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Aurora Seles

Aurora Seles

CARNAVAL. Jornalista, com especializações no Instituto de Psicologia da USP e em Marketing e Comunicação Publicitária pela Faculdade Cásper Líbero. Bacharelanda em Direito. Professora e profissional de comunicação. Foi assessora de imprensa da Tom Maior, Rosas de Ouro e Vai-Vai. Coautora do livro SOFIA Belas Artes - Encontro de Saberes: Artes, Arquitetura, Saúde, Ciências Sociais e Humanas, lançado em dezembro/2015.

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20/03/2015 00h03

Murilo Lobo: Superação de um jovem talento do Carnaval
Aurora Seles

Ah, assistimos mais um espetáculo!

O último Carnaval foi simplesmente lindo. Daqui a pouco tem mais. Aproveitarei o momento para contar, em linhas leves, a trajetória de um amigo querido - exemplo de superação.

Nosso papo rolou numa sorveteria bem planejada. Ambiente convidativo com algumas taças, transbordando de massas geladas, e também xícaras. O projeto inteiramente arquitetado por ele. Sim! Murilo Lobo, 49, estudou canto, é arquiteto, cenógrafo, carnavalesco e apaixonado pela vida.

Murilo Lobo. Foto: Divulgação

Suas primeiras palavras ecoam com o trecho do Samba da Benção, de Vinicius de Moraes: "Porque o samba nasceu lá na Bahia / E se hoje ele é branco na poesia / Se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração". A pele clara transcende a adoração pela cultura afro-brasileira. Filho de pai seresteiro - tocava violão, cantava MPB e samba - ao lado da mãe, ambos curtiam os bailes de Carnaval, no Esporte Clube Banespa, e confeccionavam as próprias fantasias para animar o bloco do salão. A animação perdurava a noite inteira e, durante o dia, os figurinos eram readaptados às crianças.

Nesse clima o jovem Murilo passou a criar as peças dos amigos. Também era adepto ao canto e até hoje guarda gravações de quando tinha apenas seis anos, cantando samba de breque, preferência voltada ao samba e jamais à música americana.

Aos 15 anos, sozinho, assistiu aos desfiles na Avenida Tiradentes. Era o primeiro a chegar e garantir um espaço bacana. Ele não torcia por nenhuma escola de samba. Absolutamente aberto ao espetáculo, tudo o comovia e extasiava. Uma paixão natural que crescia a cada instante. Sua sensatez permitia olhar as criações, admirá-las e aprender, sem desdenhar qualquer trabalho.

Em 1988 viajou ao Rio de Janeiro e sentiu a emoção, ao vivo, do espetáculo apresentado na Sapucaí. Conferiu tudo com muita admiração, em especial, a apoteose da Vila Isabel, posteriormente campeã, com o enredo "Kizomba, a festa da raça".

Desfile da Unidos de Vila Isabel em 1988. Foto: Divulgação

É kardecista e acompanha as atividades em um núcleo espírita. Nesse lugar sua vida migrou ao segmento Carnaval. Era um belo dia de 2007 e um amigo o convidou a desfilar na Rosas de Ouro. A ala "Canto Forte", na época com débito de R$ 30 mil. Pediram autorização da presidente para fazer uma fantasia mais simples. Com essa venda, quitaram a dívida e conseguiram confeccionar os figurinos daquele ano. No dia da grande festa, ajudava a amarrar as fantasias, organizava as filas, corria de um lado a outro. Adrenalina total.

Em 2006, o enredo: "Diáspora africana, um crime contra a raça humana", trouxe mais envolvimento com a agremiação. No ano seguinte passou a ser chefe de ala e conheceu a escola com mais detalhes. Visitava os bastidores. Paralelo a isso, sempre mandava comentários ao diretor musical Osmar Costa. Este gostava das análises e convidou Murilo a fazer parte da "Comissão Julgadora de Samba de Enredo", ao lado dos diretores da escola. Oportunidade de opinar e trocar ideias complexas com os participantes.

Surge a chance irrecusável, por meio do carnavalesco Jorge Freitas, para escrever a quatro mãos o enredo "Cacau: um grão precioso que virou chocolate, e sem dúvida se transformou no melhor presente" - campeão de 2010. A priori, seu contato com Freitas era apenas como chefe de ala. Relação conflituosa, mas felizmente viraram grandes amigos.

Em 2011 recebe das mãos do amigo Freitas, a incumbência de desenvolver um enredo na cidade de Santos à escola Sangue Jovem. O tema enaltecia reis africanos: Mandela, Martin Luther King e o rei Pelé - os três arautos da paz. Outra experiência incrível e ao mesmo tempo dolorosa. Afinal, são realidades completamente distintas, verba reduzida e a distância da grande metrópole.

A agremiação - oriunda de torcida de futebol - diferenciava-se como organização de escola e havia poucas pessoas no barracão. Mesmo assim, foi um belo desfile. Horas depois, quando voltava - de ônibus - para São Paulo, Murilo recebe a triste notícia do acidente, com três vítimas fatais - eletrocutadas próximas ao local do evento.

Acidente com alegoria da Sangue Jovem. Foto: Reprodução

Esse episódio não estava sob a responsabilidade da escola e sim da segurança pública. Abalado, ele titubeou, pois estava começando a desenvolver seu trabalho. Deixar de ganhar o Carnaval em função de alegorias, fantasias, evolução, qualquer quesito é um fator, mas perder vidas é imensurável. Difícil comparar.

E se não bastasse sua dedicação ao Carnaval, em 2012 outro susto, diagnosticado com câncer de tireoide. Perguntava-se por que havia passado por isso. Superou e encontrou a resposta na alegria de viver. Para ele, a fragilidade é econômica e explica que não passou a vida com intuito de investir na velhice, mas sim nos sonhos. Os dias passaram e refletiu "as oportunidades surgem, muitas vezes, para levar luz às pessoas e aos projetos que nos envolvemos".

Trabalhou muito tempo voluntariamente. Com a remuneração, a responsabilidade e o compromisso aumentaram, porque a paixão está atrelada a essa característica. Novamente o amigo e carnavalesco da Rosas de Ouro oferece outro desafio. Desta vez seria desenvolver um trabalho à escola do Grupo de Acesso, em São Paulo: a Unidos do Peruche.

No início ele acreditava que seria semelhante ao projeto feito no litoral. Criar o enredo e fazer algumas visitas técnicas. Engano! A escola carecia da presença do carnavalesco e estava desde 2010 no mesmo grupo. Com a direção nova, tudo foi literalmente revisto. A proposta era um enredo afro.

Em casa questionou a si mesmo: o que essa comunidade precisa ouvir? Pesquisou a lenda de um menino - desenho franco-suíço (originalmente Kiriku e a Feiticeira). Título posteriormente substituído para "Karabá e a lenda do menino de coração de ouro". Narrativa de uma história singela sobre um menino que nasceu falando. A tribo era oprimida por uma poderosa feiticeira e ele perguntava qual o motivo daquela maldade. A busca desse menino, em ajudar sua aldeia, fundamentava-se na busca da verdade. Pelas entranhas da terra, o menino fez amizades com os animais e finalmente chegou ao cupinzeiro - onde morava o grande sábio. Esse local só era aberto a quem fosse digno e o menino de ouro possuía essa peculiaridade.

O sábio explicava que a feiticeira não era absolutamente malvada. Quando criança havia sofrido uma violência; em suas costas foi cravado um espinho para que ela dotasse de poderes malignos. Ela sentiu muita dor e pensava que nunca mais se livraria do mal. O menino tira o espinho com os próprios dentes e a vida da feiticeira renasce. Tudo se renova. Como agradecimento ele é beijado e vira um grande guerreiro.

Essa é a trama do enredo, a transformação. Naquele instante Murilo encontrara o tema à "Filial do Samba". Ela precisava tirar o espinho de suas costas. Para isso, a dedicação dos componentes, com seus corações de ouro, seria fundamental. O trabalho coletivo fez a transformação. Um dos trechos do samba: "Quem tem coragem e na fé vai atrás do que quer, é guerreiro! Dignidade traz sabedoria para reconhecer na vida o sentido verdadeira".

Ele acredita que a função dos criadores de Carnaval é encontrar nas comunidades o que ela quer e pode dizer. O trabalho, feito em conjunto, trouxe o resultado. Pela primeira vez conferiu a criação inteira na avenida, sob uma forte chuva. Humildemente reitera a ajuda dos amigos e canta outra parte do samba: "Missão cumprida, olha aí a nossa tribo na avenida".

A conversa segue, com entusiasmo e paródias. Trocadilho com o enredo "Mirei no que vi e acertei no que não vi. O menino pequeno se tornou grande guerreiro. A jornada é de todos. Para sermos grandes na vida temos de começar com pouco".

Lidou com situações curiosas, por exemplo, na comissão de frente trouxe borboletas. Espécie que deixa para trás não apenas um simples casulo, mas a forma de ser e transformar-se em algo melhor. Muito contestado, insistiu. A escola abriu o desfile com bailarinas de ponta - trabalho feito pela coreógrafa Paula Gasparini. Frisa que Carnaval é feito de bom gosto e que alguns visuais são surpreendentes e nem por isso, tão caros. Por exemplo, o cupinzeiro foi forrado com boias de piscina (material reciclado - espaguetes cortados em 20 mil pedaços) com pastilhas pratas aplicadas.

Comissão de frente da Unidos do Peruche. Foto: SRZD - Claudio L. Costa

O compromisso emocional contribuiu para a permanência na escola, já com o enredo 2016: "Ponha um pouco de amor numa cadência e vai ver que ninguém no mundo vence a beleza que tem o samba...100 anos de samba, minha vida, minha raiz". A data do centenário será em 1 de novembro do próximo ano (fonte: Enciclopédia da Música Brasileira, com a partitura do registro de Pelo Telefone, composição de Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e do jornalista Mauro de Almeida). Enredo musical, uma festa de todos. Com outro verso cantarolado, desta vez de Caetano Veloso: "o samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor, o grande poder transformador", finalizamos o bate-papo com sua definição sobre Carnaval.

"A expressão mais profunda de alegria e paixão que a gente tem nesse país. É uma ópera ao ar livre. As escolas precisam encontrar meios para viabilizar o espetáculo, não necessariamente pelo luxo, mas pela emoção do componente. São as pessoas que fazem a diferença".

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Comentários
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    05/04/2015 14:55:53Aurora SelesAnônimo

    Sidney, Muito obrigada pelo acompanhamento. A respeito de seu comentário, acrescento algumas considerações. Tive o privilégio de trabalhar com Jorge Freitas durante anos. Sem dúvida, para mim, um dos maiores carnavalescos. Da mesma forma pude conviver â?? e conhecer â?? Murilo Lobo. Um cidadão correto, ético, profissional, talentoso e sério. Algumas características que o conduziu à ascensão no carnaval. Aprendi com ambos que para desenvolver um enredo é necessário elaborar a sinopse, pesquisar, criar a montagem do desfile para todos os setores da escola (alas, casais e alegorias), desenhar os figurinos, acompanhar o barracão, os ateliês, os ensaios gerais e técnicos e várias outras atividades. Cada um permanecia nas agremiações citadas acima, por isso, a dedicação foi plena e específica. Acredito que a credibilidade pertence, sem distinção, a todos os colaboradores do carnaval. Abraço, Aurora Seles

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    05/04/2015 14:54:17Auora SelesAnônimo

    Ednaldo, Obrigada pela observação. A atualização foi feita. Abraço, Aurora Seles

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    05/04/2015 14:51:21Aurora SelesAnônimo

    Gabriel, Retificada a informação sobre a data. Obrigada! Abraço, Aurora Seles

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    25/03/2015 13:00:32SidneyAnônimo

    Nossa Senhora, como esse mundo do carnaval tem mania de direcionar valores á quem não merece. Todo mundo sabe que o Murilo, no Peruche, neste carnaval de 2015, simplesmente fez o que Jorge Freitas comandou. Prova disto, são os croquis ou desenhos, reciclados das gavetas de Jorge. Sem falar no uso excessivo de tecidos cortados de forma específica, denominado lasanha. Característico de Freitas. Muito me incomoda no carnaval Paulistano a valorização de quem não possui talento, enquanto quem tem fica sempre abafado pelos espertos e pelas panelinhas do carnaval. Por isso que a cada ano, o Carnaval de São Paulo perde credibilidade!

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    20/03/2015 12:21:46Ednaldo SantosAnônimo

    Bélissima matéria o Murílo é merecedor desse reconhecimento, grande caráter. Observo apenas que o autor do Samba Pelo telefone não foi Pixiguinha e sim Donga e Mauro almeida.

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    20/03/2015 10:31:51GabrielAnônimo

    Grande Murilo!!! Só uma correção sobre o trecho "Em 2012, o enredo: "Diáspora africana, um crime contra a raça humana" este enredo foi o de 2006 do Rosas 2012 foi o Reino dos Justos.

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