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Tadeu Kaçula

Tadeu Kaçula

CARNAVAL/SP. Sambista, sociólogo e pesquisador das origens do samba e da cultura tradicional de São Paulo. Fundador do Instituto Cultural Samba Autêntico e do Projeto Rua do Samba Paulista. Idealizador e produtor do projeto Memória do Samba Paulista, que reúne uma coleção com 12 CDs dos principais sambistas e Velha-Guardas das Escolas de Samba de São Paulo. Diretor cultural da Uesp - União das Escolas de Samba Paulistana - e membro do departamento cultural da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. Ex-presidente da Escola de Samba Mocidade Camisa Verde e Branco. Autor do livro "Casa Verde - Uma pequena África na Zona Norte de São Paulo".

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21/05/2015 00h02

100 anos de samba urbano em São Paulo - parte 2
Tadeu Kaçula

Nesta segunda edição da série que conta os 100 anos de samba urbano em São Paulo, vamos tratar da influência dos rituais africanos e do catolicismo na formação do samba rural paulista.

O samba de São Paulo tem peculiaridades históricas quanto às origens. Diferente do Rio e de outros estados, o samba paulista tem um sotaque totalmente rural por conta de ter suas origens interioranas.

No final do século XVIII, no interior paulista na pequena cidade de Pirapora, às margens do rio Tietê, um grupo de pescadores encontram uma imagem que tinha as feições de Jesus. Eles achavam que se tratava de uma simples imagem perdida por algum devoto e decidiram transportá-la para a cidade vizinha de Santana do Parnaíba.

Parte II - 100 anos de samba urbano em São Paulo

Este transporte se deu em um carro de boi e era conduzido por escravos que trabalhavam naquela região e, ao conduzirem à imagem por uma antiga e esburacada estrada de terra a caminho de Santana de Parnaíba, um dos bois que puxava o carro empacou, o carro virou e a imagem caiu sobre os pés de um dos escravos do cortejo, escravo esse que nascera sem o dom da fala.

Mas ao cair a imagem sobre seus pés, este mesmo escravo falou: "ele não quer ir embora, ele quer ficar aqui". E assim se deu o primeiro milagre do santo e passaram a chamá-lo de "Bom Jesus".

Équela época o preconceito racial e social era tão viril e vistoso que em todas as festas religiosas tinha uma imposição unânime em toda comunidade branca que frequentava e organizava as procissões: "NÉO É PERMITIDO NEGROS NA PROCISSÉO". E assim com a exclusão do negro das festas religiosas, eles se refugiavam em um antigo barracão e lá faziam o que hoje é uma das principais referências do samba paulista: o samba de bumbo.

No barracão, os negros cantavam, dançavam e tocavam e ali reunidos em volta de um grande bumbo que, segundo história oral, era conduzido por Frederico Penteado (o Fredericão), um dos pais do bumbo. Quando alguém queria puxar um canto, um ponto, um verso, respeitando-se a tradição e a hierarquia africana, tinha que pedir licença para o pai do bumbo para cantar seu lamento com festa, dança e muita resistência cultural.

- Leia a edição anterior

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