SRZD


23/03/2015 12h06

Artigo: Os liberais fora do armário e a nova direita
João Feres Júnior*

Estão pipocando aqui e acolá na internet textos alertando para a ameaça trazida pela nova direita, representada acima de tudo pelo projeto de fundação do partido NOVO, articulado por figuras como Rodrigo Constantino e pequenos grupos neolibertários que organizaram o ato do dia 15.

Ao contrário dos partidos de direita e centro-direita do Brasil de hoje, que sempre tentam fazer uma mediação entre seus projetos de diminuição do Estado e a lógica eleitoral, conectada às demandas por políticas públicas de massa, esses grupos pregam abertamente a menor participação possível do Estado.

Acho que essa análise falha em algo crucial: nunca no Brasil partidos com plataforma abertamente liberal foram muito longe. 

Se focarmos somente nossa história recente da Nova República constatamos que os dois principais partidos que carregavam a palavra Liberal em seu nome a descartaram ao longo do caminho. O Partido da Frente Liberal, antiga ARENA, antigo PDS, virou Democratas em 2006. Já o Partido Liberal (PL) se fundiu com o PRONA para formar o Partido da República (PR), no mesmo ano. É cristalino o movimento semântico de se trocar a palavra "Liberal" por outras que fazem alusão a regimes explicitamente populares: democracia e república. Será que o esforço de Gilberto Kassab para refundar o Partido Liberal pode ser lido como o sinal de uma inflexão? Difícil dizer no atual estágio.

Claro que as coisas podem mudar. Claro que a direita está se organizando no Brasil. Ora, só os tolos (e aqueles que acreditam que nações têm espírito pertencem a essa espécie) pensam que a história está fadada à eterna repetição. Porém, daí a essa direita abertamente liberal se tornar eleitoralmente poderosa vai uma grande distância.

O relativo sucesso da passeata antiDilma não é suficiente para referendar esse vaticínio. Primeiro, porque fora São Paulo, o sucesso foi mais de mídia do que de público propriamente dito. Segundo, porque muitos foram à passeata pedir por intervenção militar, golpe e outras violações legais e constitucionais. Esses supostamente não rezam a cartilha do liberalismo radical. Contudo, há uma razão maior. Enquanto a desigualdade for brutal em nosso país, o liberalismo de direita estará fadado a ter baixa efetividade eleitoral. Não se ganham eleições somente com o voto de elites.

O pior inimigo dos liberais fora do armário são eles mesmos, pois a realização de seus projetos contribui para corroer sua própria base de sustentação dentro de um regime democrático. Eles podem ser até eficazes para atacar o governo, mas não têm projeto eleitoralmente viável para governar o Brasil. Daí a necessidade de pensá-los sempre como linha assessória dos partidos de centro-direita e de direita. Na hora da eleição, não são eles que encabeçarão a chapa.

Sua única chance de ganhar o Estado é por meio da ruptura institucional: instaura-se o Estado forte para se produzir um Estado fraco. Repressão em uma ponta e liberalização econômica na outra. Isso já foi tentado no Chile há algumas décadas e o saldo ultrapassou 20 mil mortos, entre muitas outras violações dos direitos humanos. Não é coincidência, portanto, que esse novo liberalismo busque amplificar seu apelo se escondendo detrás do moralismo e de vários pequenos autoritarismos, como agora presenciamos. Resta-nos fazer com que a não repetição da história seja, para além da conclusão metodológica, um desiderato.

*João Feres Júnior é cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP), coordenador do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública, em colaboração ao SRZD


Comentários
  • Avatar
    18/04/2015 23:18:28ARMANDO CRUZAnônimo

    Gostaria de sugerir a leitura do livro que citei abaixo mesmo que se considere o autor polêmico, mas, ele é considerado â??O pensador preferido da jovem vanguarda intelectual da europeia.â? Brian Dillon â?? Daily Telegraph. Só na introdução dessa obra ele foi capaz de estruturar uma narrativa que estabelece uma sincronicidade, não de tempo, porém, de coincidência significativa de acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de eventos culturais motivacionais de fenômenos político-econômicos. Com certeza será de interesse para todos por ser tão próximo como tese interpretativa com o movimento popular de JUNHO/ 2013, e, paradoxal se aplicado ao movimento burguês de 15/ 03/ 2015.

  • Avatar
    18/04/2015 22:20:22ARMANDO CRUZAnônimo

    Desde a queda do muro de Berlim em 1989, ao esgotamento do socialismo como Estado-partido no comunismo autoritário, na Europa oriental, com o surgimento do SOLIDARIEDADE na Polônia, podemos conferir, lendo as profecias de Slavoj Zizek e seu diagnóstico do anseio popular de acabar com a ditadura comunista sem optar pelo capitalismo mas, sim, manter o socialismo com rosto humano (como fenômeno autóctone cultural e social) e não Estatal que, hoje, existe como possibilidade real, no século XXI, na América do Sul e no Brasil, com a chegada do PT ao governo, num diagnóstico extemporâneo e como tese pragmática alóctone e positiva de um novo e autêntico governo democrático e socialista (integrante dos BRICS) citada pelo profeta para aquela época na sua obra: Vivendo no fim dos tempos - 2010. Esse livro mostra nossa experiência de JUNHO/2013 e a trajetória do enfrentamento do governo brasileiro ao impacto da crise de 2008, sem cita-la, porque não havia ocorrido, simplesmente. Ã? incrível como esse diagnóstico que é para nós alóctone, serve-nos como diagnóstico sociológico, político e econômico que reafirma o governo do PT como a única opção social justa e inteligente para fazer frente ao neoliberalismo serviu que aprofunda a crise européia e fortalece a América do Norte.

  • Avatar
    15/04/2015 11:25:28AlbertoAnônimo

    Os discursos de sempre,a direita contra a esquerda,o bem contra o mal,o golpismo,os neoliberais,etc,etc,enfim o fundamentalismo ideológico e nada mais.

  • Avatar
    15/04/2015 07:59:29PCAnônimo

    Afinal, o que faz um cientista político?

  • Avatar
    14/04/2015 13:25:52RogerioAnônimo

    Além da direita, a ameaça vem do PMDB...

  • Avatar
    14/04/2015 13:04:48Rita AlmeidaAnônimo

    Ã?tima análise! Apesar da tentativa da mídia, o segundo protesto da direita se esvaziou. Eles não se sustentam.

  • Avatar
    30/03/2015 22:26:45Canrobert MaiaAnônimo

    SRZD(patrocínio Caixa Economica Federal) Fico completamente abismado como um ser pensante, de andar ereto, onívoro, construtor de ferramentas, etc, como o Sr Armando Cruz, consegue ser tão imbecil. Ã? impressionante como todos eles se mostram presunçosos e arrogantes. Observo no seu raciocínio a famosa patologia chamada de "presunção dos imbecis". Não há cura...Infelizmente.

  • Avatar
    27/03/2015 09:50:13ARMANDO CRUZAnônimo

    Quem puder assistir a entrevista (26 ou 27/03/15) do procurador da república Deltan Dallagnol que coordena as investigações do lava-jato no programa Miriam Leitão (GLOBO NEWS), gravado no Paraná, terá uma grande surpresa e entenderá porque o PMDB, FHC e COLLOR estão criando insídia entre Dilma e Levy e fazendo o possível para se desacreditar no trabalho do procurador da república e adiando a possibilidade de reformas transparentes e com participação popular. Teremos que ir pra rua para exigir impeachment dos dirigentes da Câmara dos deputados e do Senado Federal. Isso é urgente! Já que abaixo assinado demora vamos acessar os #impeachmenteduardocunha ; #impeachmentrenancalheiros e impeachmentpmdb.

  • Avatar
    25/03/2015 01:07:12ARMANDO CRUZAnônimo

    Os Gigantes Brasileiros que participaram do "Movimento Popular e Espontâneo de JUNHO/ 2013" e que foram â??MORAL E POLÍTICAMENTE TRAÍDOSâ? por este "FAKE DE DEMOCRACIAâ? que se revelou excludente, preconceituoso, teologicamente neofundamentalista e manipulou cidadãos bem intencionados, jovens e crianças que se envergonharão, num futuro próximo, de terem exercido o papel de marionetes e de bonecos dos ventríloquos do neoliberalismo econômico que tratam o cidadão, despolitizado, insatisfeito e confuso como atores de um "REALITY SHOW SOCIAL" a céu aberto ( 15/03/15) para produzir imagens para o marketing dos partidos políticos que usarão gratuitamente sua imagem e boa intensão nas próximas eleições de 2016 e 2018. Pense nisso antes de votar nos nanicos, falsos social-democratas e falsos democratas do PMDB, PSDB, DEM, PPS, E, FALSOS SOCIALISTA E AMBIENTALISTAS COMO PV E PSB. A SOLUÃ?Ã?O QUE GARANTE AS CONQUISTAS SOCIAIS DO BRASIL DE HOJE Ã? MANTER SEU VOTO NO ATUAL GOVERNO DA PÁTRIA EDUCADORA NOS MUNICÍPIOS E ESTADOS DE TODO O BRASIL! SEM MEDO DE SER FELIZ!

  • Avatar
    25/03/2015 00:35:15ARMANDO CRUZAnônimo

    Parabenizo o Senhor João Feres Júnior* por nos apresentar essa síntese que, enriquecida pela qualidade/ estilo da narrativa, e, pelas bem colocadas expressões como: â??â??... do Brasil de hoje;... movimento semântico de se trocar a palavra "Liberal" por outras que fazem alusão a regimes explicitamente populares: democracia e república;... O pior inimigo dos liberais fora do armário são eles mesmos (VIDE ALUSÃ?O PRECONCEITUOSA Ã? MÃ?O DE LULA ESTAMPADA PARA MARKETING POLÍTICO NEGATIVO DO DEM)... Na hora da eleição, não são eles que encabeçarão a chapa... (diria), eu, que este é o papel especular, bem sucedido, que alimenta a sanha política do PMDB com seu fisiologismo que é indiferente às ideologias e é assumidamente viciado em conviver nas coxias dos executivos municipais, estaduais e federal, porém, no controle das câmaras, assembleias e no congresso.

  • Avatar
    25/03/2015 00:34:30ARMANDO CRUZAnônimo

    Tenho certeza, pelo menos em tese, que o último parágrafo é até o momento a melhor, porém não intencional expressão de pensamento para definir a marcha de 15/03/15, como â??FAKEâ? do movimento â??POPULAR ESPONTÃ?NEOâ? de junho/2013.

  • Avatar
    25/03/2015 00:33:19ARMANDO CRUZAnônimo

    Quanto à expressão: â??... instaura-se o Estado forte para se produzir um Estado fraco.â? Podemos ver que é real essa constatação nas colocações e nas atitudes dos representantes do Estado que não estão alinhados com a vanguarda dos direitos civis na ótica dos direitos humanos, no cenário mundial da diplomacia, e, no â??Brasil de hojeâ? como se segue: â??Presidente do grupo Tortura Nunca Mais em Goiás, o ex-preso político Waldomiro Baptista denuncia o juiz Sérgio Moro pela prática de tortura.â? A ditadura, com o AI-5, acabou com o habeas corpus e estimulou o dedurismo, a delação. â??O que vejo na ação do juiz Sérgio Moro é algo semelhante: a prisão usada como método de investigação e também de tortura, algo que achava que havia sido enterrado na lata de lixo da história pela Constituição de 1988â?, critica. Veja em .portalmetropole.com/2015/03/camargo-cor rea-afirma-tortura.html#ixzz3VMYCK1mP, e, pelo presidente da câmara na proibição para que a população acesse a área pertinente a mesma no plenário da câmara.

  • Avatar
    25/03/2015 00:32:35ARMANDO CRUZAnônimo

    Os neoliberais, no contexto econômico da mundialização do capital e do Estado-Nação, atuam como testas de ferro/ laranjas do capital especulativo internacional que aliciam políticos, teólogos neofundamentalistas e servidores públicos para enfraquecer o Estado-Nação e criar a ambiência favorável às práticas de mercado desregulamentadas e a fragilização das democracias mais vulneráveis pela dispersão e falta de lideranças populares, colocaria outro ângulo desse mesmo prisma, o diálogo abaixo:

  • Avatar
    25/03/2015 00:31:43ARMANDO CRUZAnônimo

    Em 2007, Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve dos EUA foi perguntado pelo jornal suíço Tages-Anzeiger, quem, em sua opinião, seria o próximo presidente dos Estados Unidos. Ele respondeu: "Nós somos afortunados que, graças à globalização, as decisões políticas em os EUA têm sido largamente substituídas por forças do mercado global. A segurança nacional de lado, quase não faz diferença quem será o próximo presidente. O mundo é governado por forças de mercadoâ?. Então, é a democracia eleitoral compatíveis com as forças do capitalismo global? Ou os governos ocidentais apenas "comprar tempo" com correções económicos em curto prazo, a fim de vencer as eleições, enquanto o poder real não está com o povo, mas em outro lugar completamente diferente? Veja://podacademy.org/bookpods/buying-ti me/#sthash.lJdQ4oJl.dpuf

  • Avatar
    24/03/2015 11:34:20carlos camposAnônimo

    "O socialismo dura até terminar o dinheiro dos outros".No curto prazo, um país mais justo torna-se menos eficiente. Esqueçamos essa tara de igualdade e tentemos ser diferentes e melhores que os outros."Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir"_ W. Churchil

Comentar

Isso evita spams e mensagens automáticas.