o lendário carioca Octavio da Silva, o Talismã, poeta, músico, carnavalesco e compositor, o "Trevo" da Barra Funda trouxe um samba de Neffi Caldas e L.C Xuxu, que dava sequência em Sampa a década de ouro da Camisa Verde e Branco, com a conquista dos campeonatos de 1974, 75, 76, 77 e 79.

Bethânia, Caetano, Gal e Gil. Foto: Acervo

O enredo verde e branco baseado no movimento musical dos baianos Gil, Veloso, Gal, Bethania, entre outros, lembrava a necessidade de mostrar o que era nosso, o que nós brasileiros tínhamos de original, revivendo a inspirada semana de Arte Moderna. O certo é que a tropicália combatia o estrangeirismo exacerbado e suas versões "brazuca" que musicalmente eclodiam em sucessos através dos "galãs" da "Jovem Guarda", representados pelo seu eterno rei...

A minha querida Rosas de Ouro da Brasilândia, debutava no grupo de elite das escolas de samba, obtendo em seu singelo e "rico" desfile o honroso segundo lugar. O bar do Gato, o bar do Moraes, Inferninho, Catimbó, Tiro ao Pombo, Terezinha, Baixada dos Macacos, Baixada do Maestro (alô velha guarda!) amanheceu em festa! E o samba do nosso grande poeta, Zeca da Casa Verde, pela Brasilândia ecoou:

Trecho do samba "Rosas de Ouro na Rua" - 1975

"É lindo contemplar a natureza
Que beleza é o clarão da lua
Reparem as estrelas
Como brilham lá no céu
Por isso nosso tema é rua
Lembramos a memória de um poeta
O príncipe da poesia
Poema de Guilherme de Almeida
Em verdadeira tempestade de alegria

Dá Licença
Abre alas
É Rosas de Ouro
Numa noite de gala"

Desfile do Império Serrano em 1975. Foto: Revista Manchete

No Rio, o Salgueiro de Joãsinho Trinta, um dos mais brilhante alunos do mestre Pamplona, levava a vermelha e branca a glória de ser a grande campeã do ano, cantando o genial enredo "As Minas do Rei Salomão". Embora os salgueirenses tivessem feito um desfile primoroso, na verdade, o que realmente me tocou e ficou em minha mente, foi o desfile da verde e banco de Madureira...

O Império Serrano! Escola de Molequinho, Mano Elói, Fuleiro, Avarese, Ivone Lara, Silas de Oliveira, Mano Décio, Roberto Ribeiro, Arlindo Cruz e tantos outros bambas.

Fundada em 23 de março de1947, entre tantas proezas, introduziu no samba o prato metálico e a frigideira e fez dos agogôs marca registrada em sua bateria, preservando a tradição e deixando viva a nobreza de seus números baixos. Ainda hoje, é possível ver os "cabeças brancas" cariocas desfilando.

Naquele ano, mostrando o enredo da bela morena Zaquia Jorge, os imperiais brilharam e ficaram com o terceiro lugar. Roberto Ribeiro fez o samba "sobrar" na avenida com sua grande interpretação aliada ao chão de uma das maiores comunidade de samba do Rio, e assim foi...

Trecho do samba "Zaquia Jorge, Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira" - 1975

"Baleiro bala
Grita o menino assim
Da central a Madureira
É Pregão até o fim"

Na época, meu amigo Waltinho, levado pelo Jorginho Saracura a Bela Vista, dava seus primeiros passos no solo do Bixiga, apaixonando-se de imediato pela preto e branco.

Porem, após assistir esse desfile no Rio, me confessou que acabara de arrumar um "caso carioca", que mal sabia ele, duraria até os dias de hoje...

A vedete Zaquia Jorge, na verdade, foi um enredo fenomenal, pois além de mexer com o emocional da cidade, da escola e o povo de Madureira, exaltou a vedete do teatro rebolado, uma mulher a frente de seu tempo, mulher essa, de personalidade forte, que enfrentou a opinião pública machista da época usando seus maiôs, que se cortados, nos dias de hoje, dariam para fazer três ou quatro biquínis para as mais recatadas senhoras.

Teatro Zaquia Jorge. Foto: Acervo

Grande empreendedora, foi empresária num tempo inóspito, com seu Teatro fundado em Madureira, o Teatro de Revista Madureira.

De pioneirismo ímpar, preocupou-se com o povo, fazendo a tão necessária cultura atravessar a cidade e brindar o subúrbio.

Num breve relato, a história nos conta que a bela atriz morreu fatídicamente em 1957, aos 32 anos, afogada numa praia da Barra da Tijuca.

O teatro então passou a ter o seu nome, mas não sobreviveu a perda de sua estrela maior e, num samba cantado por Joel de Almeida, grande cantor da época, o povo de Madureira firmou o refrão...

"Madureira chorou
Madureira chorou de dor
Quando a voz do destino
Obedecendo ao divino
A sua estrela chamou"

Mergulhando na história de "seo" Alfredo Costa, presidente e dono da Prazer da Serrinha, que como Paulo Brazão e Paulo da Portela, também foi cidadão samba, descobri que foi por dissidência de seus jovens sambistas Molequinho, Fuleiro e outros, que se deu a fundação do Império Serrano, escola que em 1975 cantou esse belo enredo.

Aliás, para quem gosta de pesquisar ou simplesmente conhecer a história das escolas de samba, aí está um bom prato. A escola Imperial tem um acervo desenvolvido pelo seu departamento cultural que retrata sua história e suas tradições com uma riqueza impressionante, talvez, uma das mais belas e completas do país.

O interessante é que no desfile de 1975, o samba de Avarese que foi para a avenida, sem dúvidas empolgou, e como, mas, o que até hoje não consigo compreender é o como o samba de Acyr Pimentel e Cardoso, cantado por Roberto Ribeiro num show na segunda metade da década de 70 na quadra da Rosas de Ouro em Vila Brasilândia, não foi o escolhido.

Não compreendo porque entre tantos outros, o samba cantado naquela noite na roseira me induziu a buscar o entendimento. Quem era Zaquia Jorge? Pesquisando fiquei com a impressão que a "Estrela de Madureira", sem dúvida, é uma das estrelas que brilham em nosso céu, eterna e a cada noite mais bela!

Soube também que aquele samba tão lindo, cantado na quadra da Rosas, era um samba de enredo, que concorreu e foi eliminado nas eliminatórias ou cortes de sambas enredos. Mas a pintura de samba que eternizou a bela Zaquia foi esse:

Zaquia Jorge. Foto: Acervo

Autores: Acyr Pimentel e Cardoso

Intérprete: Roberto Ribeiro

"Um imenso cenário
Num turbilhão de luz
Surge a imagem daquela
Que meu samba traduz
A estrela vai brilhando
Mil paetês salpicando
O chão de poesia
A vedete principal
No subúrbio da central foi a pioneira
E um trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira
Mesmo num palco apagado
Apoteose é o infinito
Continua a estrela
Brilhando no céu
Brilhando"

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?


Comentários
  • Avatar
    12/12/2014 19:34:17Antonio CarlosAnônimo

    Saudades dos grandes carnavais, tempo em que os carros alegóricos e as comissões de frente não eram como as atuais, mas tinham mais glamour. Aonde esta a Camisa Verde e Branco, que durante 4 anos consecutivos conquistou o tetracampeonato, não podendo deixar de falar da Vai-Vai que dos 4 títulos do Camisa Verde conquistou ficou 3 vezes com o Vice-Campeonato, e fazendo um desfile surpreendente, falando de Lamartine Babo, Solano Trindade e o Padre José Mauricio músico do Brasil Colonial.Quando a Barra Funda vinha com suas armas Delegado da Mangueira mestre sala, Os Originais do Samba e muita gente famosa, a Bela Vista vinha com muito samba no pé e a Ala Sente o Drama e do Chamego de passe marcado. Saudades muitas saudades desses carnavais.

  • Avatar
    11/12/2014 15:21:57Lucianne AdamastorAnônimo

    A Escola de samba do morro do Borel NÃ?O Ã? O SALGUEIRO! Ã? A UNIDOS DA TIJUCA!

Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.