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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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13/10/2015 13h53

A final do Salgueiro
Rachel Valença

Noite de grandes emoções no sábado passado no Salgueiro. A quadra, lotada, não oferecia boas condições de trabalho, desde a entrada, muito tumultuada, com espaços mal sinalizados para o pessoal da imprensa. A cortesia não era o forte no acesso à querida escola. Mas, uma vez lá dentro, era bonito de se ver. Não havia espaço para nada e você pensa por um momento que o samba está realmente em alta. Logo depois, cai na real. Quem está ali não é necessariamente sambista: procurou uma casa de espetáculo onde até 2 horas a variedade de ritmos e de performances é grande. Tudo bem, são ritmistas e passistas, mas tocam e dançam de tudo, e samba mesmo só um pouquinho, para não cansar o público tão eclético.

Desde o início, deu para perceber que não havia preferência definida. Em conversas e entrevistas, a quadra estava oscilando entre os dois finalistas. A apresentação do primeiro samba, de Marcelo Motta e parceiros, foi, porém, avassaladora. Os torcedores cantaram com muito vigor um samba valente. A torcida improvisava coreografias e na última passada, quando toda a quadra abaixou bandeiras e bolas e simplesmente cantou, deu para emocionar e, se não me engano, para ver Zé Pelintra sambando no meio da quadra do Salgueiro.

O segundo samba, de Gonzaga e parceiros, apresentou uma torcida numericamente bem inferior ao primeiro. Mas é um samba de forte apelo popular, com citações interessantes, remetendo ao samba de Jorge Aragão ("Malandro, eu ando querendo falar com você") e até a Silas de Oliveira ("Agora que eu quero ver/ quem é malandro não pode correr"), samba de terreiro que adquirir força de ponto de umbanda. Mas o trecho mais inspirado da letra, ("Salgueiro tem um jeito assim, de chegar tão mansamente e tomar conta de mim") toca o coração do componente e muita gente dava preferência a este samba justamente por causa desses versos. Era um samba ousado na melodia, e ousadia e Salgueiro têm tudo a ver. Portanto, a briga era feia.

Samba mesmo, do jeito que a gente gosta, houve entre as apresentações dos concorrentes e o anúncio do resultado. O magnífico repertório de sambas de enredo do Salgueiro foi todo visitado. Leonardo Beça e seus companheiros do carro de som desfiaram um rosário de maravilhas, mesclando o passado e o presente sem distinção, tudo bem sabido e bem cantado. Entre o fim da apresentação do segundo samba e o resultado se passou bem mais de uma hora, mas o tédio e a impaciência foram amenizados por esta audição maravilhosa.

Por que tanta demora? Os boatos corriam soltos. Teve gente indo embora na certeza de que haveria confusão. Pois estava correndo na internet a declaração de um compositor já cortado, garantindo que o samba de Gonzaga seria escolhido por razões extra samba. E a reação não se fez esperar: a conversa de que, se o samba de Motta não fosse o escolhido, haveria protesto "da malandragem", que não era a do enredo 2016.

Mas chegou a hora do anúncio do resultado e não teve para mais ninguém: a noite foi da presidente Regina Celi. Disse que não pretendia falar, apenas anunciar os resultados, mas falou e muito. E bem. Uma fala cheia de verdade, em primeiro lugar sobre o constante desrespeito do mundo do samba à mulher. Meu Deus, como ela está certa! De uma dirigente mulher cobram falhas que são permitidas e perdoadas aos homens. Afirmou que os ritmistas fazem a diferença no carnaval. Outra grande verdade, sempre esquecida. Falou depois da solidão do poder, que deve ser compartilhado nos momentos agradáveis, mas está sozinho para enfrentar as dificuldades. Ponto para ela: no mundo do samba, no poder só é bom quem nos favorece. Se ganhamos, foi por nossos méritos e a disputa é limpa. Se perdemos, tudo lá é podre e tome calúnia nos dirigentes. E completou abordando a covardia que é ser atacada anonimamente, por pessoas que não se assinam e não mostram a cara. Terminou com uma frase emblemática do que é hoje a disputa: "Marcelo Motta, o samba é teu!" Faz pensar.

Não sabemos e jamais saberemos o que se passou nos bastidores dessa noite de fortes emoções. Teria havido mudança de rumo na decisão? Seria esta motivada pela qualidade da apresentação, pela preferência da quadra e dos ritmistas da Furiosa, ou por razões menos nobres? Não se sabe. O certo é que o Salgueiro saiu lucrando, porque ter um componente de bem com seu samba é um capital precioso na guerra de fevereiro. Um samba de qualidade. Se observarmos, sua estrutura é clássica: começa com uma invocação, um pedido de licença ("Salve o povo de fé, me dê licença", seguido de sua proposição e apresentação: "eu sou da rua" , "o rei da noite eu sou", "de linho branco vou me apresentar". O clássico em versão moderna. Tranquilamente a presidente Regina poderia ter anunciado: "Salgueiro, este samba é teu".

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Comentários
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    14/10/2015 10:54:01Jeanine GallMembro SRZD desde 05/12/2012

    Rachel Valença não escreve textos. Rachel Valença dá aula! Este trecho é especial demais, principalmente, no que se refere ao ritmista da escola em relação ao samba que será levado para a avenida, esta opinião do conjunto precisa ser ouvida com mais atenção. "Mas chegou a hora do anúncio do resultado e não teve para mais ninguém: a noite foi da presidente Regina Celi. Disse que não pretendia falar, apenas anunciar os resultados, mas falou e muito. E bem. Uma fala cheia de verdade, em primeiro lugar sobre o constante desrespeito do mundo do samba à mulher. Meu Deus, como ela está certa! De uma dirigente mulher cobram falhas que são permitidas e perdoadas aos homens. Afirmou que os ritmistas fazem a diferença no carnaval. Outra grande verdade, sempre esquecida. Falou depois da solidão do poder, que deve ser compartilhado nos momentos agradáveis, mas está sozinho para enfrentar as dificuldades. Ponto para ela: no mundo do samba, no poder só é bom quem nos favorece. Se ganhamos, foi por nossos méritos e a disputa é limpa. Se perdemos, tudo lá é podre e tome calúnia nos dirigentes. E completou abordando a covardia que é ser atacada anonimamente, por pessoas que não se assinam e não mostram a cara. Terminou com uma frase emblemática do que é hoje a disputa: "Marcelo Motta, o samba é teu!" Faz pensar."

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