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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

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18/08/2015 11h30

O adeus de uma Matriarca
Dicá

São Paulo da terra da garoa, dos emboabas e do samba duro que cresceu nos terreiros de café deu adeus a uma de suas grandes sambistas, Dona Olimpia!

Aquela dama imortalizada num samba de Geraldo Filme. Partia assim no último sábado, dia 15 de agosto, a matriarca que contribuiu por quase um século de vida na construção da história do povo negro e sua resistência cultural e histórica dentro do Estado de São Paulo. Perdemos, ou melhor, ganhamos um grande presente do criador que foi conviver com tamanha grandeza em nosso tempo através de seus ensinamentos e caminhos apontados.

Dona Olimpia. Foto: Reprodução

Dona Olimpia nos deixou um registro precioso com sua participação construtiva e passagem nessa vida da história do negro remanescente das lavouras de café até a chegada ao grande centro urbano paulista. Foi fundamental desde os encontros nos lendários barracões de Pirapora de Bom Jesus onde passa a história do povo negro.

A principio proibido de ir as missas nas igrejas católicas os negros esperavam seus senhores nos barrracões onde praticavam seu batuque e louvores a seus Orixás. Acompanhou ainda a migração das familias negras em sua vinda a metrópole paulista que se formava no escoamento da produção agricola vinda do interior para a capital.

Foi imortalizada não somente por sua contribuição na fundação do histórico cordão Vai -Vai, mas também nos ensinamentos aos sambistas desse quilombo negro de resistência cultural que se tornou hoje a escola de samba, mas também, de todos aqueles que se sentaram à sua farta mesa de ensinamentos onde puderam alimentar seu espírito ávido de saber.

As grandes escolas sejam elas de qualquer saber que ensinam, são avaliadas por seus mestres e sua capacidade de ensinamento e melhoria do crescimento humano nas relações que o cercam. No samba como cultura não é diferente e Dona Olimpia foi uma dessas professoras que formou inúmeras crianças, jovens e adultos a se tornarem seres humanos melhores, honrando seus pais, respeitando aqueles que lhe são contrários em opiniões e sobretudo contribuindo ainda com a formação de "sambistas cidadãos" como faz hoje a nobre "Tia Creusi" com suas crianças...

Dessa vez tenho certeza, não perdemos uma biblioteca...Não, dessa vez não, seus livros foram espalhados por inúmeros "vaivaienses" e sambistas que puderam iluminar-se diante da grandeza de sua grande mãe!

Saravá Dona Olimpia! Que Oxalá a receba com um grande rufo de bateria!

Letra da canção, "Batuque de Pirapora", de Geraldo Filme

"Eu era menino
Mamãe disse: vamos embora
Você vai ser batizado
No samba de Pirapora
Mamãe fez uma promessa
Para me vestir de anjo
Me vestiu de azul-celeste
Na cabeça um arranjo
Ouviu-se a voz do festeiro
No meio da multidão
Menino preto não sai
Aqui nessa procissão
Mamãe, mulher decidida
Ao santo pediu pediu perdão
Jogou minha asa fora
Me levou pro barracão
Lá no barraco
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia
Iniciado o neguinho
Num batuque de terreiro
Samba de Piracicaba
Tietê e campineiro
Os bambas da Paulicéia
Não consigo esquecer
Fredericão na zabumba
Fazia a terra tremer
Cresci na roda de bamba
No meio da alegria
Eunice puxava o ponto
Dona Olímpia respondia
Sinhá caía na roda
Gastando a sua sandália
E a poeira levantava
Com o vento das sete saias
Lá no terreiro
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia
Lá no terreiro
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia"

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