SRZD


31/12/2014 20h00

Moradora de São Gonçalo 'Recicla Vidas' no Vidigal
Daniel Outlander

Mudar a vida das pessoas não é uma tarefa fácil. No Brasil, há leis que asseguram a liberação de verbas públicas para o desenvolvimento de diversas atividades extras, essas proporcionadas por pessoas ou entidades não governamentais, mas fazer parte de um programa ou conquistar tal ajuda não é uma tarefa fácil. Vale a pena investir, mesmo que pouco, para mudar a história de pessoas que sequer conhecemos? O SRZD entrevistou Lu Cuelho, presidente da ONG "Recicla Vidas", que utiliza a tranformação de materiais recliváveis em moda e atua no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro.

Vestido feito de palito de picolé foi destaque no Fashion Rio. Foto: Divulgação/Bruna Mendonça

Lu Cuelho falou ao portal que o inicio da ong não foi intencional e que a utilização de materiais recicláveis como centro da organização foi decorrente disso. 

"O Recicla Vidas começou como uma ONG na comunidade do Vidigal, onde nós trabalhávamos com os meninos. Eu dava aulas lá, e ela veio a ter fim, porque a presidente morreu. Aí os meninos ficaram todos 'orfãos', foi então que eu vi a necessidade de que eles fizessem alguma coisa e de que não parássemos. Eu tinha acabado de me formar na faculdade e minha monografia foi sobre reciclagem e sustentabilidade, comecei a levar restinho de tecidos, pele de peixe, garrafa, e assim começou nosso amor pela reciclagem na ONG. Não é só um projeto de moda. A moda foi inserida porque é o meu ofício, é com o que eu sei trabalhar, mas a gente está ali para reciclar vidas, transformar e mudar o curso da vida desses meninos. Muitos deles estavam sem rumo, envolvidos em coisas que não eram bacanas e hoje estão inseridos no mercado de trabalho. Hoje a gente tem alguns que estão fazendo curso de inglês, outros qye tiveram sua vida transformada através da reciclagem, nossa base do projeto, reciclar vidas, reciclar esses meninos", comentou a presidente.

Lu Cuelho apresentando uma blusa de cimento e modelos da ONG em editorial. Foto: Divulgação/Bruna Mendonça

Atualmente a "Recicla Vidas" não fica restrita apenas aos participantes, segundo a presidente, que comenta não ter um espaço próprio para trabalhar.

"Hoje a gente tem 17 pessoas, mas alcança no total, por volta de 35, porque sempre tem irmãos, primos e amigos que participam das nossas atividades, mas quando nós fazemos alguma atividade para a comunidade, esse número aumenta muito. O último evento reuniu 480 crianças. Hoje a ONG não tem uma sede própria, a Associação dos Moradores do Vidigal nos cede uma sala, um espaço. Quando a gente precisa de algum lugar para fazer atividades com os meninos na comunidade, usa uma sala da Associação, mas a gente também realiza muitas atividades fora, como passeios, atividades em praças".

Modelo da ONG veste look feito de garrafa PET. Foto: Divulgação/Bruna Mendonça

Embora toda sua atuação esteja à frente das atividades, Lu diz que não é responsável pelo projeto sozinha e que grande parte dos ganhos são realizados pelos beneficiados pelo projeto. Lu comenta já ter recebido convites internacionais, inclusive. "O projeto 'Recicla Vidas' já funciona há sete anos, e começou em uma salinha emprestada na igreja, onde funcionávamos, foi quando conseguimos montar um figurino, já que alguns meninos tinham aptidão para moda, para desfiles, manequim, modelo, e nós começamos a fotografar esses meninos junto aos nossos figurinos; roupa de meia, roupa de saco de cimento, e outras muitas coisas, foi nesse momento que começaram a nos procurar. Aí recebemos um convite de uma maison francesa, e nós acabamos fazendo um figurino para eles. Eles gostaram tanto desse figurino que nos convidaram para que fôssemos passar uma temporada na França com eles, o que ainda não aconteceu, porque não temos o dinheiro da passagem. Nós conseguimos alimentação e hospedagem, mas não é justo que eu vá sozinha com o figurino, os meninos são a alma do negócio, sem eles nada disso havia acontecido, são eles que dão vida a esse projeto, então eu me recuso a ir sozinha".

Sapato feito pela novela em colaboração com ONG. Foto: Divulgação/ Bruna MendonçaA organização está arrecadando fundos para beneficiar os reais responsáveis pelos ganhos. "Já são três anos de espera, estamos guardando o dinheiro de vendas, agora nós temos uma barraca lá no Vidigal, que tem uma feirinha, onde a gente vende roupa, sacola, tudo feito de reciclagem", explicou.
Durante a entrevista ao Portal SRZD, Lu Cuelho comentou sobre a recente parceria com a Rede Globo, que gerou a colaboração na novela "Meu Pedacinho de Chão". "Também fomos abordados por uma figurinista da Rede Globo, e pediu para que nós fizéssemos algumas coisas para a novela 'Meu Pedacinho de Chão'. O resultado foi tão bacana, que eles pediram meninos do projeto para fazerem estágio com eles. Durante o período da novela, três dos nossos meninos foram estagiários dessa figurinista e, no final, foi realizado um livro por elas, onde é citado o nome da ONG e dos meninos que participaram, em agradecimento especial. Hoje esses meninos não são mais oficineiros na Rede Globo, são contratados e estão trabalhando na emissora. Agora nós colocamos mais três meninos em outra oficina na Rede Globo, para uma minissérie de 2015. Acho que esses ganhos que temos tido, de estarmos inserindo esses meninos no mercado de trabalho, não há ganho melhor, é indescritível", enunciou.

Dionne Warwick em visita ao Vidigal; modelos participam do Fashion Rio. Foto: Divulgação

Cantora americana Dionne Warwick posa com bolsa feita pela ONG. Foto: DivulgaçãoA "Recicla Vidas" tem como mantenedora a cantora americana Dionne Warwick, prima de Whitney Houston. "A história da Dionne Warwick é incrível, porque no começo existia uma outra ONG, chamada 'Casa Despertar', que era comandada por uma outra pessoa, que teve um AVC e veio a falecer. Aí os meninos ficaram literalmente 'sem mãe', e a madrinha dessa ONG era a Dionne Warwick. Quando eu ficava com os meninos, não conhecia a Dionne e nem sabia que ela era a madrinha, eu ficava no ONG, a gente fazia os trabalhos, e eu acabei fazendo um evento com esses meninos na Lapa usando roupa toda de jornal. Ficou muito bacana e eles enviaram as fotos para a Dionne e me falaram. 'Olha Lu, a Dionne quer te conhecer'. eu não entendi nada, mas eles disseram que haviam enviado as fotos desse desfile para ela e ela adorou. Ela veio ao Brasil, porque ela vem de dois em dois anos para se apresentar e a gente sentou, conversou. A Dionne tem apoido muito a ONG. A gente tem total liberdade poara utilizar o nome dela em nome da ONG, ela é uma parceira incrível, envia recursos para as festas. Sempre que vem ao Brasil, faz questão de ir à ONG e conversar com os meninos, então ela nos ajuda como pode. Como as coisas foram se encaminhando, eu me vi em um impasse: ou deixo tudo de lado ou abro uma ONG. Foi aí que nasceu a 'Recicla Vidas'".

Bolsa feita utilizando gibis. Foto: Divulgação

Lu comenta ainda que uma das meninas beneficiadas pela ONG acabou conhecendo e se apaixonando por David Elliott, filho de Dionne. "Hoje eu sou a presidente da 'Recicla Vidas' e nós temos a Luana Elliott, que é uma das meninas daa ONG. Hoje, ela é casada com o filho da Dionne e mora nos Estados Unidos. É ela quem faz toda a ponte com a Dionne, é quem cuida e também envia recursos. A Luana acabou lançando uma linha de fitness lá nos Estados Unidos, e uma parte das vendas dessas roupas, que saem aqui do Brasil, que é administrada por mim, com a ajuda de alguns meninos da ONG, e eles pagam aos meninos para fazer esse trabalho, e parte dessa venda é revertida para a 'Recicla Vidas', então a Dionne é realmente a mãe do projeto, a gente só tem de agradecer", define a artista.

Valeska Ventura, uma das meninas da ONG, veste peça feita de bexiga. Modelo já apareceu no Programa 'Esquenta!' Foto: Divulgação/Bruna Mendonça

Ao longo dos anos de trabalho, Lu diz não ter ganhos financeiros com a ONG. "Em tudo isso o que eu faço, não ganho um centavo. Eu faço isso tudo por amor, porque eu amo o que eu faço, eu amo aqueles meninos. Não tem jeito, é minha responsabilidade. Nós lidamos abertamente, tem gente que me liga de madrugada dizendo que não tem comida em casa, a gente dá um jeito e leva uma cesta básica, então não tem como fazer um trabaho desse se você não amar. Você tem ideia de como é ver o brilho nos olhos daqueles meninos quando você chega com uma ideia, uma atividade diferente? Nós acabamos de fechar uma parceria com uma bailarina que vai à comunidade para dar aulas de balé. Você tem noção do que é pra uma menina, que às vezes não tem um tênis para calçar, poder fazer aula de balé? Não tem nada no mundo que vai me pagar".
Mesmo as limitações de distância não impedem que a estilista deixe de estar presente em seu trabalho. Lu, que mora há três horas da comunidade, diz estar sempre presente. "Eu não moro no Vidigal. Eu moro numa cidade que fica a três horas do Vidigal, uma cidade chamada São Gonçalo, eu tenho meus filhos, meu trabalho, minha vida... Mas eu não meço a distância. Ninguém tem a ideia do que se passa quando a gente vê a felicidade nos rostos. O nosso interesse é ver essas vidas recicladas, e isso a gente tem conseguido".

'Recicla Vidas' participa do coquetel da novela 'Meu Pedacinho de Chão'. Foto: Divulgação/Bruna Mendonça

A "Recicla Vidas" é uma ONG que se mantém através da produção e comercialização de peças feitas utilizando materiais recicláveis como base. A ONG, apesar de não ter um espaço físico, já consegue se mostrar eficiente quanto ao seu objetivo: "Reciclar Vidas". "Se eu conseguir mudar a vida de uma pessoa, eu já estou satisfeita", diz a presidente, que se empenha em fazer o trabalho da melhor maneira para que seus pupilos se destaquem e alcansem todos os objetivos. Com esforço, dedicação e amor, Lu consegue, mesmo que a pequenos passos, se destacar. A "Recicla Vidas" comercializa seus produtos em uma feira na Praça do Vidigal.

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