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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

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04/11/2015 13h46

A história 'secreta' do Terreirão do Samba
Carlos Nobre

Um amigo nosso escreveu esse artigo contando a história do Terreirão do Samba, a ser editado na próxima edição impressa do jornal "Questões Negras".

A HISTÓRIA "SECRETA" DO TERREIRÃO DO SAMBA
por JOSÉ REINALDO MARQUES*

"Durante o carnaval, o samba da velha Praça Onze renasceu com o projeto Terreirão do Samba. Foi por lá que, bebendo e brincando, em meio a 76 barracas instaladas no quintal da escola Tia Ciata, o carioca resgatou um pouco da alegria dos carnavais antigos."

Essa foi a abertura de uma reportagem do jornal O Dia, assinada por Mônica Maia e Mônica Soares, sobre o Terreirão do Samba, na edição do domingo 16 de fevereiro de 1991.

Por isso, se me pedem para citar um carnaval inesquecível, não preciso fazer um grande esforço de memória para apontar o de 1991. Isto porque inauguramos um projeto inovador no calendário carnavalesco da cidade com apoio da Riotur.

O local escolhido não foi aleatório, pois a antiga Praça Onze "das famosas batucadas" é um marco da história do samba carioca, que resistiu a diversas ameaças de desaparecimento no contexto das intervenções urbanas ocorridas no Rio de Janeiro.

Inaugurado num sábado, 7 de fevereiro, em 1991, o Terreirão do Samba surgiu no cenário da Cidade Maravilhosa como um símbolo da cultura afrobrasileira que se desenvolveu no Centro da cidade, que fazia limites com o Cais do Porto e a Cidade Nova.

Uma área cuja ocupação - incluindo o Morro da Providência (a primeira favela do Rio de Janeiro segundo alguns historiadores) e o Morro da Conceição - contou com uma grande migração de famílias negras vindas da Bahia (bantos e yorubás), que ali foram se acomodando dando origem a um território formado por um grande contingente de afrodescendentes.

Esse ambiente foi batizado por Heitor dos Prazeres como a "Pequena África" - cuja capital na opinião do cineasta Roberto Moura era a Praça Onze - devido à contribuição singular que deu ao fortalecimento das culturas de matriz africana no Rio de Janeiro, em fins do século XIX e início do século XX.

A proposta de criação do Terreirão do Samba se baseou no fato de que era necessário criar um espaço alternativo, mas digno, para o sambista (desde os já consagrados até os mais jovens) apresentar a sua arte. E que durante o período carnavalesco se transformasse também em área de entretenimento gratuito para os milhares de foliões que não podiam pagar por um ingresso para assistir ao espetáculo das escolas de samba que desfilam na Avenida Marquês de Sapucaí, vizinha ao Terreirão do Samba.

Partimos do princípio de que era preciso resgatar a memória de importantes figuras da cultura afrocarioca que nos precederam. Tais como: Tia Ciata, Tia Carmem, Hilário Jovino Ferreira, João da Baiana, Donga, Bucy Moreira, Mestre Cazuza, Xangô da Mangueira, entre outros.

Na época, a nossa intenção era que o Terreirão do Samba pudesse também incentivar novas gerações de sambistas e valorizar a identidade que essas culturas conquistaram a partir da rica experiência anterior.

O projeto começou na antiga Assessoria de Carnaval da Riotur, nos anos 1990, na época liderada pelo Dr.José Messias Dias Filho - médico que pontuou sua passagem no mundo do samba -, cuja equipe envolvida no desenvolvimento do Terreirão do Samba era formada por este autor, Filó Filho, Sonia Regina Oliveira (neta de Donga), a José Carlos Machine (síndico da Passarela do Samba), Agnaldo Dias e Xangô da Mangueira.

O escritório da Assessoria de Carnaval ocupava um pequeno imóvel instalado próximo à quadra esportiva que atendia aos Cieps, na esquina da Av. Marquês de Sapucaí, com a Rua Benedito Hipólito, a 50 metros da Praça Onze, que naquela época era um ambiente mal iluminado, sem banheiros, inexistência de limpeza. A única atração do local eram as barracas tradicionalmente ali instaladas pelas Tias Baianas e as Velhas Guardas das escolas de samba, no período do carnaval.

Essa realidade chamou a minha atenção e a do Filó. Conversamos sobre aquela situação humilhante a que sambistas e foliões eram submetidos, realidade esta que precisava urgente de uma intervenção do poder público municipal, que, naquele momento, fazíamos parte. Comentei com o Filó sobre a possibilidade melhorar a iluminação da praça, dotá-la de banheiros e um palco para apresentação dos intérpretes de samba- enredo, durante o carnaval.

O Filó, que tinha produzido um evento no Renascença Clube, no Andaraí, chamado "Terreirão de Iaiá", com a sua criatividade, na mesma hora vislumbrou um novo cenário para a Praça Onze, livre de entulhos, com barracas típicas e samba de primeira. E completou: "Terreirão do Samba, Reinaldo, esse é o projeto!"

Voltamos eufóricos para a Assessoria de Carnaval da Riotur, para compartilhar com o Dr. José Messias e o resto da equipe a nossa ideia. O Messias acatou de imediato a nossa sugestão e nos orientou que fizéssemos uma boa justificativa para ele apresentar à diretoria da Riotur, cujo presidente à época era o advogado Trajano Ribeiro.

O Filó, que é engenheiro civil, imediatamente começou a fazer o traçado e a pensar na logística e infraestrutura que deveriam contemplar o Terreirão. Eu, jornalista, fiquei encarregado da produção dos textos de apresentação e de concepção do projeto, que seriam revisados e ajustados pela Sonia Oliveira, que, pela sua organização e visão holística seria encarregada na formatação do processo original do projeto.

Internamente, tanto na Riotur quanto na própria prefeitura, cujo prefeito na época era Marcelo Alencar, o Terreirão do Samba não foi de início unanimidade. Sofria críticas sobre o seu real potencial artístico e também era questionado do ponto de vista financeiro.

A nosso favor, tínhamos o apoio do Trajano Ribeiro, que gostou do projeto; o apoio de Mestre Cazuza da Mangueira, e a impetuosidade do Dr. José Messias, cujo dom para a negociação política foi fundamental para que conseguíssemos apoio externo dos próprios sambistas, lideranças do Movimento Negro e da iniciativa privada, para fundar o nosso Terreirão do Samba. 

Com a determinação do Dr. José Messias e o "sigam em frente do Trajano", conquistamos o apoio da Comlurb, que se comprometeu a fazer a limpeza da área; e da Secretaria Municipal de Fazenda, encarregada do licenciamento das barracas que seriam instaladas no Terreirão do Samba.

Se, por um lado, o presidente da Riotur estava suscetível à realização do projeto, ainda nos faltava o principal. Ou seja: convencer o então prefeito Marcelo Alencar de que o projeto era viável; que os gastos seriam recompensados pela imagem positiva que o seu governo passaria a ter entre os sambistas e junto a população carioca, amante do samba e do carnaval. Foi, então, que mais uma vez prevaleceu a articulação de Messias. 

No dia em que ele foi defender o projeto junto ao Marcelo Alencar, combinou com Alcione, sem que o prefeito tivesse conhecimento, que levasse à prefeitura um grupo de sambistas tradicionais, do qual fizeram parte Martinho da Vila, Beth Carvalho e a própria "Marrom".

Segundo uma fonte que participou do encontro, a reunião foi com o presidente da Riotur, Trajano Ribeiro; José Geraldo Machado, então diretor de operações do órgão; José Messias, Marcelo Alencar e alguns assessores. O debate ficou tenso.

Pressentindo que ia perder a parada, Messias habilmente se levantou, foi até a antessala e chamou os sambistas. Era o argumento que faltava: imediatamente o prefeito saudou os artistas e autorizou a liberação da verba que garantia a infraestrutura básica do Terreirão do Samba.

A partir dali, o projeto ganhou fôlego e mais apoios vieram. Como o dinheiro liberado pela prefeitura só era suficiente para garantir a construção do palco, instalações sanitárias e iluminação, o empresário Washington Maia, dono de uma rede de motéis, financiou as barracas típicas que foram instaladas na Praça Onze.

Terreirão do Samba. Foto: Divulgação

O cenário do Terreirão do Samba foi planejado com um arranjo de barracas dispostas em "ruas e becos" improvisados em homenagem a personalidades do mundo do samba e suas respectivas agremiações como Candeia, Cartola, Juvenal Lopes, Silas de Oliveira e Paulo da Portela.

Tia Ciata ganhou um destaque especial devido à sua liderança e representação sobre o papel da mulher na história da "Pequena África". A decoração foi executada pelo artista plástico José Paixão, que, em uma ação inusitada utilizou a habilidade de jovens alunos da Escola Municipal Tia Ciata, na confecção de painéis e adereços.

Mesmo com a chuva que desabou na cidade do Rio de Janeiro naquele ano, o lançamento do projeto foi um sucesso de público. E com a ajuda de Candonga, Delegado, Mestre Fuleiro, Waldir 59 e Xangô da Mangueira, o Terreirão do Samba conseguiu atrair a atenção de sambistas consagrados.

Um grande painel com o desenho da figura dos Oito Batutas foi a moldura do "Palco João da Baiana", por onde passaram Alcione, Agepê, Beth Carvalho, Jamelão, Jovelina Pérola Negra, Lecy Brandão, Martinho da Vila, Nei Lopes, entre outros, que embalaram o público acompanhados do grupo Samba Som 7, que fazia a base dos shows dos artistas que se revezavam para dar uma canja. O cantor e compositor Mombaça também foi uma das atrações da primeira edição do evento.

Na quarta-feira de cinzas, Sonia Oliveira se reuniu com os barraqueiros na Praça Onze, para fazer um balanço do projeto e ouvir sugestões. Acabou tendo a feliz ideia de aconselhá-los a criar uma associação. Ela argumentou que como pessoa jurídica, os barraqueiros teriam mais segurança para permanecer naquele espaço. E assim nasceu a Associação Cultural dos Barraqueiros do Terreirão do Samba.

Empolgados com a repercussão alcançada, resolvemos realizar o evento na sexta e no sábado das Campeãs. A divulgação ganhou força com a iniciativa da Associação dos Barraqueiros, que arrecadou verba para pagar chamadas na Rádio Tropical.

De novo, tivemos a confirmação de que o Terreirão do Samba tinha agradado ao público, que mais uma vez aplaudiu a iniciativa. Entre os sambistas, a opinião não foi diferente. Jamelão e Mestre Marçal disseram ao jornal O Dia que achavam que o projeto era uma vitrine para os artistas do mundo do samba.

Ressaltando que um dos aspectos mais interessantes do Terreirão era a valorização do sambista, na mesma reportagem, Manaceia lembrou as dificuldades que compositores como ele tiveram que enfrentar para expressar a sua arte. "O sambista sempre encontrou dificuldade. O compositor de hoje pode ter mais caminho, e o Terreirão do Samba é um deles", disse o sambista que é um dos baluartes da Velha Guarda da Portela.

Em 2016, o Terreirão do Samba completa 25 anos de fundação, e acho que deveria ser aberto ao público que visitará a cidade, durante as Olimpíadas, como mais uma boa opção de entretenimento que o Rio de Janeiro tem a oferecer aos turistas, nacionais e estrangeiros, que desejam conhecer nossas raízes culturais.

Por se tratar de um espaço dedicado a uma das mais importantes vertentes das manifestações populares do Brasil, o Terreirão do Samba também é um dos bons exemplos da capacidade que o carnaval carioca tem de se reciclar, sem violar ou deixar no esquecimento as suas mais importantes tradições. Como escreveu o saudoso Albino Pinheiro, "o Terreirão do Samba abriga samba de verdade".

*Jornalista e um dos autores do projeto Terreirão do Samba


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