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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

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16/07/2015 11h30

'Linda melodia, linda poesia, não tem defeito algum, mas samba-enredo só ganha um'
Dicá

"Linda melodia, linda poesia, não tem defeito algum, mas samba-enredo só ganha um"

A frase acima de certa forma define a final de uma eliminatória de sambas de enredo, que através das paixões, se agiganta durante as disputas dentro de uma escola de samba.

No início dos desfiles de Carnaval, as escolas desfilavam cantando estrofes de diversos sambas de sucesso, famosos no rádio e na boca do povo, pois não havia um tema, uma história a ser contada. O importante era mostrar um samba alegre e de fácil assimilação para conduzir os sambistas durante a apresentação.

Cavaquinho. Foto: Reprodução

Mas com o passar do tempo as escolas foram se modificando, crescendo e arrebatando mais gente para seus desfiles. Com a legalização das agremiações pelo governo foi introduzido o "Tema Pátrio", e a partir daí o Brasil ganhava uma nova escola, trazendo uma pedagogia diferente, a "Pedagoginga". Uma maneira de aprender ensinada pelo povo através do samba mostrado no pé, no batuque, na encenação e no canto que discorria sobre a história do Brasil.

Samba esse encenado de forma mambembe através de atos representados pelo povo, pois com suas alas, fantasias e alegorias, as escolas de samba cresceram e proporcionaram uma valiosa "aula em desfile" em forma lúdica, alegre e contagiante.

Durante muito tempo os sambas de enredo com tema pátrio vigoraram, mas com o tempo foram se modificando e passaram a passear não somente pelos fatos históricos da história do Brasil, mas também de tudo que pudesse render uma boa história e patrocínio.

A nobreza eram os "poetas" que compunham as alas de compositores. Cada escola tinha a sua, e muitos se tornaram famosos e admirados em todos Brasil, pois eram capazes de criar para suas agremiações verdadeiras preciosidades e aulas inesquecíveis, sem ter que passar pela indução a que são hoje submetidos.

Por um bom tempo os poetas somente vestiam as cores de sua escola de samba, mostrando orgulho e impressionante fidelidade. É bom lembrar que esse amor não se limitava somente aos sambas de enredo, mesmo porque, durante o ano havia o período fora dos ensaios e desfile oficial, período esse que os poetas compunham os saudosos "samba de quadra", alimentando a fogueira das paixões que os sambistas tinham por sua agremiação e seus amores.

Muitos desses sambas extravasavam o universo da escola de samba alcançando sucesso e sendo cantandos em todo Brasil.

Com o passar do tempo as coisas foram se modificando, as escolas cresceram e os poetas que no início compunham seus samba por amor, começavam a ganhar algum dinheiro, e com isso, passaram a se profissionalizar transitando por outras agremiações. Acabava-se assim aquela fidelidade romântica do passado que nos dias de hoje raramente vemos.

Eliminatórias de samba-enredo. Foto: Reprodução

Com o avanço da tecnologia a metodologia da escolha do samba de enredo vem mudando a passos largos e em muitas escolas já é possível compor, gravar e participar das eliminatórias de sambas de enredo sem sair de casa, bastando enviar pela internet o áudio do samba e aguardar a escolha.

De certa forma essa nova tendência para o compositor é benéfica, embora tire-o do calor das disputas, permite que seu único desembolso seja fazer chegar sua composição a escola, limitando-o apenas a sua criação.

O custo nas quadras para apresentar um samba durante as eliminatórias foi ficando muito caro e por vezes impossível para os compositores de fato sustentar.

Isso falseou um pouco as disputas. Nos dias de hoje é comum ver gente que nunca escreveu um verso sequer em sua vida com seu nome na "pedra", apenas por ter ajudado a pagar a conta durante as disputas na quadra e pela obtenção de uma glória falsa, forçando os verdadeiros compositores a se afastar das disputas, aposentando suas canetas e empobrecendo as poesias de fato nas escolas de samba.

Nas eliminatórias em quadra, as "festas" muitas vezes sugestionam e fazem no calor da disputa os jurados escolherem sambas equivocados que acabam custando caro para a escola, deixando-as distante dos bons desfiles e até do título.

O que podia sanar esse "custo/samba-enredo", seria ter o time de canto das escolas assumindo a fase final das disputas tornando-as mais justas e por conseqüência mostrando o que ficaria melhor para a escola na voz de seus cantores oficiais.

Outra negatividade é esse esquecimento precoce nos dias de hoje dos sambas-enredos devido a divulgação radiofônica, que diminuiu muito, pois o rádio que é o principal veiculo de divulgação musical desse gênero, já não o faz com freqüência, fato que poderia ajudar muito o entendimento da história.

Assim os sambas de enredo estão morrendo na quarta-feira de cinzas o que é muito triste...

Vamos aguardar e esperar que essa nova forma de escolha dos sambas de enredo que se avizinha, que ela consiga tornar os poetas verdadeiros e longevos trazendo um pouco da difusão e do romantismo dos tempos idos...

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Comentários
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    16/07/2015 21:40:16Cássio de OliveiraAnônimo

    Mais uma análise correta, coerente e que valoriza o que interessa no mundo do nosso Carnaval, meu parceiro Dicá. Como compositor, vejo que você exprimiu bem os problemas que rondam a nossa arte e sua representação nas escolas: o afastamento dos "canetas" de verdade e a formação das "firmas" de samba, que somente prejudicam o cenário de disputas e sacam o mais genuíno sentimento que ronda a mente de um compositor: a inspiração. O bom é que em geral a regra se aplica: quanto mais dinheiro, fama e "nome" de compositor, menos samba no pé, na mente e nas mãos ao segurar uma caneta... Por isso que eu prefiro ser mais sambista de um samba só na avenida do que sambeiro de vinte sambas por ano... Um grande abraço a você, a dona Maria Helena, e longa vida ao seu trabalho no samba! Cássio de Oliveira Diretor de Harmonia/Compositor GRES Quilombo

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    16/07/2015 21:39:38Cássio de OliveiraAnônimo

    Mais uma análise correta, coerente e que valoriza o que interessa no mundo do nosso Carnaval, meu parceiro Dicá. Como compositor, vejo que você exprimiu bem os problemas que rondam a nossa arte e sua representação nas escolas: o afastamento dos "canetas" de verdade e a formação das "firmas" de samba, que somente prejudicam o cenário de disputas e sacam o mais genuíno sentimento que ronda a mente de um compositor: a inspiração. O bom é que em geral a regra se aplica: quanto mais dinheiro, fama e "nome" de compositor, menos samba no pé, na mente e nas mãos ao segurar uma caneta... Por isso que eu prefiro ser mais sambista de um samba só na avenida do que sambeiro de vinte sambas por ano... Um grande abraço a você, a dona Maria Helena, e longa vida ao seu trabalho no samba! Cássio de Oliveira Diretor de Harmonia/Compositor GRES Quilombo

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