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Maria Apparecida

Maria Apparecida

CARNAVAL. Historiadora, escritora e decoradora, é considerada uma das mais respeitadas autoridades do Carnaval de São Paulo. Há 35 anos começou a se interessar pelo samba, em que desenvolveu vários projetos. Entrou para a história ao se tornar a primeira carnavalesca da folia paulistana.

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23/07/2015 11h35

E o samba? Durante o ano está aonde?
Maria Apparecida Urbano

Pensamos em São Paulo como a capital e a terra das oportunidades. Tudo o que aqui se faz progride, como é o caso das grandes empresas de renome com filiais por todo o mundo, as quais sempre se empenham em ter uma sede também no Brasil, diretamente em São Paulo.

Em todos os setores que olhamos o seu crescimento é valorizado e realizado em nossa capital. São Paulo é na realidade a terra prometida, onde todos, aproveitando as oportunidades, se desenvolvem. Todos os povos que vêm para cá crescem, claro, com muito trabalho, esforço e boa vontade. E o que ajudam muito são a mídia, a divulgação dos produtos e a valorização da mão de obra. Assim São Paulo cresce cada vez mais.

O Carnaval paulistano também cresceu, deu oportunidades aos mais diversos setores para se desenvolverem e se tornarem grandes indústrias. Acompanhando esse crescimento, ganhamos também um espaço no Anhembi, o sambódromo, que a principio seria destinado somente aos sambistas. As coisas, porém, mudaram; hoje é um local destinado a grandes eventos, culturais, esportivos, feiras, convenções e tantos outros.

Por que o Sambódromo? Na realidade os antigos se lembram: ali era simplesmente um grande terreno abandonado, vazio, para o qual os sambistas insistiam que fossem os desfiles carnavalescos que eram realizados na Avenida Tiradentes. Pediam apenas um asfalto para poderem desfilar. Politicamente os olhos cresceram, sentindo que esse palco poderia ser palco de grandes eventos. E assim foi feito. As escolas de samba obtiveram então o seu lugar próprio e também foram crescendo; hoje muitas são verdadeiras indústrias do samba.

Avenida Tiradentes. Foto: Reprodução

O samba paulista, nascido dos redutos negros espalhados em diversos bairros da capital, sem apoio, reprimido pela polícia, muito sofreu para conseguir ter o seu espaço. Mas será que conseguimos crescer o suficiente para poder tirar vantagens o ano todo? Uma indústria, para valorizar o seu produto, batalha o ano todo, recorrendo a propagandas, promoções, programas na TV; procura, com o seu nome, estar presente em todos os eventos, quer nacionais quer internacionais, nas revistas e nos jornais.

E o samba? Durante o ano está presente onde? As Escolas têm conseguido um bom público que lota as quadras nas semanas que antecedem o Carnaval, chamando a atenção de algumas emissoras de TV e jornais. Durante o ano, porém, não se fala em escolas de samba. O que está faltando? Já que as escolas se tornaram indústrias, teriam que valorizar e vender os seus produtos o ano todo.

Na última vez que fizemos nossos comentários tínhamos sugerido que se fizesse uma grande exposição dos carros alegóricos na passarela do samba logo após o carnaval. Recebi inúmeros e-mails e telefonemas nos felicitando pela ideia. Há uma grande curiosidade do público em ver de perto esses trabalhos grandiosos que são realizados durante o ano, e que passam tão rapidamente no desfile. São obras de arte popular que devem ser valorizadas e mostradas a todos os interessados, tanto em arte popular como os admiradores do Carnaval.

Uma exposição desse porte, dá trabalho? Dá e muito. E as compensações? É só pensar nos prós e contras. Afinal, a passarela do samba foi construída para os sambistas, e eles devem aproveitar essa oportunidade, antes que lhes tirem esse espaço. Pode-se pensar também em termos de lucro: de um lado a venda de ingressos para a exposição, como renda para as escolas, de outro o uso do estacionamento que seria renda para o Anhembi. Quando se veem filas enormes diante de uma exposição de artistas consagrados, sempre estrangeiros, ficamos admirados pelo interesse do paulistano em apreciar essas obras de arte. Pensando nesse interesse, por que não mostrarmos as obras de arte popular brasileira dos artistas que enfeitam tanto o nosso Carnaval?

Isso seria puro imaginário ou estaria na hora de se pisar mais na realidade brasileira, mostrando também o valor dos nossos artistas?

Se as escolas foram transformadas em indústrias carnavalescas, devemos então trabalhar o ano todo dentro dessa filosofia. E que tal uma exposição de fantasias em lugares frequentados pelos paulistanos? Nosso material é uma obra prima, que deve ser exibida e valorizada, e por que não comercializada? Existem na capital muitos museus, casas de espetáculos, centros culturais que podem ajudar em exposições e até mesmo com espetáculos preparados pelas escolas de samba. São trabalhos de dedicação, porém as escolas de samba têm um grande contingente de pessoas, e esses eventos ajudam a valorizar e a unir os participantes.

Apesar de as escolas de samba terem sido muito pequenas outrora, elas organizavam eventos que cativavam os paulistas, como foi o caso da escolha da "Bonequinha do Café", então muito bem divulgado. A chamada para esse evento saía em todos os jornais e revistas da época e todas as emissoras de rádio noticiavam. Está aí um bom exemplo. Não é saudosismo, mas sim fruto de um trabalho bem feito, que deveria ter sua continuidade. Outro evento que chamou muito a atenção na época foi o "Samba de Quadra'. Geralmente esses sambas eram de exaltação às grandes figuras da história do Brasil, ou aos grandes sambistas.

Os sambas eram disputadíssimos no bairro e todos os moradores se envolviam. A "Rua do samba" que reunia uma multidão era outro evento que deveria ser relembrado com uma rua em cada bairro. Isso é um trabalho de formiguinha, para se conseguir chegar até as grandes empresas como patrocinadoras e chamar a atenção da televisão para programas de samba o ano todo, mostrando que o samba existe, persiste.

Estamos em fase dos finais de samba-enredo, grandes festas nas quadras, um movimento muito grande. Lindo, não é? Mas os paulistanos em geral, aqueles que gostam de ver os desfiles na avenida, mas não frequentam as escolas, estão sabendo desses movimentos? Nos jornais não existem manchetes divulgando esses grandiosos eventos; a TV e as rádios nem estão sabendo. A divulgação é feita entre os sambistas e pelo facebook, e alguns canais da internet. É uma pena perder essa grande oportunidade de divulgação da nossa matéria prima. Bem sabemos que a divulgação é a alma do negócio, portanto é pensar...arregaçar as mangas e enfrentar esse trabalho; a mídia nos espera, e vamos chegar até ela, pois precisamos e muito.

Quadra da Mocidade Alegre: Foto: SRZD - Claudio L. Costa

Lembramos que novos eventos estão a caminho, os quais bem divulgados, serão de grande sucesso. Um deles é a apresentação dos pilotos. Que material nobre temos em mãos para mostrar a toda população da nossa capital. As escolas montam um verdadeiro espetáculo nas suas apresentações, mas para um público tão restrito. Por que não divulgar essas apresentações, uma vez que as fantasias vão ser vendidas, precisam de um número muito grande de pessoas, de uma propaganda maior e de oportunidade de maior venda, sem contar que será um chamariz para o próximo Carnaval?

Pretendemos quem sabe nos próximos meses realizar uma exposição, levando ao conhecimento do público os desenhos dos carros alegóricos e figurinos de carnavalescos, verdadeiros artistas populares, trabalhos estes simplesmente desconhecidos pelos paulistanos. Será uma forma de valorizar o que é feito pelo samba de São Paulo, por esses artistas populares que muitas vezes nem tem seus nomes nas manchetes de jornais e televisão, mas que o público realmente deve conhecer.

É mais uma batalha que enfrentamos. Isso acontecendo, quem em primeiro lugar vai ganhar serão os paulistanos, que terão a oportunidade de ver de perto esses riquíssimos trabalhos, e, em segundo lugar, o Carnaval de São Paulo, lembrando que essa exposição poderá até percorrer e ser vista pelo mundo inteiro.

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Comentários
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    24/07/2015 00:53:37Rodinei BaroneAnônimo

    Olá. Quero deixar minha opinião sobre este assunto, e provocar uma discussão maior sobre o tema. Como o próprio texto diz, "o samba teve início em São Paulo nos redutos negros nos bairros mais periféricos da capital". Pois então, a Liga deveria repensar a forma com que comercializa os ingressos em todos os desfiles, Especial, Acesso e Campeãs. A Liga precisa urgentemente trazer de volta o povão das quadras para a avenida, fazer ficar entupida, as arquibancadas ficam lotadas quando é o dia da Gaviões no Especial, e no sábado de carnaval, se essas duas ocasiões se coincidirem, a sexta feira fica deserta no Anhembi. A questão da transmissão dos desfiles das campeãs tem que ser voltado à tona. Rede Globo está prejudicando demais as Escolas de Samba em não mostrar na Tv Aberta, e não deixar ninguém transmitir.

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    23/07/2015 17:14:25Valéria BandidaMembro SRZD desde 22/02/2016

    Está aguardando um novo Fevereiro chegar lá na PQP. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk . Ai, como eu tô bandida! Huuuuu! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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