SRZD



Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



29/09/2015 12h10

O retorno do terreiro de Joãozinho da Gomeia
Carlos Nobre

A famosa casa de religião afro de João Alves de Torres Filho (1914-1971), Joãozinho da Gomeia, criada há 44 anos e abandonada ao longo da década de 1980, após a morte do babalorixá, no bairro Independência, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, está retornando da terra onde fincou raízes através de escavações que vêm sendo feitas por um grupo de 17 arqueólogos coordenados por Rodrigo Pereira, do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). As escavações vêm sendo supervisionadas pelos professores-doutores Rita Scheel-Ybert e André Leonardo Chevitarese, do Programa de Pós Graduação em Arqueologia do

As escavações já tiveram um feito importante, ou seja, os arqueólogos localizaram a casa do caboclo Pedra Preta, uma das entidades que Joãozinho da Gomeia incorporava. Mas o orixá Iansã, santo da alma do babalorixá, era patrona do terreiro da Gomeia. O caboclo Pedra Pedra é uma entidade do Candomblé de Caboclo que também influenciava as ações espirituais de Joãozinho.

Ali, na casa do caboclo Pedra Preta, Joãozinho e sua mãe biológica, Dona Senhora, faziam orações e tratavam das doenças da população local e também de diversas celebridades nacionais e internacionais que procuravam seu terreiro.

Segundo Pereira, coordenador das escavações, em 15 dias de trabalho, foram localizados, além da casa de caboclo, frascos, vidros para acondicionar remédios, contas e fios de contas religiosas, trancinhas de tecido para ornamentação de atabaque, pires, pirex, xícaras, garfos, facas e moluscos de culto.

Foto: Rodrigo Rodrigues

"Havia assentamentos religiosos, mas estes parecem que foram levados", desconversa. Todo o material, explicou ele, ficará sob a guarda do Museu Nacional até o fim da pesquisa em 2019. A pesquisa tem sido acompanhada por Mãe Seci Caxi, apontada como sucessora de Joãozinho da Gomeia. Ela tem auxiliado na identificação dos materiais obtidos.

Ela é filha biológica de Kitala Mungongo, recentemente falecida, que foi iniciada por Joãozinho da Gomeia. Mãe Seci Caxi nasceu dentro da Gomeia, em 1 de novembro de 1961, pelas mãos do próprio Joãozinho que foi seu padrinho de batismo.

O arqueólogo acrescentou que as escavações para localizar a planta original do terreiro de Joãozinho da Gomeia será a base de sua tese de doutorado a ser apresentada dentro de três anos no Museu Nacional.

"A pesquisa, que se utiliza de metodologia arqueológica, visa levantar dados acerca do processo de formação do registro arqueológico no Terreiro da Gomeia, por Registro Arqueológico, ou seja, todo resquício material deixado pela ação de grupos humanos ao longo da história de ocupação de um lugar", explicou Pereira.

De acordo com ele, esse pode ser o primeiro levantamento etno-arqueológico de uma casa de candomblé no Brasil a partir da visão arqueológica.

Segundo Pereira, a etno-arqueologia é um ramo da arqueologia que usa de comparações entre os materiais arqueológicos e as práticas ainda vigentes de grupos que têm determinada continuidade nas práticas culturais. - Me utilizo de dados dos terreiros em funcionamentos para comparar e elucidar as questões levantadas na Gomeia".

Segundo Pereira, o material que vem sendo retirado do antigo terreiro da Gomeia não é considerado arqueológico pela lei no. 3924/1961. - Estou tratando o material que estamos recolhendo, aqui, como histórico e dando um viés arqueológico a ele- assegura Pereira.

Pereira disse que segue uma linha teórica denominada de "Arqueologia do Tempo Presente", pois, o material escavado, apesar de jovem, tem repercussões na memória dos grupos a que aquele material se refere, como, no caso do terreiro da Gomeia, em que seus símbolos e evidências ainda fazem parte da memória do bairro onde ele

Para executar essa pesquisa, ele procurou o Secretário de Cultura de Caxias, Jesus Chediak, para obter autorização da referida secretaria para proceder com as pesquisas

Foto: Rodrigo Rodrigues

O arqueólogo esteve também com ex-integrantes do terreiro que deram informações a respeito da disposição dos cômodas da casa. Esse fato permitiu a elaboração, ainda em curso, de uma planta da disposição dos espaços erigidos e rituais do terreiro. Na verdade, estou elaborando a planta ainda, via uso de técnicas de história oral e dados etnográficos-contou Pereira. Ele detalha com foram as escavações durante 15 dias, no bairro Independência:

"Aqui, parece que não tem mais os assentamentos originais, mas acho que tem uma cultura material importante. Ficamos semanas escavando, no período 03 a 14 de agosto passado. Acho que resgatamos objetos do cotidiano do terreiro. A razão dessa escavação é que ela faz parte do meu doutorado"- contou ele.

Em março e agosto de 2016, estão previstas mais escavações no terreiro da Gomeia pela equipe coordenada por Rodrigo Pereira.

Pai de santo de celebridades

Joãozinho de Gomeia não foi apenas mais um pai de santo. Entre 1950-1960, se tornou o maior babalorixá do Brasil, sendo aclamando como Rei do Candomblé, por diferentes correntes religiosas.

Entre as pessoas que procuram seus serviços religiosos se encontravam ex-presidentes da República (Getúlio Vargas e Juscelino Kubischek), artistas (Dalva de Oliveira, Marlene, Blacaute, Grande Otelo), intelectuais estrangeiros( Pablo Neruda, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre), parlamentares, empresários e integrantes da

Após sua morte, em 1971, devido a um aneurisma cerebral, seu terreiro, em Caxias, continuou funcionando, mas, em 1985, foi transferido para Maiporã, a 55 Km de São Paulo, onde hoje ocupa um terreno de 28 mil alqueires.

Foto: Divulgação

Curta a página do SRZD no Facebook:



Comentários
Comentar