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13/04/2015 08h57

'Uma praça em Antuérpia': livro foge de déjà-vus comuns ao tema do antissemitismo
Carolina Floare*

Luize Valente já se consagrou como uma especialista do gênero Romance Histórico no Brasil. "Uma praça em Antuérpia", publicado em 2015 pela editora Record, é o seu segundo livro no gênero. A parte mais densa do ponto de vista histórico, e também da trama, centra-se durante o período da Segunda Guerra Mundial e é onde a autora atinge a maior originalidade na sua obra, fugindo aos déjà-vus comuns ao tema do antissemitismo, e abordando a questão por um prisma pouco visto na literatura e no cinema.

Uma praça em Antuérpia, de Luize Valente. Foto: Divulgação

A construção minuciosa do enredo, que viaja, de forma não linear, segura, ao longo do século XX; a criação de personagens complexas e fascinantes (que dão água na boca a qualquer ator!); o aprofundamento da reconstituição histórica, que chega a detalhes deliciosos para qualquer apaixonado por História, como as condições meteorológicas reais ou a notícia ipsis litteris que saiu num jornal em determinado dia - estas são as raízes fortes de uma bela árvore alimentada pela seiva da perfeita verossimilhança interna, como compete ao melhor romance histórico. E o que mais instiga neste livro, enquanto romance histórico, é justamente o seu não-didatismo, o seu foco nas estórias da História, no humanismo das situações, nos componentes sociais, axiológicos e sentimentais das épocas escolhidas. O tempo cronológico e os cenários descritos com precisão cinematográfica se misturam ao tempo psicológico e aos espaços interiores onde habitam os conflitos dos personagens, sendo estes - o tempo psicológico e os espaços interiores - os grandes protagonistas deste romance. Como chave de platina, a estratégia narrativa é inteligentíssima, com capítulos curtos encadeados por ganchos urgentes, que nos tornam cativos encantados da leitura. Ao terminar, temos a sensação de ter visto um filme.

Começamos com a octogenária Olívia Braga de Almeida, dona de uma das maiores redes de supermercados do Brasil, assistindo ao amanhecer do primeiro dia do novo milênio na varanda de seu apartamento num luxuoso hotel no Rio de Janeiro. É quando sua neta, Tita, a surpreende com uma fotografia antiga, nunca antes vista, em que Olívia, jovem e grávida, aparece ao lado de um homem e um menino desconhecidos, numa praça em Antuérpia, na Bélgica. Noutra fotografia da mesma época, Olívia está ao lado do marido e do filho que Tita bem conhece. A revelação, então, surge: "Olívia", na verdade, é Clarice, a mulher da fotografia desconhecida em Antuérpia, grávida de Helena, mãe do pequeno Bernardo e mulher do judeu alemão Theodor Zuskinder, pai de seus filhos. A verdadeira Olívia - a da fotografia conhecida - era sua irmã gêmea, com quem, sessenta anos antes, trocou de identidade durante uma fuga em plena Segunda Guerra Mundial. A partir desta revelação, Tita conduz a avó por uma viagem no tempo, durante a qual Clarice narrará a saga de sua família e o acaso do destino que provocou a troca de identidades, e, depois, por uma viagem no espaço, até Portugal e Antuérpia, onde, finalmente, o resgate da identidade perdida acontece. Uma história universal, de grandes amores, fatais desamores e intensa fraternidade em tempos de guerra. Arrebatador.

Uma praça em Antuérpia, de Luize Valente. Foto: Divulgação

*Carolina Floare é artista, jurista, tradutora literária, em colaboração ao SRZD


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