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Nyldo Moreira

Nyldo Moreira

TEATRO E MÚSICA. Jornalista, especializado em cultura e economia. Ator e autor de peças de teatro. Apresentou-se cantando ao lado de artistas, mas não leva isso muito a sério. Pratica a paixão pela música em forma de textos e críticas. Como diretor, esteve a frente de dois curtas, um deles que conta a vida no teatro. 

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29/10/2015 15h10

'Roteirizados' estreia texto leve e elenco afiado em SP
Nyldo Moreira

Estreou nesta quarta-feira (28), no Teatro Augusta, em São Paulo, o espetáculo "Roteirizados", com seis atores no elenco e dois diretores. Parecia ser muito, para quem lê no cartaz, mas essa impressão ficou pra trás quando abriram as cortinas. O talento lapidado de cada ator, feito um pelo outro, já escancara o altruísmo da produção. As cenas acontecem na medida certa, como se aquela receita enorme para um bolo simples fosse seguida à risca, sem jogar tudo de uma vez no liquidificador. O texto de Mark Harvey Levine é bem leve e generoso com cada ator.

Não acho que o título seja lá dos melhores, e tampouco comercial, mas, "Roteirizados" talvez seja o que mais traduz o enredo da peça. Um casal, até então comum, daqueles que acorda cedo para trabalhar, volta do trabalho, janta e dorme, nota que sua rotina está toda escrita em um roteiro um pouco chato, que surge inesperadamente na cabeceira de sua cama. Não seria uma história de grande bilheteria para um espetáculo, ou cinema, porque é simplesmente muito monótona. Eles resolvem então reescrever partes desse roteiro, mudar o início, o fim e o meio. Evidentemente isso seria trágico, ou tragicômico. A proposta do texto é muito bem sacada, lógico que similar aos enlatados americanos do tipo: "tenho um controle remoto que faz parar o tempo" - mas, graças aos deuses do teatro o script foge um pouco disso. O texto tem uma moral bacana: o nosso destino é imprevisível, podemos mudá-lo, mas não do início da vida, e temos de vivê-la.

Foto: Divulgação

André Di Paulo e Tiago Pessoa compartilham a direção do espetáculo, que foi arquitetado em apenas onze dias. Mas, independente do tempo, a lona tem que estar em pé e impecável, é a obrigação de quem se aventura no teatro. E a tarefa foi bem cumprida. Os dois conseguiram transmitir aos atores a beleza que há na proposta do texto, e sapecar a cada ator o limite do humor escalado no roteiro. Nenhum personagem funciona sozinho, e nenhum brilha sozinho. Há pequenos apontamentos, sim, mas que não desfiguram a concepção geral da peça.

A cereja do bolo, que é a reconstrução da vida dos personagens, Elaine e Simon, acontece em formato sitcom, e o casal assiste sua própria história, reescrita por eles, encenada pelos outros 4 atores. Essa cereja é colocada desde o início do espetáculo, mas ela começa a cair do meio para o final. O final não é tão bom quanto o começo. O texto acontece como uma pirâmide invertida e não é prejudicado porque a peça é curta e coube dentro de menos de 60 minutos, o que faz o início ficar próximo do final. Dessa forma o final não compromete o brilho do início, e o ritmo não fica perdido.

Os seis atores encontram-se no palco apenas no começo e nos agradecimentos finais, e essa é a estratégia pontual para não bagunçar as cenas. Renata Maia e Tiago Garcia interpretam os personagens que tentam reescrever suas histórias. Ela desenvolve impecavelmente o tom da voz e cria uma identidade para o papel, utiliza muito bem seu espaço e aproveita o olhar e a naturalidade de suas falas. Tiago tem falas mais engessadas, e cai na armadilha de engessar mais ainda o personagem. Ele fica rendido ao texto e desequilibra algumas cenas com a parceira. Falta nele o essencial para qualquer ator: naturalidade.

Paulo Tardivo e Gabriela Zenaro é um dos casais que encenam a vida reescrita de Elaine e Simon. Paulo vem crescendo gradativamente em seus papeis, mas ainda mantém oscilações. Ele brilha muito interpretando papeis mais caricatos, personagens totalmente diferentes dele mesmo. Quando precisa interpretar um cara comum, eis a pedra em seu sapato. Mas, essa é a cilada de muito ator. Ele usa muito bem o corpo e tom da voz. Foi responsável por grande parte do humor da peça, interpretando a versão paranormal de Simon. Gabriela alinha seu papel ao das outras duas atrizes, e as três funcionam juntas, com o mesmo tom de voz, com o mesmo jogo de corpo e a mesma graça. Ela arma a cama para o companheiro de cena como qualquer ator gostaria de ter. Permite que o parceiro se esbalde na cena, enquanto ela, finamente, delicia-se de seu texto.

Tiago Luchi e Luciana Garcia interpretam mais uma das hipóteses de como seria a nova história de Elaine e Simon. Mas, também vivem personagens de apoio, como garçons de lanchonetes. Luchi tem o ponto alto de sua participação, ele faz a versão de Simon como namorado de aluguel e insere uma lupa pontual em seu texto, destacando os pontos mais interessantes do personagem. Luciana entra no mesmo jogo de Renata e Gabriela, e as atrizes caminham na mesma atmosfera. Luciana tem uma elegância muito bela em cena, a dicção perfeita e um brilho discreto, que permite o alinhamento de todos os personagens.

A iluminação é certeira, e envolve climas aos quadros divididos no texto. A trilha sonora também é muito agradável e liga o texto às cenas. O cenário é feito com alguns praticáveis de madeira e mantém os tons azulados e amarelos que acompanham todos os elementos de cena, como também acontece com o figurino. Esse tom é importante, ele cria uma identidade ao espetáculo e parece que estamos vendo uma história milimetricamente cuidada e inédita.

"Roteirizados" está em cartaz no Teatro Augusta, em São Paulo, quartas e quintas, 21h. Os ingressos custam R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia-entrada).

Foto: Divulgação

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