SRZD


07/01/2015 17h25

O último adeus: homenagens e emoção marcam sepultamento de Tia Dodô da Portela
Redação*

Uma multidão de sambistas, entre eles, portelenses e representantes de outras agremiações, amigos e fãs de Dona Dodô, compareceu na manhã desta quarta-feira (7) ao Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para prestar uma última homenagem à porta-bandeira número um da Portela.

Multidão dá último adeus à Tia Dodô. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Maria das Dores Alves, a Tia Dodô, morreu na tarde desta terça-feira (6) após ficar internada por vários dias no Hospital de Acari, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde deu entrada dia 22 de dezembro sob diagnóstico de "infecção e quadro de desnutrição e desidratação". O estado de saúde da sambista só vinha piorando.

Várias defensoras de pavilhões de outras escolas estiveram presentes para dar o último adeus à Dodô, entre elas, Raphaela Cabocla, porta-bandeira da Império Serrano, Lucinha Nobre, porta-bandeira da Mocidade, Squel, porta-bandeira da Mangueira, Maria Helena (com seu filho Chiquinho) ex-defensores do pavilhão da Imperatriz, Raphaela Teodoro, porta-bandeira da Imperatriz e Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor.

1ª porta-bandeira Danielle e 1º mestre-sala, Alex,  ambos da Portela, prestaram homenagem ao lado de Patrícia Nery, rainha de bateria. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Personalidades ligadas à Portela também marcaram presença e, bastante emocionadas, prestaram suas homenagens: Paulinho da Viola, Tia Surica, Noca, Monarco, os coordenadores de passistas Valci Pelé e Nilce Fran, a diretora do departamento feminino, Andalea, e ainda, as torcidas portelenses Amigos da Águia, Guerreiros da Águia e Portelamor e vários membros da comunidade de Madureira.

Paulinho da Viola e Monarco da Portela também fizeram suas homenagens. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Serginho Procópio, presidente da azul e branca, não segurava sua emoção sempre que recebia as pessoas que chegavam a todo tempo para acompanhar a cerimônia. O vice-presidente, Marcos Falcon, também muito abatido, ficou por vários momentos ao lado de Tia Dodô, fazendo orações e prestando suas homenagens.

Dirigentes da Portela se emocionam em homenagens. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade 

O cortejo, rumo ao sepultamento, começou por volta das 13h20, quando, mais uma vez, um manto azul e branco coloriu o cemitério cantando hinos da Portela, inclusive o samba de 2015, ao som de um surdo em alusão ao luto dos sambistas.

Cortejo azul e branco marcou cerimônia. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Um dos momentos mais emocionantes foi a chegada, após sepultamento, de dezenas de coroas de flores, enviadas por blocos, escolas de samba, entidades ligadas ao Carnaval, personalidades políticas, fãs e amigos de Tia Dodô.

Mais de 40 coroas foram enviadas em homenagem à Tia Dodô. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Personalidades contam suas experiências com Tia Dodô

Dona Ivonilda Pessanha, afilhada de Tia Dodô e membro da velha-guarda, foi uma das pessoas mais próximas da sambista. Ao conversar com o SRZD-Carnaval, Tia Ivonilda abriu o coração e revelou que foi sua mãe, a Dona Zica da Portela, que levou Dodô para desfilar na agremiação de Madureira.

"Dodô ajudou minha mãe a me criar. Foi ela que criou, também, minhas duas filhas junto comigo. Ela me ajudou muito. Dodô era empacotadeira e trabalhava junto com minha mãe. As duas eram muito amigas. Foi minha mãe que levou ela para ser porta-bandeira em Madureira", contou.

Entre vários momentos alegres, Tia Ivonilda recordou um que marcou sua vida. "Teve uma época que Tia Dodô perdeu sua mãe e não teve condições de desfilar. Foi quando ela me convidou e por um dia eu fui porta-bandeira. Mas isso tem mais de 50 anos! Me marcou muito, pois ela confiou em mim! Dodô era a nossa mãe, era a mãe de todos!", exclamou ao SRZD-Carnaval.

Dona Ivonilda e suas amigas de velha-guarda relembraram momentos alegres ao lado de Tia Dodô. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Mestre Dionísio, que mantém uma escola de dança para casais de mestre-sala e porta-bandeira com seu nome, comentou que a morte de Tia Dodô abriu uma lacuna no samba do Rio de janeiro. Em entrevista ao SRZD-Carnaval, Dionísio revelou curiosidades de sua amiga Dodô e comentou que ela ensinou muitas pessoas a ter disciplina.

"Poucas pessoas sabem, mas Dodô foi a minha madrinha de samba. Sempre busquei orientação através dela. Ela me deu várias direções e através de seus conselhos eu diriji a Escola Manoel Dionísio. Ela ensinou muita gente a ter postura".

Os dois, que eram muito amigos, tinham um prato preferido em comum. "Estive com ela no domingo. Fiz uma visita e vi que ela realmente não estava bem. Cheguei até a conversar com ela sobre nossos almoços mensais. É que pelo menos uma vez por mês, eu levava ela para comer arroz com brócolis. Ela adorava! Mas esse mês, não consegui devido ao estado de saúde dela. E de repente, recebo a notícia de que ela havia morrido", lamentou o mestre.

Mestre Dionísio e Tia Dodô eram amigos de todas as horas. Foto: Arquivo SRZD

Selminha Sorriso, que é primeira porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis, definiu Tia Dodô como a rainha das defendoras de pavilhões e contou suas experiências com a baluarte da Portela.

"Não só eu, mas todas se inspiraram em Tia Dodô. Ela deixou para nós um legado: ser fiel aos seus pavilhões, amar o samba, amar o bailado da porta-bandeira. Ela provou que dançar por amor vale muito à pena, tem um peso diferente. Pude estar com ela muitas e muitas vezes e receber carinho, ensinamentos, ouvir histórias. Ela veio de uma época em que as mulheres sofriam muitos preconceitos, mas mesmo assim, ela enfrentou todos os problemas e nos ensinou a driblar os obstáculos da vida. Vou sentir muita falta dela", afirmou ao SRZD-Carnaval.

Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Tia Surica, integrante da velha-guarda da Portela e que ficou o tempo todo, junto com o vice-presidente Marcos Falcon, ao lado de Tia Dodô durante velório da sambista, falou ao SRZD-Carnaval que o coração da águia foi abalado com a morte da ex-porta-bandeira. "Nós perdemos a metade de nossos corações com a morte de Dodô. Ela marcou a Portela. Ganhou vários campeonatos com nossa águia. Perdemos um ícone, não só da Portela, mas do mundo do samba. Ela vai ficar sempre no coração de todos nós", ressaltou.

Tia Surica afirmou que metade do coração da Portela se foi. Foto: SRZD-Rodrigo Trindade

Noca da Portela, histórico compositor, também lamentou a morte da ex-porta-bandeira ao falar com o SRZD-Carnaval. "Era meu ídolo! Sempre quando o desfile da Portela acabava, nós levávamos ela até o Morro da Providência, onde ela viveu grande parte de sua vida. Minha alma está de luto. A família portelense também! De todos os campeonatos, no mínimo 19 ela participou como porta-bandeira. Pedimos a Deus para que coloque ela no melhor lugar".

Noca tinha Tia Dodô como um ídolo. Foto: Arquivo SRZD

-Exclusivo: Leia mais depoimentos de personalidades sobre morte de Tia Dodô

A Tia Dodô do Morro da Providência

A lendária Tia Dodô, de 95 anos, estreou na agremiação em 1935, aos 14 anos, conduzindo o pavilhão azul e branco e ajudando a escola a conquistar o primeiro dos 21 campeonatos. Natural de Barra Mansa (RJ), ocupou o posto de primeira porta-bandeira até a década de 1950.

Em 2004, teve papel de destaque no Sambódromo ocupando o posto de rainha de bateria. Há anos era de responsabilidade dela a organização da Ala das Damas, uma das mais tradicionais da escola, e à frente da qual sempre fez questão de desfilar. Católica fervorosa, era Dodô quem cuidava das cerimônias religiosas na quadra da agremiação, em Madureira.

Moradora do Morro da Providência, no bairro da Saúde, Dodô sempre fez questão de estar sempre nos eventos de quadra da Portela. Entre várias homenagens que recebeu, Dodô passou a ser admirada e respeitada pelos sambistas por sua dedicação ao samba e à escola do coração.

Em 2003, ela foi homenageada no Centro Cultural Carioca. No ano seguinte, recebeu o Estantarde de Ouro na categoria Personalidade do Ano, quando desfilou à frente da bateria da Majestade do Samba, uma surpresa para os torcedores. Em 2009, ela foi homenageada no documentário "Velhas-Guardas", de Joatan Berbel. No ano de 2013, Dodô recebeu o troféu "José Carlos Netto" durante a festa do Prêmio SRZD-Carnaval. Animada, ela subiu no palco, recebeu o troféu e deixou um recado para o público.

Tia Dodô ao lado de mais um amigo fiel: Carlos Reis, destaque da Portela. Foto: Arquivo SRZD

*Por Rodrigo Trindade, colaborador do SRZD.

Veja mais sobre Tia Dodô:

-Noca da Portela faz texto em homenagem à ex-porta-bandeira

-Comentarista do SRZD faz crônica emocionante e homenageia Dodô

-Personalidades da Portela lamentam morte de Tia Dodô

-Veja as últimas notícias sobre as escolas de samba

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 



Comentários
Comentar