SRZD


28/06/2015 14h55

Carlinhos de Jesus: 'Em todo lugar que vou, quando há espetáculo criativo, há brasileiro no meio'
Rodrigo Trindade

O SRZD-Carnaval conversou com um craque em comissões de frente. Ele teve passagens marcantes pela Mangueira, mas também cuidou do segmento na Boi da Ilha, Beija-Flor, Em Cima da Hora e Império Serrano. Em 2014 e em 2015, retornou à verde e rosa, mas revelou que não sabe se pretende voltar a coreografar o quesito.

Hoje, aos 62 anos de idade, o dançarino e coreógrafo Carlinhos de Jesus, que segue com vários projetos profissionais, se autoanalisa: "Eu seria um juiz de paz conciliando os dois lados: o conservador e o contemporâneo, o clássico e o inovador". Confira o agradável bate-papo entre o artista e o SRZD-Carnaval:

Carlinhos e sua mulher, Raquel. Foto: Acervo SRZD

SRZD-Carnaval: A primeira pergunta que nos vem à cabeça é: Como foi o desafio de desfilar debaixo de chuva, junto com a Mangueira, no último Carnaval?

Carlinhos de Jesus: Nós tivemos a chuva por três horas ainda na concentração. A chuva foi em cima. Não há escola que resista três horas de chuva assim. É complicado. É claro que atrapalhou muito a evolução de nossa escola e da comissão de frente.

SRZD-Carnaval: Você deixou a Mangueira por decisão própria ou por decisão da direção da escola?

Carlinhos de Jesus: Foi por decisão do presidente. É um cargo de confiança estar à frente de uma comissão. Partiu dele e eu aceitei. Mas saí numa boa e continuo sendo Mangueira. Não sou diretoria nenhuma. Torço pela escola e isso não tem ligação política.

SRZD-Carnaval: Surgiu algum convite para nova escola?

Carlinhos de Jesus: Convites de escolas sempre surgem, do Grupo Especial e do Grupo de Acesso. Recebi três convites profissionais. Mas não quero fazer mais Carnaval. Estou meio cético com o Carnaval. Está muito confuso. Escola que não tem dinheiro luta com muita dificuldade para manter um bom padrão, um bom nível. As pessoas não estão preocupadas com a criatividade, mas sim, com luxo. Vou dar um tempo. Não é nenhuma crítica. Mas estou dizendo que precisamos saber qual o rumo a gente quer seguir.

SRZD-Carnaval: Quais aspectos, especificamente, você aponta como problemas a serem resolvidos?

Carlinhos de Jesus: Eu falo de uma forma geral, não só para as comissões de frente. O critério de julgamento é que tem que ser analisado. Por exemplo, um trabalho artesanal, um bloco de isopor com esculturas, ali você vê o trabalho artístico, o talento do artista. É um trabalho manual. Isso é diferente de uma alegoria que só vem com coreografias. São dois belíssimos trabalhos, com grandes efeitos, mas isso tem que ter um limite. Já vi alegoria na Avenida que era chassi com bancos, com efeito lindo, muito bonito o carro. Mas aquele carro disputava com uma outra alegoria, toda bem elaborada, toda com caricaturas, trabalhos feitos no isopor, com pinturas, tudo feito à mão. São trabalhos distintos. Deveria haver uma forma distinta de julgamento.

SRZD-Carnaval: Suas observações são a favor ou contra as inovações tecnológicas nos desfiles?

Carlinhos de Jesus: Na realidade, não estou criticando o trabalho de ninguém. Só acho que deve haver julgamentos diferentes para trabalhos diferentes. Trazer inovações é válido, mas temos que saber dar o valor certo a cada um desses trabalhos. É claro que inovações devem ser feitas e levadas em consideração, mas com cuidado.

SRZD-Carnaval: Como você avalia o quesito comissão de frente de hoje?

Carlinhos de Jesus: Está difícil fazer comissão de frente sem dinheiro. Já tive comissões de frente em que não ganhei dez, simplesmente porque não vieram luxuosas, apesar dos efeitos e da mensagem. Mas todas são lindas, belos espetáculos. Não critico as comissões em si. Fui um dos responsáveis pela tecnologia, pelo inusitado, pela inovação. Mas não é isso que eu critico. O que critico é a questão dos critérios dos julgamentos. As disputas devem ser mais justas e compatíveis. Temos que medir o uso dos recursos tecnológicos. Quem tem grana, se dá bem. Mas quem não tem, por mais criativo que seja, se prejudica. Deveria haver um julgamento mais técnico. Deveria ser observado os bastidores das comissões.

SRZD-Carnaval: Como você avalia a profissionalização das comissões de frente?

Carlinhos de Jesus: Acho que a demanda é por grandes espetáculos. Acho as modificações justas. Mas só sugiro uma coisa: só deveria ser mais criteriosa a forma de julgamento. Não exigir que uma escola que está subindo venha com um trabalho necessariamente à altura é uma dessas sugestões. E não uso só profissionais. Uso quem me inspira, quem tem disposição a fazer o que a comissão de frente está pedindo. Estou fechado com pessoas que têm comprometimento.

SRZD-Carnaval: Como a questão do patrocínio de enredos influencia diretamente nas comissões de frente?

Carlinhos de Jesus: Dependendo do patrocinador e da escola, sentimos, sim, um impacto muito grande. Senti isso na Mangueira esse ano: coloca isso, coloca aquilo. Em algumas escolas, por exemplo, o drone, só porque é sucesso no momento, ter que inserir, assim, tão de repente, pode não ser boa ideia. Temos que conciliar uma série de aspectos: custo, tecnologia, recursos materiais, recursos técnicos, pessoal, julgamento, cabeça de jurado e não pensar unicamente nos efeitos. Tudo isso ligado ao possível patrocínio. Mas defendo a ideia de que não devemos usar recurso tal só porque empresa tal vai nos patrocinar.

SRZD-Carnaval: As comissões estariam perdendo a essência e a espontaneidade?

Carlinhos de Jesus: Dependendo do ponto de vista. Fiz comissões antigamente que não tiveram tanta visibilidade que não tem hoje. Fiz uma comissão de frente na Em Cima da Hora com vários personagens, entre eles, Ziraldo, Jaguar e muitos outros, desfilando pelo segmento. Isso foi marcante. Naquela época, a comissão era para saudar o público. Mas hoje, se confunde coreografia com efeito. Existe um pensamento errado e se encaminha para essa imagem, de que coreografia é só o efeito. Antigamente, tinha essa poesia. Mas o que eu torço é que o Carnaval do Rio consiga conciliar a modernidade de hoje, a tecnologia com a poesia e a criatividade brasileira de nosso Carnaval, para que nós, coreógrafos e artistas, não nos percamos.

SRZD-Carnaval: Como você define seu trabalho como coreógrafo de comissões de frente?

Carlinhos de Jesus: Eu seria um juiz de paz conciliando os dois lados: o conservador e o contemporâneo, o clássico e o inovador. Acho que nosso Carnaval exige criatividade. Fiquei 13 dias em Las Vegas. Vi vários espetáculos lá. São bonitos no efeito, mas não têm tanta emoção quanto o que a gente vê aqui no Brasil. Temos o quesito emoção, que é o Carnaval. Em todo lugar que vou, quando há espetáculo criativo, há brasileiro no meio. Ainda sou a favor do canto da colombina e do pierrô.

SRZD-Carnaval: Qual ano, como coreógrafo de escola de samba, você considera o mais marcante de sua carreira?

Carlinhos de Jesus: Fui para três escolas e todas elas foram campeãs com minha chegada. Fui premiado, abençoado por fazer parte dessas vitórias. Foram emoções que eu vivi. Eu jamais pensava em sair da Mangueira e ir para outra escola. Mas passei pela Beija-Flor (2011) e ela foi campeã. Também estive na Vila Isabel (2013), e presenciei o trabalho de Marcelo Misailidis. Naquele ano, fiz a coreografia da bateria. Fiz um arraiá dentro da bateria. A Vila foi campeã e eu estava lá. Mas não existiu emoção maior do que o período entre os desfiles da Mangueira de Chico Buarque (1998, campeã) até o desfile dos bambas (O Século do Samba, 1999), quando eu trouxe vários personagens do samba. Esse período se destaca como o mais emocionante da minha vida. São lindos momentos, com grandes ícones. Fui muito elogiado ali. Me chamaram de gênio. Isso foi marcante demais.

Comissão de frente da Mangueira em 2014. Foto: Ary Delgado - Acervo SRZD

 

Comissão de frente da Mangueira em 2015. Foto: Igor Gonçalves - Acervo SRZD

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Comentários
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    28/06/2015 19:30:10Diogo BonfimMembro SRZD desde 19/08/2010

    Grande Carlinhos! Tomara que continua na Manga! Excelente trabalho que esse gênio faz!

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