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Joan Amato

Joan Amato

SAÚDE ESPORTIVA. Formada em 2002 pela UERJ, iniciou a carreira como médica intensivista. Para tratar as pessoas fora do hospital, fez pós-graduação em medicina do esporte e tornou-se especialista em Nutrologia. É membro da International Society Of Sports Nutrition. Por adorar escrever, fundou o site Nutroesporte.com.

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19/08/2015 10h29

Por que as mulheres enfrentam tanta dificuldade para engravidar nas últimas décadas?
Joan Emmanuelle Amato

A cada dia que passa, escuto falar mais sobre alguma mulher ou homem que está fazendo tratamento para infertilidade, pois querem ter filhos, mas não conseguem e por que parece que escutamos essa história repetidamente? O que aconteceu entre a geração dos nossos pais e a nossa que tornou mais comum ter dificuldade do que facilidade para engravidar?

A infertilidade tem várias causas, entre elas genéticas e anatômicas, que podem ser de difícil resolução ou até mesmo sem solução. Mas são causas mais raras. Basicamente, o que mudou entre nós e nossos pais foi o estilo de vida. Hoje, somos mais estressados e mais sedentários, lidamos com alterações genéticas na comida, somos expostos a vários disruptores hormonais que alteram nossos hormônios e até a qualidade da comida que consumimos tem papel definidor na fertilidade de cada pessoa. E atentem: estamos falando tanto de homens quanto de mulheres.

Você é o que você come. Seus óvulos ou espermatozóides também. Essas são as células feminina e masculina, respectivamente, responsáveis pela concepção de um novo bebê. O tipo de comida pode afetar os passos desde a produção, regulação hormonal até a viabilidade dessas células para formar um embrião. Para ambos os sexos, o excesso de açúcar é um grande vilão, pois isso gera resistência à insulina, podendo resultar em pré-diabetes ou diabetes estabelecida. Mulheres com resistência à insulina têm mais dificuldade de engravidar por não conseguir ovular e os homens podem ter redução de até 30% na contagem de esperma.

Foto: Reprodução de Internet

Um estudo da Universidade de Harvard mostrou que mulheres que consomem leite desnatado ou derivados do leite desnatado aumentam a chance de infertilidade anovulatória em até 85%, ou seja, consumir os laticínios desnatados aumenta o risco dela não produzir óvulos. O contrário acontece com mulheres que usam laticínios integrais, pois a gordura saturada e o colesterol dos alimentos integrais ajuda na produção de hormônios sexuais, enquanto uma dieta baixa em gordura faria justamente o contrário.

No sexo masculino, um estudo holandês, da Universidade Erasmus de Rotterdam, mostrou que homens que consomem a dieta holandesa típica (a base de carne, batata e molhos gordurosos) apresentaram quase que o dobro da contagem de esperma dos homens que consumiram uma dieta à base de peixe. Por incrível que pareça, os pesquisadores relacionaram o benefício da dieta holandesa não à carne à às batatas, mas sim à grande quantidade de gordura saudável, com ômega 3 presente nos molhos e maionese caseira. Mulheres que comemorais ômega 3 têm menos chance de ter endometriose, uma causa comum de infertilidade feminina.

Isso não quer dizer que pode-se consumir gordura de forma despreocupada, pois o excesso de gordura trans afeta a produção dos espermatozóides. Então, homens que comem muita "besteira", junkfood, como frituras, doces tendem a ter uma contagem menor de espermatozóides. Além disso, cortar esses hábitos não significa ter uma resolução imediata, pois ainda não sabemos quanto tempo o corpo leva para depurar a gordura trans, o que significa que os hábitos da juventude podem durar uma vida inteira na questão da fertilidade.

Os hormônios sexuais também podem ser afetados pela comida ou por disruptores endócrinos, substâncias que agem como um hormônio. Elas podem estar nos agrotóxicos, pesticidas (como a atrazina, usada em plantações de milho) ou até nas embalagens e garrafas de plástico, na forma de bisfenol-A. A soja também tem uma substância que age como disruptores endócrino: a isoflavona, que age como um estrogênio leve. Para as mulheres na menopausa, representa uma ajuda. Para homens, isso pode diminuir relativamente a testosterona, causando baixa contagem de esperma. A atrazina e o bisfenol-A têm o mesmo efeito. Uma substância chamada PFOA (sigla em inglês para ácido perfluorooctanóico), presentão em embalagens de doces e fastfood, caixas de pizza e pacote de pipoca de microondas também está relacionada com aumento de até 70% no risco de infertilidade das mulheres expostas, além de aumentar o risco de câncer de mama e de próstata.

Alimentar-se de forma mais saudável, com vegetais e legumes é uma opção para diminuir o risco de infertilidade. O consumo de antioxidantes naturais está relacionado à melhora da motilidade dos espermatozóides nos homens e à diminuição em até 50% da infertilidade nas mulheres. O consumo de ferro presente na lentilha, feijão e espinafre também está relacionado à melhora da fertilidade feminina e basta comer proteína vegetal correspondendo a 5% das calorias diárias. Mas se você mulher tem esperança de ter filhos gêmeos, se tornar vegetariana ou vegana não é a melhor opção, pois o baixo consumo de IGF (hormônio presente nas carnes ou leite de animais suplementados) pelos vegetarianos e veganos reduz as chances em até um quinto de uma gravidez gemelar.

Por último, mas não menos importante está o exercício: não espere ficar grávida para se matricular na hidroginástica. O sedentarismo já está estabelecido como fator de risco independente para doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, pressão alta e câncer. Logo, se exercitar de forma regular, com componentes de força, aeróbico e flexibilidade, é um tiro de canhão que combate várias coisas ao mesmo tempo, melhorando a pressão arterial, auxiliando a função hormonal, melhorando o estresse e a qualidade do sono. "Exercício é remédio". Porque além de tratar, também previne. Combinando exercício, alimentação saudável e diminuição de exposição aos disruptores, a chance de melhora da fertilidade existe. Sempre com acompanhamento médico!

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