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Joan Amato

Joan Amato

SAÚDE ESPORTIVA. Formada em 2002 pela UERJ, iniciou a carreira como médica intensivista. Para tratar as pessoas fora do hospital, fez pós-graduação em medicina do esporte e tornou-se especialista em Nutrologia. É membro da International Society Of Sports Nutrition. Por adorar escrever, fundou o site Nutroesporte.com.

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03/09/2015 11h26

Whey protein e leucina podem causar diabetes?
Joan Emmanuelle Amato

Na última terça-feira, saiu um breve artigo na revista "Veja", com o chamativo título "Whey protein pode causar diabetes". Se você acompanha o nosso blog, já sabe que basta uma fagulha para causar o incêndio, ainda mais quando se trata de suplementos devido ao grande preconceito que os cercam. Pra mim, o preconceito existe por falta de informação ou pela interpretação errada de dados, muitas vezes, fracos ou com grande viés, deixando muito espaço para interpretações e fazendo com que cientistas ou profissionais da área de saúde enxerguem o que queiram ver. Então, vamos tentar trazer um pouco de luz às trevas.

O artigo da revista traz um pesquisador americano afirmando que o consumo de Whey protein pode causar diabetes. Vamos aos fatos. Em maio desse ano, a respeitada revista Diabetes publicou um artigo de Gordon L. Smith sobre os efeitos do Whey protein e da leucina na regulação da glicose no sangue. Foi um estudo experimental, usando 0,6g de Whey ou de leucina para cada quilo de massa magra de cada participante. O grupo de participantes era composto por 22 mulheres sedentárias, já na menopausa, com idades entre 50 e 65 anos. Primeiro, o consumo de Whey protein foi comparado com o consumo de água para avaliar a resistência à insulina e regulação da glicemia. Num intervalo de 1 a 4 semanas, esse mesmo grupo foi submetido a um novo teste, agora, comparando o uso de leucina diluída em refrigerante com o consumo do refrigerante sem leucina.

Foto: Reprodução de Internet

Para ambos os testes (Whey e leucina), foi usado o exame do clamp hiperinsulinêmico-euglicêmico. De uma forma resumida, a pessoa recebe insulina venosa (100mU/ml) e glicose no sangue ao mesmo tempo. Se durante a infusão de insulina, a pessoa mantiver glicose normal no sangue, significa que a insulina funciona adequadamente e a célula capta a glicose de forma satisfatória. Se nessa mesma dose de insulina houvesse uma maior quantidade de glicose no sangue, o exame mostraria que existe resistência à insulina, ou seja, as células precisariam de uma maior quantidade de insulina para colocar a glicose para dentro.

O que eles procuravam? Provar que a ingestão de proteína altera a utilização da glicose, pois ativa o mTOR (molécula que sinaliza a favor da síntese muscular) através do uso de leucina.

Qual foi o resultado? Os pesquisadores acharam que o uso de Whey protein aumenta a resistência à insulina de forma aguda, como foi demonstrado no exame do clamp. A leucina não demonstra alterações no controle da glicose, logo a via do mTOR não teria implicação nesse controle.

O que isso quer dizer? Que o Whey protein tem uma resposta de aumento da glicemia após seu consumo, enquanto a leucina não.

Como interpretar esses dados? Primeiro, uma resposta aguda não pode ser considerada uma alteração crônica: falar que o Whey, por aumentar a glicemia após ser consumido, vai causar diabetes a longo prazo ainda é precoce. Seria necessário um estudo mostrando o efeito do Whey em quem o consumiu ao longo de anos para estabelecer essa relação, sem interferência de outra coisa que pudesse causar diabetes. Segundo, o fato da leucina sozinha não ter mostrado resistência à insulina não quer dizer que a leucina é boa e o Whey ruim. Significa que a leucina é um aminoácido sem efeito de formação de glicose, ao contrário do Whey que tem outros aminoácidos na sua composição, que podem estimular o fígado a produzir glicose (a chamada gliconeogênese). Se essa produção a mais de glicose não for computada, existe um grande viés contra o Whey. Terceiro, o estudo usou um grupo sedentário de mulheres na menopausa, o que pode falar a favor de resistência à insulina pelo estado hormonal delas e pelo próprio sedentarismo. Quarto, o uso de um método que pode ser considerado padrão-outro na pesquisa (clamp), mas não necessariamente vai refletir a realidade.

Ao contrário desse estudo, no Nutrition Journal de 2009, Petersen mostrou que o uso de 20g de Whey protein junto com 50g de glicose diminuía as glicemias após as refeições. E notem: o estudo testou várias quantidades de Whey protein (5g, 10g e 20g) e a quantidade mais alta é que mostrou maior benefício no controle da glicose. Nesse trabalho, o grupo foi formado por homens e mulheres, na faixa dos 45 anos e com IMC médio de 33kg/m2 (ou seja, obesidade grau I). Apesar da obesidade estar muito associada a pré-diabetes ou diabetes, ainda assim, o Whey atingiu um bom controle glicêmico.
O uso crônico de Whey protein mostrou justamente o contrário: que indivíduos obesos (IMC médio de 31,8), com idade média de 48 anos, tanto homens quanto mulheres, se beneficiaram do uso por 12 semanas. Quando comparados a quem não usou whey, eles não tiveram alteração da composição corporal (não engordaram), seus níveis de triglicerídeos e do colesterol LDL (o ruim) diminuíram e houve melhora dos níveis de glicose em jejum. Não fui eu quem disse isso, foi o grupo do cientista australiano Pal, cujo estudo foi publicado na também renomada revista British Journal Of Nutrition em 2010.

Ainda assim, você pode discordar do meu ponto de vista. Ok, sem problemas. Mas você há de admitir que, pelo menos, eu usei mais referências científicas e existem argumentos a serem debatidos antes de lançar ao vento que um suplemento faz mal.

Muito cedo para falar. Muito fácil para especular.

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