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24/05/2015 08h07

Curicica: 'A escola quer esquecer a 12ª colocação', diz carnavalesco Marcus Ferreira
Rodrigo Trindade

A União do Parque Curicica divulgou recentemente a sinopse do enredo "Corações Mamulengos", uma referência ao teatro de bonecos bastante comum na Região Nordeste brasileira. O desenvolvimento plástico do tema ficará a cargo do carnavalesco Marcus Ferreira, que reuniu na última quinta-feira (21), na quadra da escola, compositores e outros membros da tricolor para explicar o que ele pretende fazer no desfile.

A mesma ocasião serviu para que os compositores ouvissem as dicas do artista para compor as obras que farão parte das disputas de sambas de enredo, com o objetivo de escolher o hino oficial. Após reunião com os compositores, Marcus conversou com o SRZD-Carnaval e revelou vários detalhes interessantes acerca do tema. Ele também afirmou que a Curicica quer apagar a má colocação do último Carnaval e fazer um desfile digno e, quem sabe, dar à agremiação um campeonato. Confira o bate-papo:

Marcus, carnavalesco. Foto: Acervo Pessoal. Imagem logo: Divulgação/Assessoria

SRZD-Carnaval: A Curicica amargou o 12º lugar em 2015. Como você pretende virar, junto com a escola, essa página?

Marcus: O 12º lugar incomodou muito a Curicica. Minha vinda para a escola foi com o objetivo de tentar começar os preparativos para 2016 muito cedo. Queremos chegar em janeiro e estar com quase tudo pronto. Estamos com tudo planejado, inclusive o barracão de alegorias e o ateliêr de fantasias.

SRZD-Carnaval: Muito se falou que a questão financeira da escola pode ter contribuído para o insucesso na Avenida em 2015. Mas a própria Curicica divulgou que a antiga administração tomou um rumo que não ajudou a escola. Como você está articulando as novas ideias com a nova diretoria?

Marcus: Quando cheguei na Curicica também fiquei sabendo que o problema não foi financeiro, mas apenas de planejamento. A nova diretoria está bastante empenhada para que os antigos erros não ocorram de novo e para que a escola realizem um bom desfile.

SRZD-Carnaval: Levando em consideração à questão financeira, como a Curicica pretende colocar em prática seu projeto de Carnaval em 2016?

Marcus: Não temos patrocínio, mas a Curicica busca parcerias através de amigos, de colaboradores da escola. Ela é organizada, com bom porte, inclusive uma boa quadra. Tem tudo para fazer um bom desfile. A Curicica quer fazer um Carnaval grande e buscar uma ótima colocação. A questão financeira é algo muito relativo quando o assunto é colocar em prática um planejamento de Carnaval. És vezes, mesmo com poucos recursos, se algo é planejado e colocado em prática de forma adequada, o resultado é positivo, independente de patrocínio ou não.

SRZD-Carnaval: Sobre o tema 'Corações Mamulengos', sabemos que foi de sua autoria. Como a escola abraçou essa ideia?

Marcus: Algumas pessoas já ouviram falar dos mamulengos, mas outras nunca ouviram. É um tema muito brasileiro, mas que muita gente desconhece. Há cerca de dois anos, tive a ideia de abordar esse enredo. É um enredo de minha autoria e que a escola abraçou e gostou muito.

SRZD-Carnaval: Como você analisa a importância de levar a cultura popular, principalmente a dos mamulengos, pouco conhecida pelos brasileiros, à Sapucaí?

Marcus: O teatro de mamulengos é tão importante que recentemente o Governo Federal passou a incentivar: foi tombado pelo Instituito do Patrimônio Artístico e Nacional como patrimônio cultural do Brail, assim como aconteceu com o samba, por exemplo. É uma cultura muito rica com encenação, de textos, de figurino, de tudo. Isso que a gente quer mostrar no Carnaval da Curicica, que levará um desfile bem diferenciado, com cores fortes e vibrantes, uma explosão de cores.

SRZD-Carnaval: Os mamulengos surgiram de um pequeno grupo de artistas. Quais aspectos serão abordados no desfile?

Marcus: O teatro de mamulengos surgiu para levar cultura e entretenimento ao povo mais simples, escasso de cultura, os chamados de Zé Povinho; é o público que assiste ao espetáculo. Neste mesmo enredo, iremos citar vários folclores do Nordeste, pois vários deles viram bonecos e são encenados, inclusive as danças típicas daquela região como frevo, bumba-meu-boi, entre outros. Vou abordar os mestres, que são os grandes criadores da cultura mamulenga. Essa é uma cultura popular, mas que alcança apenas uma pequena parte da população. Geralmente, está no meio de pessoas mais simples do Nordeste. Essa cultura surgiu no Recife (PE) e os chamados bonequeiros, aqueles que fazem esse teatro de bonecos, levaram a outras cidades, inclusive para a Zona da Mata de Pernambuco.

SRZD-Carnaval: Você nos contou que as atividades estão bastante adiantadas no ateliêr de fantasias. O que você pode revelar para nós?

Marcus: Na realidade, tudo já foi pensado, da plástica à setorização do desfile. Estamos com muitas coisas já adiantadas. Já estamos até com os protótipos praticamente prontos. O barracão de alegorias também está planejado. Pretendemos estar com tudo pronto bem antes do desfile. Planejamos tudo para que isso aconteça.

SRZD-Carnaval: Sobre a questão plástica: como você pretende mostrar o teatro de mamulengos na Sapucaí?

Marcus: A Curicica entrará na Avenda em 2016 bastante colorida, com cores vibrantes e alegre. Além disso, estamos com algumas novidades: estamos reciclando vários materiais do desfile passado. Tem um setor da escola em que estou usando tecidos que serviram de forração para algumas alegorias no último Carnaval, justamente para fazer o efeito dessa questão artesanal, que o enredo pede. Nada se perde. Estamos tentando aproveitar vários materiais. A proposta do enredo pede isso, muitas cores e material artesanal.

SRZD-Carnaval: A escola está prestes a selecionar as obras que farão parte das disputas pelo samba-enredo oficial de 2016. Como você avalia um bom samba?

Marcus: Na reunião desta quinta-feira consegui passar o que a Curicica pretende ter em relação à safra de sambas. Expliquei aos compositores a importância de trazermos um samba alegre e para cima, pois vamos ser a primeira escola de sábado a desfilar. A alegria, principalmente, tem que estar colocada na letra do samba. A questão do deboche, o respeito aos setores, que foram bem definidos na sinopse, também deve ser levada em conta. Tem que ser um samba valente, para um Carnaval vibrante e colorido. Quero que o samba tenha, também, esse caráter, de chegada e de saída do teatro dos mamulengos. Vai ser uma espécie de grande espetáculo dentro da Sapucaí.

O carnavalesco Marcus Ferreira resumiu ao SRZD-Carnaval como pretende setorizar o desfile da Curicica em 2016. Confira:

1º setor: "Vamos abrir o desfile apresentando os principais personagens do teatro de mamulengos, entre eles, o Mateus, a Quitéria, o Benedito, o Zé Povinho, os montadores de barracas, entre outros que fazem parte dessa manifestação cultural".

2º setor: "Vou dedicar este setor às lendas e crendices do Nordeste. Aqui, irei abordar vários folclores que envolvem a região e que são retratados no mamulengo através de bonecos".

3º setor: "Aqui, virá as danças e o folclores do Nordeste, pois vários deles também viram bonecos e são encenados, inclusive as danças típicas daquela região como frevo, bumba-meu-boi, entre outros. A bateria da Curicica irá desfilar vestida de batuqueiros, que é uma banda que toca junto com a encenação do teatro de mamulengos".

4º setor: "Este é um setor que tem a cara da escola, pelo fato do deboche, do humor e da irreverência. Vamos encenar, através do teatro dos mamulengos, algumas questões vividas pelo povo do sertão nordestino, como a falta d'água, a questão da morte do gado nas fazendas devido à seca, a falta de terra fértil para plantar e em consequência a escassez de alimentos, entre outras problemáticas que envolvem aquela região. Mas vamos abordar isso tudo de forma alegre, através dos bonecos e da encenação e mostrar que, mesmo com os problemas, eles são bem-humorados e conseguem dar a volta por cima".

Confira a sinopse do enredo "Corações Mamulengos", da Curicica:

Ei, você, se achegue aqui
Não se acanhe, pode vir
Paramos nessa cidade
Só pra mostrar novidade
Sou artista brasileiro
Me chame mamulengueiro
Um "Mestre" de qualidade

Deus, Tomara que não chova
Que nenhuma nuvem se mova
Pra eu poder levar graça
Pra todo mundo da praça
Nesse teatro do riso
Tem passagens de improviso
Para entreter toda a massa

Trouxe dentro da carroça
Um baú cheio de troça
Que eu já vou revelar
Peço só pra me escutar
Abra a mente e o coração
Agora preste atenção
Que eu vou já vou começar

Mas você tá intrigado:
Não tem ninguém do meu lado
Tô só eu aqui de gente
De carne e osso somente
Porém pode acreditar
Que eu faço multiplicar
Personagens de repente

É que os bonecos têm vida
E se alguém aí duvida
Eu vou agora mostrar
A alma a eles vou dar
Não conto causo capenga
Com a minha mão molenga
Faço até o mundo rodar

Começa o auto primeiro
Mateus, venha cá ligeiro
Para aqui se apresentar
Chega o professor Tiridá
Folgazões fazem pilhéria
Vêm Benedito e Quitéria
Formando um formoso par

Simão, vai tomar um cascudo!
Como é que um boneco miúdo
Tem tamanha ousadia?
João Redondo, quem diria
Pega no pé dos "caboco"
Até o Cassimiro Coco
É no Ceará que se cria

E o segundo auto começa
Mantendo a fiel promessa
De alegrar os presentes
Em lendas maledicentes
Medo me corrói inteiro
Da Cigana do Cajueiro
Correm até os mais valentes!

Entra em cena ferozmente
Um Papa-Figo inclemente
Só pra arrumar presepada
Mas se é pra dar risada
Esqueça o Palhaço dos Coqueirais
Que dizem não conseguir jamais
Fazer rir a garotada

Então o que se há de fazer
Para o povo se comover?
Muita música e dança
Vai começar a festança!
Com a verdade eu não falto
Vamos ao terceiro auto
Porque a noite é uma criança!

O corpo bole faceiro
Com o povo "batuqueiro"
Na bateria "Audaciosa"
Baila a menina mimosa
Meu Boi Bumba no Bumbá
Maracatu chega já
Com a sua corte ruidosa

Vixe! Vem acolá Lampião
Montado em seu alazão
Sai da toca sorrateiro
Neste auto derradeiro
Pra uma batalha final
Contra a injustiça social
Que enche o coronel de dinheiro

Mas meu povo não é fantoche
Para viver de deboche
E ser tão manipulado
Tal qual boneco, coitado
Leva a vida por um fio
Pra vencer tal desafio
Melhor é ser engraçado

Pois vou seguir celebrando
Com a minha arte brincando
Como menino em quermesse
Hoje nada me aborrece
Vou sorrir agradecido
Nesse palco colorido
Todo o mal desaparece

E tá chegando a minha hora
Vou depressa sem demora
Outra cidade alegrar
Um dia eu hei de voltar
Parece que foi tudo um sonho
Com este povo risonho
Quero de novo sonhar

A lágrima que aqui derramo
É por fazer o que eu amo:
Levar comigo alegria
É tamanha a honraria
Fico até emocionado
Vai meu muito obrigado
Em forma de poesia:

Mamulengo, mamulenguei
Um dia vou ser um rei
Não pra acumular vintém
Mas para espalhar o bem
Colecionando paixões
Em mamulengos corações
VEM MAMULENGAR TAMBÉM!!!

Carnavalesco: Marcus Ferreira
Texto: João Gustavo Melo

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Comentários
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    24/05/2015 15:44:41Cláudia BauerMembro SRZD desde 19/01/2013

    Em primeiro lugar, eu adorei a sinopse. Bem clara de entender, objetiva, sem rodeios, em forma de cordel como pretende o enredo. Agora o que me chamou mais a atenção foi a setorização do desfile. Um enredo bem planejado em setores e terminando com um deboche, como eu gosto. O carnavalesco pode usar e abusar de brincadeiras para retratar a realidade brasileira. Ao mesmo tempo, é um enredo que, como o próprio carnavalesco disse, pode reaproveitar os materiais e mesmo assim vai conferir uma plástica bem legal. O samba vai na mesma linha do da Unidos de Padre Miguel desse ano, ou seja, um samba super alegre. Torço demais para que a escola não se prejudique como foi esse ano, quando algumas alas ficaram sem fantasias. Mas pelo visto aprenderam com os erros. Parabéns, Curicica!!!

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