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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



04/05/2015 15h16

A incrível arte de Fernando Pinto
Carlos Nobre

Os adjetivos são amplos.

Genial, fantástico, futurista, brilhante.

Assim é definido Fernando Pinto (1945-1987), o carnavalesco de duas grandes escolas, GRES Império Serrano e GRES Mocidade Independente de Padre Miguel.

Ele morreu, em 1987, aos 42 anos, na Avenida Brasil, num acidente, após deixar um ensaio da Mocidade Independente, em Padre Miguel.

A principal característica de Pinto é que era um intelectual fascinado pela teoria do tropicalismo ensejado pelo movimento da MPB comandado por Gilberto e Caetano Veloso entre os anos 1960-1970.

Esse movimento cultural acabou influenciando depois outras manifestações artísticas brasileiras.

Fotos: Reprodução de Internet

Outro fator relevante em Pinto é que era apaixonado pela cultura brasileira, ou seja, pesquisava e analisava constantemente culturas negras, indígenas, regionalistas... sem perder o fôlego.

Agia como um antropólogo entusiasmado pelo seu objeto de trabalho.

A respeito da arte de Fernando Pinto, escrevem Alan Diniz, Alexandre Medeiros e Fabio Fabato no livro "As três irmãs: como um trio de penetras arrombou a festa" (Nova Terra, RJ, 2012): "Fernando cultuava o deboche, a irreverência, brincava com o brega, abraçava o kitsch, descobriu na Mocidade a companheira ideal para o eterno afago na Brasilidade. Coqueiros, cajus, 'croquetes frenéticos', tudo cabia no grande caldeirão. Mas Fernando resolveu inovar mais uma vez e partiu rumo ao desconhecido, no final de 1987. Ainda não mandou notícias, mas quem o conheceu sabe que ele deve estar aprontando sua última e definitiva surpresa".

No entanto, era um ser de grande visão, pois tinha também um pé muito grande dentro das inovações tecnológicas que viriam pela frente e que se concretizaram a partir dos anos 2000.

Em 1985, por exemplo, ele foi campeão pela Mocidade Independente com o enredo "Ziriguidum 2001: Um carnaval das estrelas", em que as integrantes das alas de baianas desfilavam com capacetes de astronautas.

Foi uma revolução na fantasia de baianas no Carnaval carioca, ninguém jamais esqueceria aquela coisa: a tradição afro vinculada ao futuro tecnológico.

Era uma ousadia que ninguém tinha visto na Sapucaí.

Há quem diga que por causa deste super-enredo, Pinto teria sido o pioneiro da estética virtual ou futurista no desfile das escolas de samba, pois teria sacado, neste enredo, a futura influência que as tecnologias virtuais teriam na sociedade do futuro.

Naquele época, ainda estávamos em meados da década de 1980, que, claro, ainda se ancorava nas conquistas liberais dos anos 1960-1970.

Além do mais, ali, ele casava, em 1985, com seu "Ziriguidum", virtualidade com cultura popular. Para botar isso na Avenida, o carnavalesco teria que se desdobrar em mil.

Para ele, não, era fácil.

Sua cabeça dava saltos acrobáticos no futuro, presente e passado com muita naturalidade.

Além do mais, ele detinha uma visão muita original das artes plásticas e da comunicação visual como nenhum outro.

O pernambucano afrodescendente começou sua carreira fulgurante de carnavalesco, em 1971, no GRES Império Serrano com um enredo sobre a cultura nordestina e conseguiu o terceiro lugar.

Para um estreante, fora um feito impressionante, a escola sentiu isso.

Era 1972, o enredo fora " Alô, alô, taí, Carmem Miranda", em que ele pôde exercer sua estética tropicalista de forma ampla e variada. Isto porque o enredo mexia na identidade brasileira.

Era como se ele perguntasse: que país é este? Ou que reafirmasse sermos uma nação colorida, multifacetada, verde, subdesenvolvida, e formatada pela cultura dos mais fracos.

Carmem Miranda, bom que se diga, fez sucesso cantando músicas do povão e se fantasiando como baiana das ruas de Salvador e Rio de Janeiro.

Ele percebeu isso e foi campeão do Carnaval daquele ano.

Um ano depois, em 1973, voltou a despertar atenção, ainda, no Império Serrano, com o enredo "Viagem encantada Pindorama adentro".

Neste enredo, dizia para todos da sua admiração profunda pela cultura afrobrasileira e indígena, temas sempre recorrentes em sua estética de desfile.

Assim, explorava a mitologia indígena de construção do pais, com forte amparo nos ritos de criação do mundo das culturas africanas.

Ninguém se opõe ao fato de muitos considerarem ele um dos maiores gênios que o Carnaval carioca já produziu.

Já seus revolucionários enredos futuristas na década de 1980 na Mocidade Independente de Padre Miguel privilegiavam as raízes culturais do Brasil.

Suas cores preferidas (verde, amarelo, azul e branco), sempre muito bem harmonizadas em seus desfiles.

Pela Mocidade Independente, nos deixou enredos antológicos como "Como era verde meu Xingu", "Tupinicópolis" e "Dona Santa, rainha do maracatu".

Sempre fortalecendo as culturas populares.

Jovem, não chegou a completar 15 Carnavais no Carnaval carioca, mas marcou seu nome de forma profunda, como se tivesse passado décadas à frente das escolas de samba.

O mais interessante de Pìnto é que ele não se encaixava na escola de carnavalescos que se destacavam até então. Fernando Pamplona, Maria Augusta, Rosa Magalhães e Arlindo Rodrigues eram formados em Belas Artes e trouxeram esse conhecimento acadêmico para o mundo do Carnaval.

Joãosinho Trinta, Renato Lage e Max Lopes beberam nessa fonte, cada um com suas características, mas vindos da mesma escola.

Fernando Pinto, não.

Ele parecia inaugurar uma nova linha no desfile das escolas de samba.

Fernando era único, parece que não era formado em Belas Artes e se não parecia seguir ninguém, também não teve sucessores.

Sua maior referência era a cultura nordestina que lhe rendeu belas imagens em seus desfiles. Juntando ainda uma estética tropicalista, formatada principalmente por Gilberto Gil e Caetano Veloso, nos anos 1960-1970, com símbolos da cultura pop e uma inquietude incansável, se tornou um gênio do imprevisível.

No Carnaval de 2014, 28 depois de sua morte, a Mocidade Independente lhe prestou uma homenagem com o enredo "Pernambucópolis".

Era uma referência óbvia, claro, à terra de seu maior carnavalesco de todos os tempos e também uma citação a um grande enredo dele na escola: "Tupinicópolis", de 1987, seguindo sua linha clássica de enredos de linha tropicalista.

Foi homenageado pela GRES União de Rocha Miranda, do Grupo de Acesso, em 1990. A escola levou à avenida o enredo "Mamãe, eu quero Fernando Pinto, ziriguidum e Carnaval"

CONQUISTAS DE PINTO:

- Campeão, em 1972, com o enredo "Alô, Alô, taí, Carmem Miranda", pela GRES Império Serrano.
- Campeão, em 1985, pela GRES Mocidade Independente com o enredo " Ziriguidum 2001: Um Carnaval nas estrelas".

VICES-CAMPEONATOS:

- Em 1973, na GRES Império Serrano, com "Viagem encantada Pindorama adentro".
- Em 1980, na GRES Mocidade Independente, com "Tropicália Maravilha".
- Em 1984, na GRES Mocidade, com o enredo " Mamãe, eu quero Manaus"
- Em 1987, na GRES Mocidade, com o enredo " Tupinicópolis".

As escolas sob seu comando ganharam 11 Estandartes de Ouro

ENREDOS DELE:

â?¢ 1971 - Império Serrano - Nordeste, seu povo, seu canto, sua gente
â?¢ 1972 - Império Serrano - Alô, alô, taí Carmem Miranda
â?¢ 1973 - Império Serrano - Viagem encantada Pindorama adentro
â?¢ 1974 - Império Serrano - Dona Santa, rainha do maracatu
â?¢ 1975 - Império Serrano - Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio, estrela de Madureira
â?¢ 1976 - Império Serrano - A lenda das sereias, rainhas do mar
â?¢ 1978 - Império Serrano - Oscarito, Carnaval e samba, uma chanchada no asfalto
â?¢ 1980 - Mocidade Independente de Padre Miguel - Tropicália Maravilha
â?¢ 1982 - Estação Primeira de Mangueira - As mil e uma noites cariocas
â?¢ 1983 - Mocidade Independente de Padre Miguel - Como era verde meu Xingu
â?¢ 1984 - Mocidade Independente de Padre Miguel - Mamãe eu quero Manaus
â?¢ 1985 - Mocidade Independente de Padre Miguel - Ziriguidum 2001, carnaval nas estrelas
â?¢ 1987 - Mocidade Independente de Padre Miguel - Tupinicópolis

Relembre os preparativos do enredo "Tropicália Maravilha":

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Comentários
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    04/05/2015 19:14:40Carlos Nobre CruzMembro SRZD desde 26/03/2015

    Teddy, acho seguinte: todos os enredos da fase Mocidade Independente dele são fantásticos. Impossível definir o mais criativo, o melhor. FP era um talento muito especial.

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    04/05/2015 15:58:43Tedy Beija-Flor - A marca do Carnaval, é ela!Membro SRZD desde 12/04/2012

    Muito bom o vídeo com as entrevista do Fernando Pinto, que partiu muito jovem ainda, e não pode premiar a geração mais nova como a minha. Ã? impressionante o trabalho dele, Tupinicopóilis do Fernando Pinto e Ratos Urubus do Joãosinho Trinta, foram os dois carnavais mais criativos da história até hoje. Aliás Tupinicopólis é mais criativo que o próprio Zirigdum 2001 que foi campeão. Se estivesse vivo, acho que Fernando Pinto ao montar uma civilização, uma cidade índigena imaginária com shopping, boate, seria canetado pelos jurados que diriam se tratar de algo não realista.

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