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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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11/06/2015 14h29

Paixões fora de controle
Rachel Valença

O magnífico texto de meu colega Hélio Rainho em seu blog aqui no SRZD-Carnaval e o desagravo promovido pela Portela em sua feijoada no último fim de semana me fizeram refletir mais profundamente sobre o lamentável episódio da vaia à Velha Guarda da Beija-Flor na festa de entrega do Prêmio [email protected] há dias. É claro que a vaia é abominável e no presente caso inteiramente sem cabimento, porque a Velha Guarda não pode ser responsabilizada pelas razões de descontentamento da maior parte dos sambistas em relação ao resultado do carnaval passado. Aliás, nem a escola de samba Beija-Flor mereceria essa vaia, pois seus componentes, em geral, nada têm a ver com uma pretensa injustiça ou até com uma possível manipulação do resultado.

E - interessante - nunca vejo os poderosos dirigentes das escolas, que entre si arquitetam as trapalhadas lamentáveis a que assistimos impotentes, serem vaiados. Como nunca vi os tenebrosos ditadores dos anos de chumbo receberem uma vaia. Mas vejo a atual presidente do país, que acaba de ser reconduzida ao cargo em eleições livres e democráticas, ser alvo de repúdio manifesto em vaias por parte daqueles que não gostaram de sua eleição. Os ditadores não eram eleitos, tínhamos de engoli-los, mas quem tinha coragem de vaiar?

Foto: SRZD

Vaiar a Velha Guarda é uma covardia. E foge a uma característica que sempre me agradou nas torcidas de escolas de samba e que se contrapõe ao que ocorre com as torcidas de clubes de futebol: enquanto estas últimas são briguentas e impiedosas para com seus adversários e rivais, os torcedores de escolas de samba são apaixonados por sua escola e também pelo espetáculo em geral. São capazes de apreciar um bonito desfile, de curtir um bom samba, embora às vezes prefiram manter um aparente desinteresse, um desdém superior. Mas respeito é a palavra que está na origem de todas as agremiações e que seus torcedores adotaram.

Isso é bonito. Trata-se sem dúvida de uma disputa, em que ninguém é "bonzinho", mas é de arte que estamos falando e a sensibilidade fala mais alto. Nossos leitores aqui, por exemplo, são muito apaixonados, brigam entre si, brigam conosco, mas tenho certeza de que não seriam capazes de vaiar sambistas, seus iguais.

O que dá para enxergar nesse episódio é a saturação do público em relação à falta de coerência e de transparência nos resultados. Saturação que extravasou de forma equivocada e infeliz, incidindo sobre quem não tem nada com isso. Mas uma saturação que precisa ser encarada e analisada por quem administra o carnaval, porque quase certamente ela é responsável por uma queda de interesse e de participação.

Foto: Reprodução de InternetVolto ao futebol. Assistimos nos últimos dias a uma vergonhosa intervenção na FIFA, a mesma FIFA que antes da Copa de 2014 era a carrasca do Brasil, ameaçado de um chute no traseiro ou algo semelhante, por não estar conseguindo acompanhar o "padrão FIFA". Depois da derrocada (e em alguns casos antes), muitas vozes apontaram erros administrativos paralelos à corrupção. Da mesma forma, muitas coisas erradas saltam aos olhos na administração do carnaval, mas os dirigentes parecem não enxergá-las. Um exemplo: a capacidade da passarela do samba foi quase duplicada depois da derrubada do prédio da Brahma e de uma obra custeada pelo poder público. Oba!

Se haverá mais ingressos para vender, os preços cairão, democratizando o acesso ao desfile. Não foi o que aconteceu. Os preços foram mantidos e os ingressos começaram a sobrar. Antes eram rapidamente esgotados, agora ficam sendo oferecidos, mas o povão não pode fazer milagre, não tem como comprar.

Também a negociação do direito de transmissão por TV, ao que tudo indica, não tem sido conduzida de forma a dar prioridade ao interesse do público que não tem acesso à Avenida, porque a emissora o adquire para só transmitir o que quer. Quem perde com isso? O público. Que talvez nem tenha consciência desses e de outros problemas (como a fragilidade do julgamento), mas que tem a sensação, aí sim, de que alguma coisa não vai bem. E reage de forma irracional e precipitada, fazendo recair o ônus, mais uma vez, sobre os próprios sambistas.

Por tudo isso, nunca é demais debater e analisar os temas de nosso interesse, porque entender é imprescindível para agir em benefício próprio. Amamos o carnaval das escolas de samba, queremos que seja melhor a cada ano. Vaiar uma Velha Guarda não contribui em nada para isso.

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Comentários
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    16/06/2015 12:33:37Almir da Silva LimaMembro SRZD desde 11/10/2011

    Foi repudiável a vaia por ter sido inoportuna e desrespeitosa à Velha Guarda e à Beija Flor (BF). O que é criticável é a filosofia carnavalesca e o sistema da LIESA que dá como campeão um desfile militarizado, frio, monótono e sem capacidade de emocionar o público, mesmo à envergonhada parcela consciente nilopolitana presente ao sambódromo. Os últimos desfiles da BF, da Tijuca assim como os do passado da Imperatriz são desfiles não-carnavalescos, mas militarizados, apelidados de â??técnicosâ? e supostamente â??sem errosâ?. Não antevi a merecida 7ª colocação da BF em 2014 dos pífios Enredo e Samba-Enredo: â??(Boni) O astro iluminado da Comunicação brasileiraâ?. O mesmo ocorreu em 2013 dos grotescos Enredo e Samba-Enredo: â??Amigo fiel, do cavalo do amanhecer ao Manga-Larga Marchadorâ? apelidados de â??licenças poéticasâ?. Me equivoquei em 2015 quando afirmei que a BF não disputaria título, mas pra voltar no desfile das campeãs. Mas, não sobre o quase-imperceptível â??desgasteâ? do mestre Laíla. O choro e o desabafo dele na Sapucaí no dia da apuração confirmaram isso. Então, a crise político-econômica chegou ao Brasil, obrigando a BF a escolher o autoral e não-inédito enredo do Marquês de Sapucaí. Que não é da filosofia dos não-sambistas verdadeiros patrono e presidente-executivo da BF Ocorre, mestre Laíla diz que em 2016 a BF apresentará desfile â??mais leveâ?. Ou seja, assume que os desfiles 2014 e 2015 foram mesmo militarizados, apelidados de â??técnicosâ? e supostamente sem â??errosâ?. Isto é, frios, monótonos e sem capacidade de emocionar o público. Isto é, de responsabilidade do patrono e do presidente-executivo da BF. Não desejo e isso é improvável. Porém, se a BF ficar novamente fora do desfile das campeãs â??a casa caiâ?. Saudações carnavalescas, Almir de Macaé.

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    13/06/2015 20:57:50uanderson de aquinoMembro SRZD desde 04/12/2009

    Acho um absurdo esse tipo de coisa que não havia no carnaval, desfile de escola de samba, como bem explicitou a Rachel e arte e precisa ser visto como tal, mas as pessoas estão importando um comportamento hostil antes vistos nos estádios de futebol para o sambódromo e ficam com essa palhaçada, a vitima da vez e a Beija Flor que o pessoal diz que é protegida da Globo e bla bla bla, nos anos 90 era a Imperatriz Leopoldinense e que a tv que transmite os desfiles de certa forma foi responsável por atribuir a escola o adjetivo de escola fria que desfilava para os jurados com seu desfile técnico, agora que a Imperatriz não esta na sua boa fase, esqueceram dela e apontaram a metralhadora para a grande escola de Samba Beija Flor que hoje só se lembram dos enredos patrocinados, mas esquecem de tentos outros que a escola ja nos apresentou deixando-nos maravilhados pelo belo espetáculo, se carnaval e hoje isso, espetáculo, devemos agradecer também a Beija Flor!

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    12/06/2015 20:13:02Beija SempreMembro SRZD desde 20/01/2013

    impolutasâ? do carnaval com seus dedos em ristes num dos mais abjetos comportamentos já vistos no qual a hipocrisia atingiu o seu ápice. No entanto, de todo esse vergonhoso episódio fica de positivo, ao menos, o exemplo para que se discuta, de maneira sóbria e imparcial até onde uma agremiação deve permitir-se chegar em busca de â??apoioâ? que lhe possibilite realizar um grandioso desfile. Se hoje em dia debate-se mais do que nunca a os limites éticos que um(a) candidato(a) deve imprimir em sua campanha, já que não mais é aceito que um projeto de eleição se valha de verbas de toda ordem para que possa concretizar-se e sobressair-se, o mesmo exemplo deve ser adotado pelas agremiações para que se inviabilize episódios tristes feito este que mancham a história do carnaval. Porém, que fique claro... a Beija Flor é só uma componente nessa imensa ciranda carnavalesca. Que atire a primeira pedra a agremiação que nunca cometeu esse pecado. O dinheiro da Guiné miserável e seu ditador sanguinário não é mais abjeto que o dinheiro que muitos políticos inescrupulosos de tantos estados brasileiros com índices de desenvolvimento humano rasteiros e grau de miserabilidade vexaminoso destinaram tantas vezes às diversas escolas (não consigo lembrar de alguma para que eu possa fazer exceção) para que as mesmas decantassem em prosa e verso, fantasias e alegorias suas mais nobres e belas paisagens, o que estas fizeram com indiscutível empenho. O fato é mais fácil separar a água do vinho que a hipocrisia da verdade no julgamento das ações humanas.

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    12/06/2015 20:11:41Beija SempreMembro SRZD desde 20/01/2013

    A meu ver esse equivocado e execrável episódio possui mais desdobramentos do que possa parecer. A coisa não é tão simplista como supõe-se. Ã? necessário observar - e salientar - que esse incidente foi, na verdade, um dos efeitos colaterais do comportamento de fingidas virtudes de um determinado (e resumido, graças a Deus) grupo. A Bem da verdade, estes representam uma grande parcela de hipócritas que no carnaval 2015, após a vitória da escola nilopolitana, resolveu posar de politicamente corretos, vestir-se de decentes, dizer-se coerentes, fazer-se éticos e tudo o mais que valha, por conta da origem do patrocínio que a escola recebeu. Não se trata de respaldar, de alguma forma, esse tipo de acerto financeiro. Em absoluto! Foi, sim, um acordo comercial digno de duras críticas e até â?? porque não? â?? de protestos! Agora, o que não se pode é execrar uma agremiação por jogar o jogo jogado há décadas. A turba se comportou â?? e ainda se comporta - como se a Beija Flor tenha sido a primeira agremiação a servir-se de dinheiro escuso na história do carnaval brasileiro. Essa tal â??indignaçãoâ? (que em qualquer tradução vira hipocrisia), convenhamos, foi ardilosamente e estrategicamente orquestrada por determinados setores do carnaval, alguns grupos da sociedade, bem como, da imprensa é que foi a responsável pela expiação pela qual passou a velha guarda da Beija Flor. Ã? curioso notar que quando o enredo da escola foi anunciado ninguém (nem imprensa, nem algum integrante do universo carnavalesco, nem qualquer torcedor de alguma escola, ou ainda algum(a) cidadão(ã)) se manifestou contra o mesmo. Porém, bastou começar-se a perceber que a Beija Flor vinha com força total, quando sua excelência (leia-se: um baita samba, um extraordinário ensaio técnico, uma bateria afinadíssima, um barracão primoroso) mais uma vez ficou evidente pra imediatamente emergirem das profundezas do planeta â??decênciaâ? as â??donzelas

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    12/06/2015 16:15:48Gabriel CelestinoMembro SRZD desde 12/06/2015

    Concordo com quase tudo Rachel, a administração da Liesa tem várias falhas, hoje em dia a Sapucaí não da o conforto e boa estrutura para o valor que é vendido cada ingresso para os desfiles do Grupo Especial, o contrato de TV precisa ser revisto, pois a Globo esta mandando e desmandando nas transmissões e faltando com respeito com os sambistas e admiradores dos desfiles das escolas de samba. Deveria ter no mínimo duas emissoras transmitindo os desfiles e o sábado das campeãs também. Foi uma falta de respeito com a Velha Guarda da Beija-Flor, como com a escola toda, vaiar não trazer soluções, tem que se cobrar de quem organiza o espetáculo e essas mesmas pessoas que vaiaram um dia pode estar do lado ao contrário, porque a sua escola pode ganhar um carnaval e a maioria das pessoas contestarem, enfim, não pode se generalizar os torcedores, eu sou mangueirense, componente da Mangueira e diretor de uma torcida organizada da escola, que ainda tem mais duas que todas passam longe de serem parecidas como as de futebol, como tem na Portela, Mocidade, Unidos da Tijuca, Estácio e entre outras. Acho que as pessoas deveriam conhecer mais o trabalho dessas torcidas organizadas, não há rivalidades, uma aplaude a outra e a escola da mesma, uma comparece no evento da outra. Elas também não representam todos os torcedores da escola, porém existem para dar apoio as escolas, deveria por exemplo abrir espaço para elas para mostrar o trabalho delas e ver que não é nada parecido com as torcidas organizadas do carnaval paulista. Finalizando, belo texto !

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    12/06/2015 15:15:01Amor verde e brancoMembro SRZD desde 19/08/2014

    Concordo com o Rogério, nem a velha guarda e nem um outro segmento de uma escola de samba pode ser penalizado por minorias das torcidas.Sou Mocidade Independente, e não gostaria que vaiasse a minha velha guarda da mesma maneira que não gostaria que fizesse em outra escola.O que não pode acontecer é a arquibancada virar zona de perigo , entre torcidas rivais.A beija flor é uma escola querida e acho linda a sua forma de manusear os seus carnavais.

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    12/06/2015 10:55:17RogérioMembro SRZD desde 26/05/2009

    porque a Velha Guarda não pode ser responsabilizada pelas razões de descontentamento da maior parte dos sambistas em relação ao resultado do carnaval passado. Aliás, nem a escola de samba Beija-Flor mereceria essa vaia, pois seus componentes, em geral, nada têm a ver com uma pretensa injustiça ou até com uma possível manipulação do resultado............................... Só quero corrigir que não é a maior parte dos torcedores e sim uma minoria que vem fazendo campanha contra a escola nas redes sociais, para eles tudo o que a Beija-flor faz é manipular resultados e está aí no youtube pra quem quiser ver o impecável desfile campeão da escola. O que acontece é que é só a Beija-flor pintar como favorita ao título na avenida logo se arruma outra pra ser a campeã do povo.

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