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Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

Hélio Ricardo Rainho/Carnaval

CARNAVAL. Profissional de Comunicação e Marketing, Hélio Rainho veio do teatro, sendo ator e diretor profissional. Autor da biografia do jogador Mauro Galvão e de várias peças teatrais. Nascido na Praça XI, chegou à Portela como jovem compositor nos anos 80 e passou a pesquisar escolas de samba e Carnaval. Idealizador do projeto "Quem És Tu, Passista?", um manifesto pela preservação do segmento, é padrinho dos passistas do Império Serrano e comentarista dos desfiles na Sapucaí. Twitter/Instagram: @hrainho.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



24/10/2015 11h36

Enredos e estranhas homenagens
Hélio Ricardo Rainho

A escola de samba tem um histórico de desconhecimento, desfavorecimento e desprestígio no seio do país onde nasceu. Talvez por ser originária do septo cultural de matiz africano, historicamente delegado ao "exótico, primitivo e tribal" em nosso país, a escola de samba sempre foi vista de duas formas distintas: outrora como "folguedo", hoje mais como "espetáculo".

O lado ruim de ser tão somente "folguedo" é deixar de ser devidamente prestigiada pelos entes culturais ditos "oficiais". O lado ruim de ser "espetáculo" é ser resumida a uma gravação de DVD que se julga presunçosamente capaz de "compactar" seus "melhores momentos"(sic). Numa e noutra, estamos dizimados a uma partícula ínfima daquilo que, efetivamente, a escola de samba representa enquanto organismo vivo e gerador de identidades culturais, territoriais e simbólicas de nossa ordem nacional.

Capa do livro Em termos de indústria cultural, o samba teve reconhecimento tardio e difícil acesso às gravadoras e ao chamado show business. Só muito recentemente foi reconhecido como "patrimônio imaterial do Brasil". Rádios, gravadoras e veículos midiáticos que teoricamente deveriam difundir os artistas em sua liberdade de expressão foram se tornando, pouco a pouco, detentores de um poderio a determinar "quem" e "o que" se canta ou se dança no país. Há muita coisa que o povo está cantando ou dançando que ali está por mera imposição massiva. Outras coisas muito mais representativas de nossa cultura acabam, por fim, perdendo seu espaço.

Nos anos 70 e 80, a escola de samba e os sambistas ressentiam-se de perder espaço para a música estrangeira. As gravadoras achavam mais baratas as bases eletrônicas pré-gravadas dos ritmos estrangeiros, e preferiam produzir música com "orquestra mecânica" em vez dos sofisticados arranjos dos grandes sambistas. Pouco a pouco, o samba e o pagode foram substituídos por um pastiche eletrônico, feito em laboratório, com sambistas fakes de fora das escolas de samba, sem nenhuma vocação melódica ou poética, mas bem enquadrados na mercadologia. As exposições massivas dessas músicas ruins dariam "sucesso" também a vários outros "gêneros musicais" que nunca passaram de "degeneração musical".

Qual é o único espaço midiático reservado à escola de samba? O dia de seu desfile, é claro! Preservar esse momento como seu maior poder de exposição, como momento-chave para ela exaltar seus nomes históricos, é questão de honra, sobrevivência. Pois bem: este ano temos, em todas as escolas da Sapucaí, apenas UMA que lembrou um de nossos bambas. O Império Serrano reviverá Silas de Oliveira na avenida. Além disso, vem a Tradição exaltando Clementina de Jesus. E só. Acabou.

Estamos na era dos desportistas e dos artistas de gêneros musicais duvidosamente pré-fabricados. Muitos deles jamais exaltaram nenhum de nossos sambistas ou de nossas escolas em seus palcos. E agora serão exaltados, engrandecidos no único lugar que a segregação cultural delegou a nossos crioulos poetas de morro e asfalto. É caso pra se pensar. Colonialismo cultural vale a pena, quando rende "bom espetáculo" pra jurado ver?!

* Reproduzido do Jornal do Sambista, um periódico impresso mensal distribuído nas quadras e eventos de samba. Helio Ricardo Rainho é um de seus colunistas convidados.

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Comentários
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    10/11/2015 19:14:14RafaelMembro SRZD desde 12/12/2014

    Hélio Ricardo, obrigado por ter respondido meu comentário. Eu realmente não tinha me atentado ao fato da Liesa ser comandada pelos dirigentes das agremiações, mas de qualquer forma continuo achando que o Carnaval tem espaço para temas sem relação com o samba. Sob a sua ótica não teríamos nos divertido com a Tradição homenageando o grande Silvio Santos, não teríamos nos emocionado com a Viradouro e a dama do teatro Bibi Ferreira em 2003, ou com a Imperatriz e Hans Christian Andersen em 2005. Desde que a escola preze pela escolha de um bom samba (a Vila por exemplo tem um tema maravilhoso, mas um samba muito fraco), acho que tem espaço pra tudo. Pra mim a diversidade é o que faz do Carnaval esta festa incrivelmente mágica.

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    06/11/2015 01:30:11Hélio Ricardo RainhoMembro SRZD desde 26/01/2010

    Prezado Rafael, antes de mais nada agradeço a sua e a participação de todos os demais leitores interagindo e engrandecendo o debate. Muito obrigado a todos. Quanto à sua argumentação, discordo sob pontos de vista muito claros. Primeiro: não crucifiquei ninguém. Segundo, terceirizar a culpa das escolas de samba dizendo que a culpa é da gestão é um contrasenso: de quem é a gestão das escolas de samba??? Do Rock in Rio?!?! Dos rodeios?!?! De Parintins?!?! Dos trios elétricos da Bahia?!?! Não: de GESTORES DO PRÓPRIO SAMBA! Não há estrangeiros nem colonizadores na Liga: a cúpula do samba elege e governa tudo! Estão fazendo o que querem do jeito que querem! Agora, sobre essa "carência financeira", vamos lá: 1) Império Serrano, gigante rebaixado, lutando com todas as forças e carências para mostrar um enredo sobre sua essência; 2) Tradição no último patamar, quase ao relento, defendendo Clementina de Jesus; 3) Viradouro sem patrocínio e com muita luta defendendo um enredo grandioso e cultural; 4) Vila Isabel com um enredo político patrocinado perfeitamente adaptado e contextualizado para se tornar cultural sem ficar banal. E aí?! Com ou sem patrocínio, se essas podem, quem não fez assim não fez porque não quis. Pra mim está muito clara a distinção.

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    03/11/2015 17:27:24Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Cabe aqui o meu comentário no site Carnavalesco sobre o vídeo-apresentação do Império Serrano, dia 30/10/2015, no ensaio de quadra da Portela. Faço autocrítica ante a gestão da presidente Vera Lúcia. Isso porque não apoiei a chapa concorrente que ela liderou, equivocando-me ao criticá-la. É correta a filosofia político-administrativa da diretoria imperiana, ilustrada pela contratação do ótimo intérprete Pixulé. Tendo como bairro-base Madureira, o Império está no caminho certo para voltar ao Grupo Especial (GE) do Carnaval Carioca. Embora deixe-se claro que a disputa pelo título 2016 do grupo de acesso/Série A será hercúlea, pois, somente a campeã ascende ao GE. Há outras fortes candidatas dentre as 14 agremiações da Série A. Na qual se vê que o atual momento da Coroa Imperial é o da esperança de em 2017 vir a encontrar-se no GE com a coirmã & vizinha em Madureira e que também tem como bairro-base Oswaldo Cruz, a Majestade do Samba ou a Águia Altaneira & Guerreira. Ou seja, assim como a vizinha Portela se credencia para a disputa do título 2016 no GE através dos belos samba e enredo (No voo da águia, uma viagem sem fim...), o Império Serrano faz o mesmo no grupo de acesso/Série A com o samba e o enredo: ´Silas (de Oliveira) canta Serrinha´ de criação & desenvolvimento do carnavalesco Severo Luzardo Filho, obra musical de coautoria dos compositores Arlindo Cruz, Aluísio Machado, Arlindo Neto, Zé Glória, Andinho Samara e Lucas Donato. Por fim, só para esclarecer o que no vídeo não está, Tabajara do Samba e Sinfônica do Samba são respectivamente autodenominações-marketing das baterias/orquestras da Portela e do Império Serrano. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    02/11/2015 15:39:46onesio meirellesMembro SRZD desde 27/07/2009

    QUANDO ZE KETTI A VOZ DO M0RRO O REI DOS TERREIROS SERÁ ENREDO. O COMPOSITOR PORTELENSE MAIS FAMOSO NA DECADA 50/60? SE ALGUEM PERGUNTAR POR MIM DIZ QUE FUI POR AÍ PODEM ME PRENDER PODEM ME BATER QUE EU NÃO MUDO DE OPINIÃO QUANTO RISO OH QUANTA ALEGRIA EU SOU O SAMBA MA VOZ DO MORRO SOU EU ESMO SIM SENHOR

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    28/10/2015 14:36:08RafaelMembro SRZD desde 12/12/2014

    Helio Ricardo, seu texto é bom, mas não culpe as nossas Escolas de Samba por elas se adequarem ao modelo de julgamento que temos hoje no Carnaval. A Liesa quer luxo e comissões de frente hollywoodianas. O samba sai perdendo com isto, mas as agremiações precisam de verba para botar o carnaval na Sapucaí, e estas homenagens geralmente trazem patrocínio. Este ano ainda tivemos gratas surpresas, pois "estranhas homenagens" como a da Imperatriz para a dupla Zezé di Camargo e Luciano, e a Mangueira para a Maria Bethânia, acabaram nos brindando com excelentes sambas, e isto só mostra a força da criatividade e o valor de nossos sambistas. Não crucifique as agremiações. O que tem que ser revisto é a forma de julgamento do Carnaval.

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    26/10/2015 19:52:22Leandro HardoimMembro SRZD desde 30/07/2014

    Amigo Hélio, as nossas escolas de samba se esqueceram de valorizar nosso samba e nossos bambas, e talvez não seja muito dificil entender de que maneira isso acontece nos dias atuais. O samba, e sobretudo, as escolas de samba são a representação da força, da resistência e da persistência daquilo que se quer dizer, quando não se pode dizer. Quando os escravos, outrora auforriados, subiram o morro, levando consigo seus cultos, seus batuques, seu ritmo e sua cultura, levaram consigo , também parte da cultura de opressão que sofrera no asfalto. O samba nasce junto com o surgimento das favelas, das comunidades, dando voz aos calados, que antes eram apenas orprimidos e subjugados em nossa nação. O samba é resistência, o samba é apelação, no bom sentido. Quando o feliz poeta diz "não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar. O morro foi feito de samba. De samba pra gente sambar", mais do que uma bela poesia, essa canção representa o apelo daquele que entendeu o que o samba significa. Quando nossas escolas deixam de tratar de temas relativos a formação dessa parte tão importante de nossa cultura, estão esquecendo de perpetuar a voz daqueles, que por desamor de muitos, fundaram o que hoje podemos chamar de resistência e conciência negra. Que nossos poetas e nossos "idolos" sejam cada vez mais lembrados e abraçados por nossas agremiações. Que a cultura que, antes nos subjugou, não mate nossa história. História essa nem tão distante assim.

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