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Maria Apparecida

Maria Apparecida

CARNAVAL. Historiadora, escritora e decoradora, é considerada uma das mais respeitadas autoridades do Carnaval de São Paulo. Há 35 anos começou a se interessar pelo samba, em que desenvolveu vários projetos. Entrou para a história ao se tornar a primeira carnavalesca da folia paulistana.

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07/05/2015 12h00

Cida Urbano: 'Os presidentes precisam abrir os olhos para as raízes de suas escolas'
Maria Apparecida Urbano

Mal terminou o Carnaval, e nos deparamos com situações difíceis e complicadas.

A cada dia, fica mais nítido que aquele grande amor pelo pavilhão e pela escola já é uma coisa ultrapassada.

As escolas de samba, por força da chamada evolução, se transformaram em verdadeiras empresas comerciais, que mudam seus funcionários de acordo com as suas necessidades.

Nunca vimos tantos sambistas dos mais diferentes cargos, mudando de escolas.

São compositores, intérpretes, mestres de bateria e até casais de mestre-sala e porta-bandeira que trocam de pavilhão, como se isso fosse uma coisa natural.

E o amor e a dedicação ao pavilhão, como ficam?

Mais uma vez nos deparamos com a evolução. Foto: Reprodução

Continuando nosso pensamento, nos deparamos com os carnavalescos, que transitam entre as agremiações.

Tempos atrás, estes artistas, empenhavam para fazer um grande trabalho em uma entidade, dedicando-se a ela, muitas vezes, até tirando dinheiro do bolso para poderem realizar o seu trabalho. Eram movidos pelo amor a sua arte e pelo amor ao pavilhão. Por amor a ele permaneciam nas escolas por muitos anos. Outro tempo, fato!

Hoje vivem na disputa de contratação e das melhores condições de trabalho. Pelo talento e profissionalismo, possuem o direito e a oção de escolher o melhor caminho para suas carreiras.

Existe ainda um "porém": a impressão de que só são valorizados aqueles profissionais que vêm do Rio de Janeiro.

Para os carnavalescos paulistas parece não haver lugar em muitas das grandes escolas.

Conhecemos mentes criativas, incluindo jovens talentos, que, se houvesse condições financeiras mais favoráveis em suas escolas, poderiam realizar grandes desfiles.

Agora estamos pesquisando e realizando um novo livro sobre a arte popular, que norteia há muitos anos o Carnaval paulistano.

Mais uma vez nos deparamos com a evolução. Foto: Reprodução

Pensamos nos artistas, que se dedicam a esse campo, ou seja, nos carnavalescos. Aqui se coloca o nosso maior dilema: como a maioria dos carnavalescos da atualidade, no Grupo Especial de São Paulo, é carioca, temos procurado contatar e registrar aqueles que já trabalharam por algum tempo em São Paulo.

Pretendemos fazer uma boa pesquisa falando desses artistas populares. Porém, pensamos no seguinte: se, depois desses exaustivos apanhados, esses carnavalescos forem embora para o Rio, como fica esse trabalho todo? E a arte paulista que pretendemos demonstrar e valorizar, como é que fica?

É em São Paulo que encontramos todas as espécies de produtos para a realização do Carnaval: tecidos, com firmas especializadas para o Carnaval; enfeites, com muitas indústrias trabalhando e criando materiais novos todos os anos; fábricas de sapatos e sapatilhas, apropriados para os desfiles. E quantas outras indústrias que se dedicam o ano todo para suprir as necessidades das escolas de samba, como vacoformes, aramagens, plumagens, colas, tintas; enfim uma imensidão de firmas trabalhando em prol do Carnaval.

O Brasil todo compra seus produtos aqui em nossa capital.

E os paulistas vão até a cidade maravilhosa à procura de carnavalescos para fazer o nosso espetáculos.

Por que não criarmos também carnavalescos e darmos oportunidade aos nossos artistas populares?

No início das escolas de samba, preparávamos casais de mestre-sala e porta-bandeira; eles eram sambistas da entidade e começavam desde muito cedo a se dedicarem para exercer esses cargos.

A primeira coisa ensinada a esses casais, era amor ao pavilhão, respeito pelos dirigentes, e comportamento moral. O casal que representava a entidade, permanecia nela por muitos anos, era um grande orgulho ostentar o pavilhão.

Mais uma vez nos deparamos com a evolução. Foto: Reprodução

Outros fatos que já ficaram no passado são a ala dos compositores e o intérprete do samba-enredo. Para participar da ala dos compositores o candidato tinha que frequentar a quadra pelo menos um ano, tinha que compor um samba de quadra e passar por uma comissão da diretoria da Escola para ser aprovado. Sendo aceito, assumia o compromisso de só pertencer a essa entidade.

O mesmo regulamento era aplicado ao intérprete, que trazia o nome de "puxador do samba". O samba sempre esteve em evolução, porém essa evolução está acelerada demais, deixando todas as raízes do samba negro, as memórias e os personagens da história do samba para trás, o que é um grande mal.

Talvez valesse a pena retroceder esse quadro, a começar pelos presidentes.

Seria interessante que eles se preocupassem mais com a parte cultural de suas entidades, promovendo encontros e seminários, para que, desse modo, possam transmitir aos sambistas mais novos a verdadeira história sambística da cidade de São Paulo.

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Comentários
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    13/05/2015 09:02:49Rose MedeirosMembro SRZD desde 30/01/2014

    Precisou G.R.C.E.S. Unidos das Águas Claras de Bragança Paulista- SP, reconhecer todo uma vida de trabalho pela escola e pelo samba, para escolher como homenageada Dona Danga ( Nenê de vila Matilde), será contado toda sua história na avenida. Estamos deixando nossos verdadeiras raízes sem o reconhecimento e por valor financeiro, homenageando coisas e pessoas que não fazem parte do verdadeiro samba. Obrigada Dona Cida por todo seu trabalho, enaltecer todo verdadeiro sambistas.

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    10/05/2015 00:13:21cristina rangelAnônimo

    A comparação é filha da inveja... não se pode comparar desfiles daqui do RJ com os daí de SP são culturas diferentes. Em SP o jeito de fazer é diferente....os paulistas pensam em desfiles de escolas de samba de forma diferente. Aqui no Rio já existe a mais ou menos 20 anos uma associação de escolas de samba mirins (ASMRJ)que ensina as crianças todos os seguimentos de um desfile de escola de samba, com: festa de protótipos, lançamento de CD de dos sambas enredos das mesmas agremiações filiadas, premiação com troféu OLHOMETRO(cada escolinha recebe um troféu num segmento)e etc..as crianças serão futuros sambistas naturalmente; ou seja, é cultura, e cultura é segmentada. A população paulistana não tem o hábito de desfiles como se tem por aqui, por isso a comparação será eterna e estéril. Cada um com seu cada um. CRIS RJ

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    07/05/2015 22:01:53Ednei MarianoAnônimo

    Dona Cida Urbano, uma das mentes mais lucida do samba Paulistano, foi profunda na sua matéria, nos que vivemos o inicio da oficialização e ela veio com o objetivo de diciplinar, organizar e trazer mais verba para nossas entidades, chegou o momento de refletir e vivenciar os objetivos de uma Escola de Samba, é isso.

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    07/05/2015 19:33:41ANTONIO CARLOSAnônimo

    Dona Maria Aparecida Urbano, a senhora tem toda razão infelizmente o carnaval nos últimos anos cada vez mais muda e para pior, mesmo com toda tecnologia apresentada pelas Escolas de Samba no sambódromo, o amor por ela se acabou. O que vale mais é o valor do contrato oferecido pela Agremiação concorrente. Com relação aos carnavalescos importados do Rio de Janeiro sem comentários.Não podemos comparar o carnaval carioca com o nosso. No Rio de Janeiro existe interesse do Estado e diversas empresas e da rede de hotelaria, lá as Agremiações tem apoio até do tráfico de drogas. Eu mesmo desfilando na Vai Vai a mais de 30 anos e no Salgueiro a 22 anos, ja cheguei a perguntar para um famoso carnavalesco porque em Paulo não se faz carros alegóricos como no Rio de Janeiro e ele me respondeu a FALTA DE DINHEIRO.

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