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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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04/11/2015 13h55

Encantadora e feliz
Rachel Valença

Estou devendo aos meus leitores um relato da final de samba da Imperatriz, acontecida há uns 15 dias. Mas andei enrolada, a ponto de ter sido chamada de arrogante por um pesquisador que me pediu ajuda pelo Facebook e eu demorei dois dias para responder. Falta-me tempo, muito tempo.

Em falta, sobretudo, com os torcedores da Imperatriz, em especial com o muito querido Marcos Paulo, meu informante fiel, há anos, sobre todas as eliminatórias de sambas da escola de Ramos. Suas análises são perfeitas e isentas. Na hora de escolher um samba para torcer, ele se deixa levar única e exclusivamente pela qualidade: não tem amigo, não tem parente, não tem política. A ele só interessa um bom samba pra sua escola.

Parceria de Zé katimba. Foto: SRZD-Cristiane Moraes.

A final da Imperatriz foi a última da agenda 2016. Talvez por isso, estava muito cheia. Todo mundo parecia querer se despedir dessa etapa tão agradável e tão marcante do Carnaval, que é a escolha de sambas. Não é por acaso que vem gente de fora do Rio nessa época só para participar de umas três ou quatro finais. O chamado "mundo do samba" compareceu em peso à Imperatriz. Dava a sensação agradável de quadra cheia, mas não inviável. E eu me senti numa quadra de escola de samba.

Como é bonito ver uma quadra de escola de samba! Para quem é do tempo em que o centro da quadra era o espaço das pastoras e ninguém ousava invadi-lo, foi emocionante apreciar a evolução dos segmentos no centro da quadra: baianas, velha-guarda, uma harmonia atuante, coisas que, em finais de disputa de samba de enredo nas escolas do Especial, se tornaram raridade.

O único senão, para mim, foi a iluminação. Uma luz de boate, que nada tem a ver com o samba, mas que deve agradar aos modernos. Vá lá! Se é indispensável fazer concessões, que seja à iluminação. Porque o repertório foi impecável, começando pelo samba exaltação "Rainha de Ramos" ("Quem não sabe o que é o amor/ Não sabe o que é ser feliz"), passando pelos belos sambas antigos da escola e chegando aos mais recentes, com grande adesão do público presente.

Um capítulo à parte foi a apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois era a estreia do mestre-sala Rogerinho na escola. Muito bom o seu entrosamento com a porta-bandeira Raphaela, que usava um figurino country, muito de acordo com o enredo. E tudo sob as bênçãos dos imortais Maria Helena e Chiquinho, que deram seu show, para mostrar que não perderam nem perderão jamais a majestade.

No mais, a apresentação dos sambas concorrentes não fugiu ao que hoje se vê. Torcidas enormes, adereços de mão caprichados, palco lotado e muita animação. O resultado? Não podia ser melhor. Alegria geral. A escola tinha em sua safra deste ano uma obra-prima. Ignorá-la seria um crime. Mesmo com um enredo de qualidade discutível, mais uma vez a Imperatriz chegará, "encantadora e feliz, fazendo o povo sambar".

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Comentários
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    04/11/2015 19:39:24Marcos Paulo S FreitasMembro SRZD desde 02/08/2011

    Fala!!! Grande Rachel. Muito bom encontrar vc lá em Ramos. Saudade daquelas disputas do final dos anos 90, inicio do novo milênio ("2000, espero te ver a luz de um novo amanhecer"). Quadra muito cheia, ficou difícil nos encontrarmos depois. Obrigado pelas palavras. Muito bom ler, ainda mais qdo ouvimos coisas estranhas por aí. Super beijo.

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