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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

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20/04/2015 08h51

Datas marcantes de Candeia
Carlos Nobre

Antônio Candeia Filho (1935-1978), o Candeia, sempre será um mito. 

Esse mito é justificado pelo o que ele representou. Ou seja, pela liderança, pelos sambas antológicos, pela percepção refinada e pela personalidade contraditória.

Candeia. Foto: Divulgação

Para se ter uma ideia, Candeia é o primeiro sambista a ter discurso racial. Este fato já é um indicador de seu diferencial em relação aos demais.

Nascido em Oswaldo Cruz, filho de um sambista da Portela, Candeia é ainda um enigma impressionante no mundo do samba, pois não se consegue desvendá-lo com minúcia, tal sua capacidade de transmutação.

Talvez, este ano, 2015, quem sabe, possa ser possível se aproximar mais do mito e entendê-lo. Isto porque coincidentemente Candeia terá três efemérides.

Ou seja, datas redondinhas que fecham harmonicamente com o número cinco.

Vejamos:

90 ANOS DE NASCIMENTO

Candeia nasceu em 17 de agosto de 1935, em Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, terra de bambas, como Paulo da Portela, Manacea, Natal, entre outros. Assim, se estivesse vivo, ele, em agosto, completaria 90 anos de vida. Nesse sentido, já existe uma ampla programação para homenagear os 90 anos do grande líder do samba de Madureira e Oswaldo Cruz. Ele era filho do gráfico Antônio Candeia, um sambista portelense, tudo a ver, né. O menino foi criado nas rodas de samba do quintal de sua casa, em Oswaldo Cruz. Aos 16 anos, se tornara compositor da Portela. Dali para frente... todo o mundo sabe a história.

40 ANOS DA GRES QUILOMBO

Descontente com a descaracterização da Portela e de outras escolas suburbanas, que a indústria cultural vinha impondo, nos anos 1970, Candeia se afasta da Portela e resolve criar uma escola diferente. Ou seja, a GRES Quilombo, em Rocha Miranda, na Rua Pinhará, ao lado de uma palmeira, e que, depois, finca sede definitiva, em Acari. Assim, a Quilombo vira símbolo da tradição africana, navegando na onda contrária dos grandes esquemas de desfile da Sapucaí. Na ata de fundação da escola, grandes intelectuais negros e brancos assinam o ato de fundação. Candeia, assim, se torna símbolo vivo do samba de raiz. A escola foi fundada em 8 de dezembro de 1975, dia de Nossa Senhora da Conceição.

50 ANOS DO ACIDENTE

Estávamos nas comemorações do quarto centenário do Rio de Janeiro em 1965. Em 12 de dezembro, Candeia, que trabalhava como detetive da Polícia Civil, era conhecido pelo seu autoritarismo policial em relação aos demais, sejam amigos, sejam marginais. Nesse sentido, numa desavença com uma prostituta da Lapa, esbofeteia a mulher. Esta roga-lhe uma praga, segundo seus biógrafos. Mas Candeia não liga. Ele era um negão forte, bonito, destemido e capaz de superar grandes obstáculos. Ele havia passado no concurso para oficial de justiça do Tribunal de Justiça. Assim, estava se despedindo do cargo de detetive da Polícia Civil. Iria ganhar mais e deixar de lidar com bêbados, ladrões, gigolôs, malandros, prostitutas, estelionatários, e bandidos de toda a espécie. Foi homenageado numa festa de despedida no antigo clube Imperial, no início da Estrada do Portela, em Madureira, por policiais e amigos da Portela. Bebeu muito, e ele não bebia assim. Por volta das duas da madrugada, levou o pai para casa, em Oswaldo Cruz. Retornou e pegou Waldir 59, seu parceiro de sambas, e sua gatinha da zona sul, no clube. Os dois foram levar a garota na casa dela, no Leblon. Passaram pela Mangueira, não gostaram do clima e foram para Botafogo. Na antiga saída da Catumbi-Laranjeiras, quando eles saíam da final da Marquês de Sapucaí, Candeia bateu na traseira de um caminhão de peixe. Desceu, olhou para o paralamas, e viu que estava amassado. Sacou o revólver e esvaziou todos os pneus do caminhão a tiros. Os dois ajudantes do caminhão pularam batidos. Candeia ainda deu uma banda num deles, que sumiu para os lados. Aí, ele falou para o motorista do caminhão, um italiano: "Agora, é você". Mas Candeia não esperava a reação do motorista do caminhão. Este puxou uma arma e deu cinco tiros que atingiram o sambista no braço, medula e pulmões e o deixou paralítico, ou seja, dependente de uma cadeira de rodas.

A TRANSFORMAÉÉO

Depois deste fato, numa cadeira de rodas, Candeia mudou completamente sua personalidade dura, destemida e conflituosa. 

Passou a ser um líder nato do mundo do samba, e, assim, nesta condição, impôs um estilo, uma liderança, um modo de intervir na cultura suburbana, que o tornou insuperável.

Além do mais, foi nesta condição, numa cadeira de rodas, que Candeia percebeu os dilemas da questão racial brasileira. Assim, tornou-se o único sambista até agora que discutiu a questão racial nos seus sambas, deixando para trás nomes consagrados. 

Veja, por exemplo, esse trecho deste samba, "Dia de Graça", de sua autoria:

"Negro, acorda, é hora de acordar
Não negue sua raça
Torne toda manhã
Dia de Graça
Negro, não humilhe
Nem se humilhe a ninguém
Todas as raças
Já foram escravas também
Deixe de ser rei só da folia
E faça da sua Maria
Uma rainha de todos os dias"

Livro Candeia - Luz da Inspiração. Foto: DivulgaçãoEssa é a diferença fundamental dele para os demais. Até porque o nome da escola que criou - QUILOMBO - já é um sinal claro de seu posicionamento político na estética africana.

OS LPS ANTOLÉGICOS

1. "Candeia" (1970),
2. "Raiz" (1971),
3. "Samba de Roda" (1975),
4. "Luz da Inspiração" (1977) e
5. "Axé" (1978)

LIVROS DELE E SOBRE ELE

1. "Escola de Samba: árvore que esqueceu a raiz", de Candeia e Isnard de Araujo (Lidador, RJ, 1978), que mostra Candeia teórico das escolas de samba.
2. "Candeia: Luz da inspiração", de João Baptista M. Vargens (Almadena, RJ, 2008), que traz um CD com 23 sambas inéditos de Candeia.


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