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01/10/2015 09h13

Carnaval Japão: conheça a origem e detalhes dos desfiles das escolas de samba
Redação SRZD*

Com um público de 400 mil pessoas estimado pela polícia de Tóquio, o Asakusa Samba Carnival é o maior desfile de escolas de samba fora do Brasil, superando conhecidos carnavais, como o inglês e o norte­-americano.

O desfile, que reúne na Avenida cerca de cinco mil sambistas distribuídos em várias agremiações, faz parte do calendário oficial de eventos da capital japonesa e é o único festival de rua não ­japonês a furar o bloqueio das religiosas e conservadoras festas que ocorrem no arquipélago há centenas de anos. Tinha que ser o samba!

A partir de agora, o leitor do SRZD vai poder acompanhar o universo do samba no Japão, desde as origens passando pelo ciclo anual de construção do carnaval nipônico. Como diria o escritor e cronista carnavalesco Sergio Cabral, "onde, quando, quem, como e por quê" surgiram as escolas de samba e os desfiles no Japão?

O Kaminarimon, portal do Templo Sensoji, por onde passa o desfile das escolas de samba. Foto: Wikipedia

Passarela japonesa

O Asakusa Samba Carnival acontece sempre no último sábado de agosto, quando é verão no país. Os termômetros chegam a 37 graus com alto índice de umidade no ar. Uma sauna ao ar livre!

A passarela do samba nipônico não tem arquibancadas, camarotes, praça da apoteose ou ingressos. Fica na Avenida Kaminarimon, no Bairro de Taito, Tóquio, onde está localizado o principal templo budista da capital japonesa, o imponente Sensoji. O templo foi erguido em 645 DC e, no dia dos desfiles, é cercado por sambistas fantasiados, transformando a bucólica paisagem ao redor dele em um festival de cores e tipos.

A Avenida Kaminarimon é fechada para os desfiles e cada espectador chega cedo ao local para garantir seu lugar no meio-­fio, como nos antigos carnavais na Avenida Rio Branco. O público não é só de Tóquio. Um número grande de pessoas vem de outros estados vizinhos, dentre eles, Chiba, Saitama, Kanagawa, Ibaraki e Gunma. Segundo o Consulado­-Geral do Brasil em Tóquio, nesses cinco estados, somados a capital, residem cerca de 45 mil brasileiros. Mas a presença deles é quase invisível em meio a massa de cidadãos japoneses, que trazem esteiras de plástico, geladeiras portáteis com bebida, petiscos, leques, barracas de camping, câmeras fotográficas e filmadoras de todos os modelos.

Motivos japoneses. Foto: Masatuki Kataoka

Operação sem imprevistos

A operação que envolve o desfile é gigantesca, tudo na mais tradicional perfeição e competência japonesa. Um batalhão da Polícia de Tóquio, em parceira com um imenso staff acionado pela Associação Comercial de Asakusa (ACA) e pela Cervejaria Asahi, a patrocinadora-mor do evento, garantem que tudo ocorrerá bem antes, durante e depois do desfile. É grande o número de idosos e crianças que chegam para assistir ao espetáculo. Não ocorrem brigas, furtos ou acidentes graves. Ná há automóveis estacionados em lugar proibido, acúmulo de lixo ou sujeira nas ruas. O protagonista deste carnaval é a alegria e a confraternização. Muitos dos espectadores conhecem os nomes e as cores das escolas e alguns deles vestem camisas com os símbolos das mesmas. É rara a distribuição de prospectos com as letras dos sambas e não há muita informação sobre os enredos. O número de fotojornalistas é grande e um canal de TV a cabo transmite os desfiles ao vivo. Os comentários durante a transmissão não explicam muita coisa, mas é uma prova da importância do evento e uma forma eficiente de divulgação.

Os sambistas chegam a Asakusa de metrô ainda sem as fantasias vestidas.

Variados tipos de prédios públicos são disponibilizados gratuitamente para que eles possam trocar de roupa e preparar seus instrumentos. Atrás do templo budista Sensoji, cartão postal de Tóquio, estão estacionadas as alegorias, onde recebem os últimos retoques. Os restaurantes locais lotam de sambistas e espectadores movimentando milhões de ienes. As máquinas de bebidas, encontradas em qualquer esquina, se esvaziam rapidamente. Não há ambulantes, mas o número de vouyers com suas potentes câmeras aparecem de todos os lugares. As passistas, com pouca roupa, os atraem porque se assemelham às indumentárias cosplay (caracterização de personagens dos quadrinhos japoneses). Alguns terminam a festa nas mãos da eficiente Polícia Japonesa, que confisca a máquina para fiscalização do conteúdo.

Leques flutuantes. Foto: Taka Takashi

As escolas

O Asakusa Samba Carnival reúne 16 escolas de samba divididas em duas ligas: a Liga S1, com nove grandes escolas, e a Liga S2 (o grupo de acesso), com sete agremiações. As escolas da Liga S1 são obrigadas a apresentar comissão de frente, samba­-enredo, bateria, ala de baianas, casal de mestre-sala e porta­bandeira, o mínimo de 150 componentes, carro de som e uma alegoria. As escolas da Liga S2 desfilam sem alegoria e com o mínimo de 30 componentes. Além das obrigações citadas, a maioria das agremiaçãoes possui ala de passistas, direção de harmonia, carnavalescos e diretoria, incluindo presidente, vice-­presidente, tesoureiro e assessoria de imprensa.

A palavra "paredo" por aqui significa desfile. "Tema" é o enredo. E "enredo" é o samba­-enredo. Uma pequena confusão de termos, mas que, para eles, facilitou o entendimento. As agremiações não têm quadra nem barracão. Os ensaios são feitos em salões públicos de eventos. Os instrumentos são comprados e mantidos pelos próprios ritmistas. Os componentes da ala de passistas via de regra não vestem a mesma roupa. Cada uma compra ou manda fazer uma fantasia que tenha relação com o enredo e desfilam como se fossem musas ou destaque de chão. Os homens preferem desfilar de malandro, mesmo que o enredo não tenha nada a ver com o personagem.

As baterias praticamente não têm terceiras. É possível ver surdos e cuícas com pele de nylon. Mas os agogôs de quatro bocas e o repique-­mor já chegaram ao arquipélago. Nesta festa nada é de graça. Todo mundo paga para desfilar, inclusive a bateria e o casal de mestre-­sala e porta­-bandeira.

 Futebol, fauna, café e Brasil, Foto: Masatuki Kataoka

O julgamento é feito por um grupo de dez pessoas escolhidas pela Associação das Escolas de Samba de Asakusa (AESA) e pela Associação Comercial de Asakusa (ACA). Entre os jurados há especialistas em música e dança brasileira, jornalistas e uma celebridade do show business local. Todos japoneses. Conforme o regulamento da AESA, o modelo a ser seguido é o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. São seis os quesitos a serem julgados: Enredo, Evolução, Fantasias/Adereços, Samba-Enredo/Bateria, Dança e Conjunto. A Alegoria é pontuada dentro de Conjunto e o casal de mestre-­sala e porta­-bandeira é avaliado dentro do quesito Dança.

A apuração e o anúncio dos campeões é divulgado no mesmo dia do desfile. Uma escola cai e uma escola sobe. O campeão da Liga S1 recebe vinte mil dólares de prêmio, o vice­-campeão oito mil dólares, e o terceiro colocado quatro mil dólares. O campeão da Liga S2 recebe mil dólares de prêmio. Na calculadora, esse dinheiro não é o suficiente para fazer o carnaval do ano seguinte. Situação semelhante às escolas dos grupos de acesso do Rio, sempre sem dinheiro para finalizar o carnaval.

Divulgação da língua portuguesa. Foto: Masatuki Kataoka

O desfile

O desfile ocorre em duas avenidas contínuas e tem cerca de 800 metros de comprimento. A concentração é na Avenida Umamichi, ao lado do Templo Budista Sensoji. Nela são percorridos cerca de 350 metros com uma curva à direita. Em seguida, o cortejo entra na Avenida Kaminarimon, mesmo nome do portal que guarda o templo budista. As calçadas ficam totalmente tomadas por espectadores. No final da Avenida Kaminarimon está a comissão julgadora, num estande coberto. O desfile passa por ela e termina.

Os primeiros a desfilarem são as bandas escolares, dentre outros grupos musicais. Depois passam pelo local uma mistura grande de agremiações com ritmos latinos e pequenos grupos de samba.

As escolas vêm por último. Desfilam uma atrás da outra num intervalo de cerca de 20 minutos, tempo suficiente para que o carro de som de uma escola não interfira na evolução da escola logo à frente ou da que vem logo atrás. Não há recuo de bateria. Os ritmistas seguem o cortejo sem parar. Nesta configuração é quase impossível um sambista desfilar em mais de uma escola da mesma Liga.

Os primeiros desfiles do Asakusa Samba Carnival começavam à tarde e terminavam à noite. Desce o início da década de 90, as escolas passaram a desfilar de tarde, terminando às 18h.

Cancan na folia. Foto: Masatuki Kataoka

Histórico

O Asakusa Samba Carnival surgiu em 1980, por iniciativa da Associação Comercial de Asakusa (ACA). O objetivo era trazer mais consumidores para o local, muito frequentado por idosos. Os lojistas vinham registrando prejuízos e precisavam encontrar uma saída para o baixo movimento.

Em 1979, a ACA realizou um festival de jazz, sem sucesso. No ano seguinte foi criado um pequeno desfile com grupos de samba, que acabou atraindo muita gente. Alguns brasileiros ajudaram a Associação a realizar este primeiro carnaval experimental. Em 1981, incentivados pelo bom resultado do carnaval, um grupo de diretores da associação comercial, organizadora do evento, viajou até São Paulo para saber como ocorriam os desfiles das escolas de samba no Brasil. Daí para frente o desfile cresceu em participação e vários grupos de samba foram criados.

Nas próximas reportagens, os leitores do SRZD conhecerão cada uma das escolas, grupos de samba e sambistas japoneses e brasileiros que realizam o maior desfile das escolas de samba fora do Brasil. Como nasceram as escolas de samba no Japão? Qual a fonte de renda deles? Como organizam e preparam seu carnaval? Para quais escolas cariocas torcem os japoneses? Nossa viagem pelo samba japonês está só começando.

Alegoria sendo construída atrás do Templo Sensoji. Foto; Taka Takahashi

Passistas. Foto: Masatuki Kataoka

 Ala. Foto: Masatuki Kataoka

Casal se apresenta em frente a comissão julgadora. Foto: Taka Takahashi

Presença brasileira. Foto: Masatuki Kataoka

Rainha de bateria. Foto: Masatuki Kataoka

Comissão de frente e Abre­ Alas. Foto: Masatuki Kataoka

Casal evoluindo. Foto: Masatuki Kataoka

 Alegria nipônica. Foto: Masatuki Kataoka

A cultura local se mistura ao carnaval. Foto: Masatuki Kataoka

 

 Musa. Foto: Taka Takahashi

Baianas. Foto: Masatuki Kataoka

 Dia de princesa. Foto: Masatuki Kataoka

*Com colaboração de Marcello Sudoh

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