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Dicá

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CARNAVAL. Ativista negro, embaixador e cidadão samba paulistano de 2004, é compositor, batuqueiro, passista e fundador da Velha Guarda da Rosas de Ouro de Vila Brasilândia, junto com a embaixatriz do samba Maria Helena. É pesquisador cultural e estudioso da cultura popular brasileira e afrodescendente.

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25/09/2015 00h00

Concurso de samba-enredo: 'A voz do povo é de fato a voz de Deus?'
Dicá

Uma reflexão sobre as eliminatórias de samba-enredo!

Se seguirmos o ditado popular, diríamos que sim, a voz do povo, é voz de Deus, mas se analisarmos os fatos nos dias de hoje ficariamos a pensar. Poderiamos dizer que sim, quando se trata de uma democracia onde na prática a maioria vence, mas quando se trata de disputa de sambas de enredo, não é bem por aí que a banda, ou melhor, a bateria toca...

Penso que nesse aspecto muitos de nós, que gostamos disso e acompanham essas disputas durante muitos anos, podemos dizer que já vimos coisas do "arco da velha".

Sambas-enredo que ganharam nas iliminatórias, mas não levaram, outros que caíram e renasceram das cinzas para vencer, outros, ainda que fossem escolhidos após as finais sem ao menos participarem, outros que incrívelmente após a escolha foram substituidos por outro samba do mesmo compositor...e por aí vai. Isso tudo posteriormente sussurrado pelo "povo do samba" diante de conceitos como lisura, honestidade, escolha democratica etc...

A grande verdade, é que nessa seara, as unanimidades foram raras e que a dúvida sempre pairou, pois os interesses são muitos e originam-se de todas as partes. Nessa nova configuração onde o dinheiro muitas vezes fala mais alto, a coisa piorou.

Nos tempos idos, os prêmios eram mais modestos, os poetas eram patrimônio da escola e se sentiam honrados em vestir as cores do pavilhão e participar da "Ala musical" com seus sambas-enredo, sambas de quadra, onde declaravam o seu amor à escola amada...

Eram ativos de fato e realmente da escola, isso era questão de honra! Os que chegavam tinham que provar através de um samba novo, a sua arte de poetizar! Sempre falo aos mais novos de um epsódio que li, onde Paulinho da Viola apresentava Noca da Portela ao presidente da ala.

Candeia. Foto: Reprodução

Nada mais do que o grande Candeia presidente na época da ala de compositores da Águia de Madureira, porém, teve que provar qualidade, fazer um samba para apresentar à notável ala, isso por norma instituida, por respeito a quem já estava por ali...

Outro fato famoso é Fernando Penteado quando presidente da ala de compositores da escola de samba Vai-Vai, diga-se de passagem, outro celeiro de bambas, brecar o já famoso Geraldo Filme, exigindo um samba novo para apresentar e ser analisado para poder entrar naquela outra grandiosa ala, como toda escola da época possuia...

E lá foi Geraldão...Acabou compondo o hino da escola...Ah e naquele ano também ganhou o samba-enredo discorrendo sobre Solano Trindade. Naquele tempo esse crivo era questão de honra, hoje predominam o que podemos chamar de "festivais de sambas-enredo", não importa donde vem e sim que venha, não precisa ter escola, escola prá que?

Geraldo Filme. Foto: Reprodução

Fatores como esse estão acabando com as alas de compositores, dificilmente sabemos quem são os "compositores" da escola ou se os que lá estão realmente compoem, cantam ou mesmo falam, pois num único samba são oito, dez, quinze...

Portanto com tantos fatores novos como esses nesse quesito chamado "samba-enredo", ficamos sem saber se a comunidade também existe de fato ,ou se é apenas mais uma massa de manobra que caminha de forma tão triste nessa encruzilhada!

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Comentários
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    08/02/2016 07:56:46John BagaceiraAnônimo

    Vai vai vai celeiro do que?? Aff, como assim?! Tipo Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Wilson das Neves, Mnarco????

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    28/09/2015 21:15:05Anderson BuenoAnônimo

    Parabéns pelo excelente texto. Como compositor que tento ser, reitero cada palavra escrita. A dificuldade em competir contra o poder do dinheiro, das famosas "firmas" com interpretes de primeira linha, torcida paga, nomes famosos na composição, gente com nome no samba que só entra com grana. Temos as limitações que as escolas impõe... Um modelo a ser seguido (28 linhas, 2 refrães) , a melodia tem que ser simples, letra fácil... Quando se faz isso, sofremos criticas que é um samba batido... Quando tentamos algo mais requintado, com letra poética e palavras sofisticadas, melodia bem caprichada, somos acusados de não ser popular... E no fim, sempre ganham os mesmos, as vezes so mudam as escolas... Tem escola que a ala dos compositores tem realmente 3 ou 4, os mesmos sempre... Muito difícil, mas vamos a luta... Ano que vem estamos ai novamente... Abraço.

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    25/09/2015 10:14:39Mariana GazalAnônimo

    Só li verdades!

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