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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

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08/09/2015 15h32

As redes de Tia Ciata na Pequena África
Carlos Nobre

Citadíssima em obras de sociologia e antropologia sobre a cultura negra no Rio de Janeiro - e homenageada em diversos enredos das escolas de samba de todos os grupos - Hilária Batista de Almeida (Salvador, 1854 - Rio de Janeiro, 1924), a famosa Tia Ciata, pelos relatos destas obras, com certeza, deve merecer sua posição de grande dama negra da história afrocarioca.

Tia Ciata. Foto: ReproduçãoEla - negra baiana que migrou para o Rio de Janeiro por volta de 1870 e que, aqui, inicialmente morou no bairro da Saúde, e depois, na Praça Onze, locais primordiais de desenvolvimento da cultura afro da época - se tornou um símbolo de diversidade negra e também líder reverenciada da comunidade afrobaiana do Rio de Janeiro Belle Époque.

Em 1876, então com 22 anos, migra para o Rio de Janeiro, indo morar, inicialmente, na Rua General Câmara. Tempos depois, se muda para a Rua da Alfândega, 304, onde se instala numa casa ao lado onde morava o famoso Miguel Pequeno, marido de dona Amélia do Kitundi. Miguel era outro líder da colônia baiana entre o final do século XIX e início do XX.

Em algumas obras, Tia Ciata, como era apelidada pelos amigos da Pedra do Sal, aparece como Hilária Batista de Almeida. No atestado de óbito, no entanto, está como Hilária Pereira de Almeida; e numa petição para ser admitida como sócia do Clube Municipal encaminhada por seu filho João Paulo este escreve o nome da mãe como Hilária Pereira Ernesto da Silva.

Alguns estudos, erroneamente, apenas citam-na, porque, numa noite de setembro de 1916, numa roda de samba, em sua casa, na antiga Rua Visconde de Itaúnas - hoje Santana - se encontravam diversos batuqueiros como Pixinguinha, Sinhô, China, Assumano e outros.

Naquela data, nascera de improviso numa roda de samba em seu terreiro o samba "Pelo Telefone", que Donga e o jornalista Mauro de Almeida registraram como deles na seção de direitos autorais da Biblioteca Nacional. O samba se tornou um divisor de águas na cultura do samba na cidade e ampliou a fama de seus possíveis autores.

Assim, a casa de Tia Ciata acabou entrando para a história da Música Popular Brasileira e das da cultura afrocarioca por ser o local onde teria surgido o primeiro samba registrado como tal.

Neste endereço, Tia Ciata se consagrou pelas suas festas memoráveis que acabaram entrando para a crônica da cidade, mesmo depois de sua morte, em 1924. Seus filhos, netos e bisnetos reverenciam e divulgam a memória da mãe, avô e bisavó através da cultura oral.

Tia Ciata e a Pequena África. Foto: ReproduçãoA importância maior de Tia Ciata era porque era uma mulher-rede, ou seja, uma mulher cheia de contatos, e que sabia movimentar estes contatos em seu favor ou a serviço da comunidade negra da época como demonstra diversas passagens do livro clássico "Tia Ciata e a pequena África", de Roberto Moura (Prefeitura do Rio de Janeiro, 1995).

Neste sentido, sua inteligência e capacidade de entender sensivelmente o tempo onde estava vivendo lhe proporcionou por conseguinte saber manipular o que chamamos de "redes africanas", ou seja, grupos ou pessoas que detêm conhecimento, e que os movimentava em benefício próprio e do próprio grupo onde está inserido, se aliando assim a outros grupos mais poderosos não necessariamente negros.

Vejamos, neste sentido, a primeira rede de Tia Cita. Seu marido, João Batista da Silva, que cursou três anos de medicina, em Salvador, trabalhava no gabinete do chefe de Polícia do presidente Venceslau Braz. Este tinha uma ferida numa perna. João ofereceu os préstimos da mulher Ciata para curá-lo. O presidente foi na casa deles. Tia Ciata, filha de santo do então famoso João Alabá, com seus conhecimentos de medicina africana cura a perna do presidente da República.

Sentindo a importância deste fato, Tia Ciata parece que aprofundou a relação com o presidente da República. Neste sentido, suas rodas de samba passaram a ser protegidas por policiais cedidos pelo governo e prestigiadas pela presença da elite. Na época, as manifestações culturais populares de todos os tipos eram violentamente reprimidas. João da Baiana, por exemplo, teve um valioso pandeiro apreendido pela polícia. Várias rodas de batuqueiros eram desmontadas e seus frequentadores, via de regra, eram encarcerados. Os grupos artísticos eram obrigados a pedir autorização governamental para se manifestar.

No entanto, nas festas de Tia Ciata, a polícia só chegava lá para proteger ela, a família e seus convidados. Ela sabia como tirar vantagens de suas amizades poderosas. Tinha essa "rede" política.
Quando, por exemplo, ia para a rua vender suas obras culinárias (doces e comidas variadas) seu ponto, na Rua da Alfândega, se transformava num local frequentado por diversos grupos (jornalistas, artistas, negros anônimos). Era um local onde circulavam informações, novidades e dicas do que rolava na comunidade negra da época. Era a "rede" da rua de Tia Ciata.

Outro fato importante que demonstrou a capacidade de articulação de Tia Ciata: percebeu que a cultura afro exercia fascínio na elite branca da época. Mesmo mantendo um severo controle social das atividades negras, essa elite não conseguia conter seus impulsos interiores rumo a ter acesso e participar daqueles ritos "bárbaros", que também tocavam em sua essência estrutural.

Ou seja, eles sentiam que para terem um espírito aberto ao mundo era fundamental participar também dos ritos afros ligados a mais profunda ralé dos guetos da Belle Époque carioca. Estes lhes impunham outra condição de cidadania e de postura relativas ao outro. Era igual à disputa hoje pelo cargo de rainha da bateria nas escolas de samba pelas atrizes e modelos, onde conflitos e brigas internas não podem ser divulgados abertamente.

Ou seja, a mulher não negra, ali, em frente, ao som alucinante do tarol, surdo, tamborim, reco-reco, pandeiro, chocalho, repique, caixa... se encontra harmonizada entre o paganismo e o profundo exercício do prazer, onde a música serve para ampliar suas cadeias internas de emoção e identificação estética e espiritual. Além disso, há o exercício do marketing, de ser objeto das câmaras dos cinegrafistas e fotógrafos... muito natural.

Desse modo, Tia Cita abria assim sua casa para frequência das elites que iam atrás de seus conhecimentos "bárbaros", conforme explica Carlos Sandroni, em "Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933)" ( Jorge Zahar Editor/UFRJ, RJ,2001).

"Os sambas na casa de Tia Cita ficaram na memória oral do Rio de Janeiro, como nos mostram os depoimentos recolhidos por Moura (e também na literária, sendo citados por poetas como Manuel Bandeira e Mário de Andrade)", afirma Sandroni.

Tia Ciata, segundo Moura e Sandroni, dividiu os aposentos de sua casa conforme a "classe" dos frequentadores. Assim, alegam eles, ela reproduzia o funcionamento comum das casas das elites da época. Esse status era reafirmado na sala de visitas da casa de Tia Ciata, na Praça Onze, onde existia alguns ambientes.

No primeiro, havia dança de par enlaçado e a música dos choros, baseada em gêneros europeus como a polca, a valsa etc. Era uma festa mais "civilizada", no dizer do próprio Pixinguinha, pois era frequentada pela elite branca. Por oposição, na sala de jantar, ficava a esfera íntima, onde prevalecia, protegido por um "biombo cultural", um divertimento de tipo afrobrasileiro, de pessoas pobres negras, os contemporâneos da Tia Ciata.

Sandroni, por seu turno, alega que não havia intenção da nega Ciata em impor uma segregação. Diz ele:

"O biombo não servia para interditar, mas para marcar uma fronteira pela qual, sob certas condições, passava-se constantemente", escreve ele. Sandroni, para reforçar seus argumentos, se socorre com testemunhos da presença de membros da elite branca na roda de samba de Tia Ciata, como na composição de Pixinguinha e Cícero de Almeida, de 1932:

"Samba de partido-alto
Só vai cabrocha que samba de fato
Só vai mulato filho de bahiana
E gente rica de Copacabana"

Por essa perspectiva, segundo Moura e Sandroni, Tia Ciata incorporou um espírito líder dentro da comunidade daquela época. Também porque era a dona de um vasto conhecimento doméstico - essencialíssimo naquela época. O homem negro, neste sentido, era periférico, pois não tinha trabalho regular, nem profissão. Enquanto isso, a mulher negra dominava a casa de ponta a ponta. Além disso, ela tinha dotes culinários, quebrava os tabus frequentando às ruas e sabia criar e manter contatos com gente do governo, sem falar em seu amplo poder religioso que impunha respeito e devoção.

Tia Ciata, segundo Moura, começou vendendo doces e comidas de santo na Rua Sete de Setembro. Era uma doceira de mão cheia. Seu negócio prosperou tanto que ela acabou contratando outras mulheres para ocuparem pontos estratégicos nas ruas do Rio, onde ganhava dinheiro com seus dotes e adotando trajes tradicionais de baianas (saias longas, rendadas, pano da costa, brincos em estilo pingente, colares de contas etc).

Afinal, ela era Tia Ciata, amiga de autoridades, o marido trabalhava na Chefatura de Polícia, sabia como lidar com os signos do poder em benefício dela.

Ela também cumpriu um papel importante como líder estética. Os ranchos, antecessores das escolas de samba, para terem sucesso, tinham que passar pela sua casa e pela casa de outras "tias baianas" para receberem a benção delas. Pois, sem elas, rancho não existia, não poderia ter desempenho positivo.

Na verdade, a importância de Tia Ciata é que os registros históricos falam muito dela numa era onde prevaleceu grandes "tias baianas", a maioria frequentadora da casa de João Alabá, na Saúde. Ernesto dos Santos (1889-1974), o Donga, e João Machado Guedes (1887-1974), o João da Baiana, eram filhos das baianas Tia Amélia e Tia Perciliana, negras que migraram de Salvador para o Rio de Janeiro, trazendo, como outros contemporâneos, uma cultura nigeriana muita densa, muito conhecida pela força de sua religiosidade.

Elas eram contemporâneas de Tia Ciata, mas Ciata se destacava.

Havia também citações importantes em relação ao trabalho e à vida das Tias Tereza, Emilia e outras. Tia Carmem do Xibuca (1878-1988), mais nova que as demais, nascida em Salvador, sobreviveu até os 110 anos, em meados dos anos 1980, na Praça Onze.

Ela chegou ao Rio de Janeiro aos 15 anos, migrando junto com a família. Ao morrer, deixou 40 netos, 50 bisnetos e 30 tataranetos. Teve 22 filhos.

Segundo Moura, a concentração da comunidade afrobaiana encontrava-se na Pedra do Sal e Morro da Conceição. Nestes locais, as tias baianas fizeram história. As mais destacadas foram:

TIA PERPETUA - Morou na Rua de Santana, onde também se concentrava grande população afro. Nesta rua, chamada antigamente de Visconde de Itaúnas, na casa de número 116, morava Tia Ciata.

TIA VIRIDIANA - Mãe de Chico Baiano, sambista famoso entre os afrodescendentes da época, que não se destacou midiaticamente para ser citado como um dos promotores da folia do Carnaval da Belle Époque.

CALU BONECA- Há poucas informações sobre essa tia baiana. Neste caso, urge a necessidade de mais pesquisas sobre ela e sua trajetória.

MARIA AMÉLIA - Também mulher importante na época. Os ranchos antes de saírem também passavam em sua casa para pedir a benção.

ROSA OLÉ - Também há poucas informações sobre essa tia.

SADATA - Uma das fundadoras do rancho "Rei do Ouro", junto com Hilário Jovino Ferreira, outro grande líder da comunidade baiana na Belle Époque carioca. Mulher que se destacou como animadora e grande cozinheira na Pedra do Sal.

DIDI DA GRAÇINDA - Mulher do famoso Assumano Mina do Brasil.

TIA GRACINDA - Tinha um bar, o Gruta Baiana, na Av. Rio Branco, morou na Rua Julio do Carmo num sobrado grande que dava para a Praça Onze. Ficou com fama de ter sido uma baiana muito bonita e muito assediada pelos homens.

Em geral, de origem yorubá, essas baianas mantiveram, aqui, a cultura religiosa de seus descendentes quando criaram terreiros afro. Também foram elas que estabeleceram o espírito de animação das ruas quando criaram ranchos, cacumbis, afoxés e outras manifestações culturais de matriz africana que logo se destacaram na cidade, ganharam corpo e se tornaram fatos marcantes da cultura negra no Rio de Janeiro.

A ala de baianas das escolas de samba do Rio de Janeiro foi instituída como uma homenagem às tias baianas negras que migraram de Salvador e se estabeleceram com seus familiares na Pedra do Sal, Morro da Conceição, Ladeira João Homem e outras localidades do entorno da Praça Mauá. O então prefeito Pedro Ernesto, através de decreto-lei, em 1933, tornou obrigatória a ala de baianas nas escolas de samba do Rio de Janeiro.


Comentários
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    10/09/2015 20:37:56carlos nobre cruzAnônimo

    Valeu, Vera, trata-s de apenas de afirmação com o trabalho das palavras.Abraços!!!

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    10/09/2015 09:27:01veraluciarezendeAnônimo

    Texto maravilhoso. Parabéns, Carlos Nobre!

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