SRZD


05/03/2015 09h16

Um rei de verdade
Israel Ávila*

Em meados de 1997, Fábio José Duarte Verçoza deixou de ser um "ser humano normal" para virar Rei Momo de Porto Alegre. Sim, porque o rei momo que ele incorporou passa longe de ser um ser humano normal.

Ao longo dos 10 anos em que esteve com a faixa e a coroa de rei, Fábio não usou estes instrumentos como adereço decorativo, como 50% (ou mais) dos reis que existem por ai. Usou o titulo para representar o carnaval e locais onde o próprio carnaval nunca pensou em estar.

Foto: André Gomes

Ao lado de suas 10 rainhas e 20 princesas, vestiu outros "adereços" além da fantasia: postura, educação, conhecimentos do carnaval e respeito. Peças fundamentais para que um rei não se torne somente e unicamente um bobo da corte.

Ações sociais, projetos educacionais, visitas a hospitais e participações em diversos eventos fizeram parte da agenda das cortes deste rei, que pensa em nos deixar...

Nos deixar sim... pois no carnaval 2015 Fábio Verçosa anunciou ser seu ultimo ano com os "utensílios" reais. Embora a grande maioria do carnaval vá contra esta  desta decisão, o Setor 1 tentou entender os motivos em uma entrevista exclusiva que fizemos a uma semana atrás com o rei.

Antes das perguntas e respostas, a Equipe Setor 1 deseja todo o sucesso do mundo por onde você passar Fábio... na certeza de que quem foi rei jamais perderá a majestade, tão pouco seus "súditos". Deixamos nosso fraterno abraço lhe agradecendo por toda feita referente ao carnaval, na certeza de que, dificilmente o "Reino de Porto Alegre" terá outro rei a sua altura...

Setor 1 - Porque pensou em ser rei momo?

Fábio Verçosa: Na verdade, até o último dia, da minha primeira inscrição no final de 1997, nunca havia pensado em ser Rei Momo. Participava continuamente do carnaval desde meus 14 anos, mas esse personagem me parecia muito distante, como que inatingível. Minha irmã, Maria Helena, que leu no então Correio do Povo, a matéria sobre o Concurso e me incentivou. Com o apoio da então Coordenadora de Carnaval, Mariângela Sedrez, me inscrevi, no último dia (uma sexta feira), na última hora (17h, aproximadamente). Depois de inscrito, me dediquei muito, estudando sobre a História do Personagem e sobre os Soberanos que me antecederam. Confesso que, jamais imaginava vencer. Até porque, entre os candidatos, existiam alguns bastante conhecidos no meio carnavalesco.

Setor 1: O que foi mais fácil e mais difícil ao vestir o personagem?

Fábio Verçosa: Nada foi fácil. A vida é assim, difícil. E a ficção não é diferente. Nunca tive alguém que me dissesse o que fazer ou não fazer. Aprendi a ser Rei Momo, reinando. Confesso que em meu primeiro Reinado, cometi uma infinidade de erros. Também não me envergonho em dizer que, na largada, me deslumbrei. É complicado sair do anonimato e de uma rejeição social em função da obesidade, e acordar-se sendo chamado de Rei, conseqüência, em parte, dessa mesma condição física. Todo o preconceito (hoje chamado de bullyng) sofrido na minha infância por ser gordo, aflorou inicialmente de forma negativa (vingança) e "usei" de forma errada o título que eu conquistara. Aprendi da forma mais cruel que não poderia ser daquela forma. Jamais esquecerei a noite seguinte ao Concurso, que, empunhado de faixa e coroa, entrei no ensaio de uma Escola, "me achando". Tomei uma vaia que talvez pudesse ser comparada à dada a cantora Lucinha Lins, quando venceu o concurso MPB, cantando Purpurina. Doeu, mas aprendi. É na dor que se aprende de fato. Os aplausos nos afagam a alma, mas as vaias preenchem nosso cérebro, nossa capacidade de aprender de fato.
Não menos difícil foi, com o passar do tempo, entender que o Personagem não me pertencia. Eu, no momento em que quis ser o Rei Momo da Capital gaúcha, deixava de lado a minha individualidade, e passava a representar uma comunidade. Não me refiro aqui a nenhuma Entidade, Presidente, Poder Público,... Refiro-me aqui ao povo que trabalhava o ano todo esperando a explosão da maior manifestação cultural brasileira, o Carnaval.
E para não dizer que nada foi fácil, foi sim: conviver com o carinho que recebo dessa mesma comunidade.

Setor 1 - Uma grande alegria durante estes dez anos

Fábio Verçosa: A maior alegria durante estes 10 anos, foi ter conquistado o carinho verdadeiro de muitas pessoas que inicialmente tinham resistência a minha pessoa. Ser beijado por homens barbados e adolescentes rebeldes, e escutar: - Tu és um verdadeiro Rei. Tu me representas", não tem preço. Jamais esquecerei cada uma destas demonstrações de carinho.

Setor 1 - Uma grande tristeza ou decepção

Fábio Verçosa: Não diria decepção, pois a idade fez com que aprendesse a não criar mais expectativas. Chamaria de maior tristeza: entrar e sair do Reinado e não ver o Complexo Cultural do Porto Seco construído. E que fique claro, não vejo aqui, culpados nem vítimas. Somos todos as duas partes. Lembro-me bem, de quando ouvi, o grande jornalista Renato Dorneles, numa explanação na Assembléia Legislativa dizendo que, não entendia como nós carnavalescos aceitamos a mudança para o Porto Seco, apenas com as promessas. Eu, disse ele, jamais conheci alguém que entregasse sua residência atual em troca de um projeto, sem que a nova casa estivesse construída. Portanto, cada um de nós, tem sua parcela de permissividade nessa história. Certamente, o dia mais feliz da minha vida, será o dia em que eu possa ver o Complexo totalmente construído, pois sei o quanto à comunidade carnavalesca de Porto Alegre,  necessita, sonha e merece isso.

Setor 1 - Por que parar?

Fábio Verçosa: Elencaria vários e vários motivos para esta decisão, mas acredito que o mais importante é ser coerente com aquilo que falo: "- Temos que ter consciência de que não somos eternos, muito menos insubstituíveis". O ser humano comprovadamente tem sua vida definida numa curva. Ascendemos e declinamos. Assim é a vida. E para que esperar o declínio e reconhecer que devemos sair de cena? Prefiro ter a certeza de que deixarei saudades, do que o risco de ouvir: "Já vai tarde!". Quero deixar na lembrança da comunidade carnavalesca de Porto Alegre, grandes momentos, fantasias bonitas e criativas, um Rei ágil, faceiro. Não permitiria jamais que minha cidade tivesse um Rei, senão em sua plena forma. Nosso carnaval merece o que temos de melhor, inclusive o Rei Momo.

Setor 1  - Uma mensagem ao povo do carnaval

Fábio Verçosa: Para todos, que como eu, fazem parte e acreditam num segmento visivelmente discriminado por parte da sociedade, muita força. Munam-se de conhecimento, que é a única arma capaz de derrotar os preconceituosos e também se abasteçam de amor pelo nosso Carnaval. Precisamos da nossa união e dessas armas para passarmos, creio eu,  por momentos rochosos que estão por vir. Vivemos uma eterna batalha, onde só sairemos vencedores se nos unirmos, não por razões financeiras, mas pela verdadeira essência do nosso ideal: o reconhecimento cultural e social de nosso carnaval.

Agradecimentos:

Fábio Verçosa: Agradecer é o ato mais importante e mais difícil neste momento. Se citar nomes, certamente serei injusto, esquecendo pessoas de suma importância no processo. Se não citá-los também serei injusto com aqueles de suma importância nesse processo. Opto pelo primeiro, o risco da injustiça por covardia.
Agradeço sim, a toda comunidade carnavalesca  de fato. Os integrantes das Entidades, o povo das arquibancadas e camarotes, aos trabalhadores da Avenida, à verdadeira impressa do Carnaval,... Esses sim, fizeram e farão parte da minha história.

E para finalizar, dizer que, a única certeza que tenho neste momento é de que o Reinado de Momo da Capital gaúcha, me fez uma pessoa melhor e mais feliz. Sou muito grato à verdadeira comunidade carnavalesca de Porto Alegre, que vibrou, aplaudiu, sorriu e chorou comigo. Jamais esquecerei tudo isso. Brinco, mas é uma verdade, minha vida se divide em antes e pós-reinado. Por mais que eu queira ou não, este personagem conviverá comigo o resto da minha vida.

*Fonte: Setor 1, em colaboração voluntária ao SRZD

Curta a página do SRZD no Facebook:


Veja mais sobre:Carnaval/RSCarnaval 2016

Comentários
Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.