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Joan Amato

Joan Amato

SAÚDE ESPORTIVA. Formada em 2002 pela UERJ, iniciou a carreira como médica intensivista. Para tratar as pessoas fora do hospital, fez pós-graduação em medicina do esporte e tornou-se especialista em Nutrologia. É membro da International Society Of Sports Nutrition. Por adorar escrever, fundou o site Nutroesporte.com.

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17/09/2015 10h27

Fadiga adrenal: descubra como o estresse afeta seus hormônios
Joan Amato

"Ando devagar, porque já tive pressa, e levo esse sorriso, porque já chorei demais". Se eu tivesse que eleger a melô da fadiga adrenal usaria as sábias palavras de Almir Sater, da música "Tocando em frente". Porque é isso que nós fazemos: tocamos em frente enquanto o estresse consome nossos hormônios, causando disfunções orgânicas subclínicas e até mesmo quadros de depressão importante.

Nós já falamos como o estresse crônico e contínuo afeta a produtividade, tanto no trabalho quanto em atletas e as consequências disso. Hoje, vamos falar de uma outra consequência do estresse, que vem sendo estudada há anos, mas com destaque recente no meio médico, a fadiga adrenal.

As glândulas adrenais (ou supra-renais) ficam localizadas sobre cada rim. Elas são responsáveis pela produção dos hormônios adrenalina, cortisol e aldosterona. Os dois primeiros são hormônios do estresse, lançados em maior quantidade na circulação quando nos deparamos com uma situação de "lutar ou correr". Nossos ancestrais tinham momentos breves de estresse. Nós temos momentos mais prolongados, logo, esses hormônios tendem a ficar elevados de forma contínua, pois o fator estressor continua ali, estimulando as glândulas adrenais.

Foto: Reprodução de Internet

Com o tempo e a permanência do estresse, nossos níveis de adrenalina e cortisol ficam mais altos do que o normal, causando alguns sintomas como taquicardia, acúmulo de gordura na região do abdome, pressão alta, piora do colesterol e da glicemia. Some isso tudo e você tem um prato cheio para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes, levando a quadros mais graves como infarto e acidente vascular cerebral (AVC). O sistema imune fica prejudicado também e a pessoa tem a sensação de sempre estar resfriada ou indisposta, como se tivesse uma infecção que não tivesse se resolvido completamente. Além disso, o excesso de cortisol pode levar a diminuição de hormônios da tireoide, do estrogênio e progesterona na mulher e da testosterona no homem. No caso das mulheres, elas podem desenvolver um quadro parecido com a menopausa, tamanha interferência do cortisol na produção dos hormônios sexuais.

"Fritar" as adrenais, forçando um trabalho além do normal, leva à fadiga depois de algum tempo. Nesse momento, a produção de cortisol cai levando a outras alterações perigosas do corpo. Nesse momento, o sistema imune perde completamente suas forças e a pessoa fica mais inflamada, podendo desenvolver quadros alérgicos mais pronunciados por causa da inflamação não controlada (o cortisol é um anti-inflamatório natural). A pessoa se sente exausta, com dificuldade de completar suas tarefas. Apresenta irritabilidade, ansiedade, com uma aparência mais envelhecida e perde o tesão na vida.

Por mais que associemos estresse com situações ruins, qualquer situação que imponha pressão sobre nós pode ser um fator estressor que leve a fadiga adrenal. O uso de pílula anticoncepcional, troca de emprego (até mesmo o emprego dos sonhos!), o início de uma vida a dois, o nascimento de um filho... As situações que requerem mudanças profundas na nossa vida podem levar a estresse por mais que sejamos coisas que tantos almejamos. Se você se encontra nessa, fique calmo(a): você não está sozinho.

E é justamente durante essas fases que a alimentação e o exercício podem fazer diferença. E é justamente durante essas fases que temos mais dificuldade de manter uma alimentação saudável e exercícios regulares. Isso acontece porque as próprias alterações hormonais nos colocam "para trás". A exaustão orgânica é compensada com a ingestão de alimentos com carboidratos simples, como pão e doces, porque liberam grande quantidade de energia. A ansiedade nos leva a fazer escolhas piores e junto a essa necessidade de energia para compensar o cansaço, a pessoa se joga em comidas ruins.

Em relação ao exercício, é o momento que a pessoa flutua entre querer fazer e realmente aderir a um programa regular de exercício. O típico "paguei 3 meses de academia e não fui nem uma semana". Nessa fase, exercícios intensos podem piorar o excesso de adrenalina e cortisol circulantes, cansando mais ainda as glândulas adrenais. É quando a pessoa se pergunta porque continua engordando mesmo estando na academia e fazendo dieta. A resposta é porque o corpo está estressado e muito além dos seus limites. O que funciona para uma pessoa com os hormônios na normalidade não vai se aplicar e funcionar numa pessoa com fadiga adrenal.

Como você trata isso? O primeiro passo é procurar um médico que entenda do assunto, pois são vários fatores que levam a isso. Exames laboratoriais precisam ser feitos para avaliar como a modulação hormonal vai auxiliar a retomada do bem estar e da saúde orgânica da pessoa. Eu gosto de fazer um trabalho em equipe com a Psicologia, pois enquanto as alterações orgânicas estão sendo tratadas, a parte psicológica está muito abalada e precisando também de ajuda.

A fadiga adrenal é uma disfunção orgânica que leva a alterações hormonais importantes e que mexe com vários aspectos, inclusive o psicológico. Alimentação, exercício, parte psicológica e social devem ser tratadas por profissionais da área. O estresse sempre vai existir, nós devemos saber como lidar com ele sem que ele altere nosso organismo de uma forma tão perigosa.

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