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24/11/2015 13h57

Carnaval Japão: há dez anos, carnavalesco japonês desenvolve enredos para o Asakusa Samba Carnival
Redação SRZD*

Há dez anos, Yasuwo Mitadera elabora e executa enredos para as agremiações que se apresentam no Asakusa Samba Carnival, o maior desfile de escolas de samba fora do Brasil. A festa, que acontece desde 1980 no mês de agosto, reúne cinco mil sambistas e atrai milhares de espectadores para as ruas do Bairro de Taito, na capital japonesa. Mitadera, nascido na cidade de Koganei, em Tokyo, é um dos muitos artistas japoneses que se envolveram com as escolas de samba por acaso.

Como passista. Estilo afro. Fotos: Taka Takahashi

Atraído pela bateria

O carnavalesco chegou ao samba em 2005 através de seu professor de dança, que frequentava os ensaios de uma escola em Tokyo. Ele afirma que foi atraído pelo som da bateria. "Era um gênero de música que nunca tinha ouvido e, realmente, mexeu comigo", conta. Naquele mesmo ano, desfilou em uma ala de par coreografada e deu opiniões sobre as fantasias. Nos dois anos seguintes, Mitadera continuou desfilando em alas, mas já iniciou seus primeiros traços carnavalescos elaborando figurinos e protótipos. Para ele não foi tão difícil já que dominava algumas técnicas de design de indumentárias. Só lhe faltava entender a linguagem visual do carnaval carioca.

O material produzido ficou tão bom que, em 2008, foi convidado para participar da Comissão de Carnaval da escola, dividindo a função da elaboração dos figurinos e protótipos com outra carnavalesca. Neste mesmo ano também desfilou na comissão de frente.

Um pouco mais seguro de seu trabalho, Mitadera arriscou e, em 2009, apresentou pela primeira vez um enredo de autoria própria, "Amazônia", que ficou em segundo lugar na "Disputa de Enredos". No Japão, algumas escolas permitem que todos os membros participem da escolha do enredo. Vários temas são apresentados no ensaio, com o esquema de desfile e alguns figurinos. Os componentes assistem as apresentações, que é seguida de votação. O enredo vencedor vai para avenida, sendo seu autor o responsável pelo desenvolvimento estético do carnaval. Todo o trabalho é voluntário. Não há remuneração. Uma prova da paixão dos japoneses pelo carnaval.

Composição guardião do templo. Comissão de frente budismo hindu. Fotos: Divulgação

Ainda em 2009, Mitadera desfila de passista. Após o carnaval, ele se desliga da sua primeira agremiação e, em 2012, passa a fazer parte do grupo de designers do GRES Alegria, escola conhecida por sua irreverência nos desfiles. Em 2013, pela primeira vez, um enredo seu é escolhido para ir à avenida: "Alice é só Alegria em Asakusa", uma releitura do clássico da literatura universal "Alice no País das Maravilhas", que conquista a quarta colocação para a escola no Asakusa Samba Carnival. Em 2014, sua proposta de enredo não é escolhida e ele fica encarregado da produção das fantasias. Em 2015, retorna como carnavalesco com o enredo "Sincretismo Budista: a Alegria vem na fé", encerrando sua participação naquela segunda escola.

Analisando as diferenças

Conforme foi se interessando pelo samba, Mitadera foi também conhecendo as agremiações cariocas. "No início simpatizei com o Salgueiro, pelo estilo de suas passistas de dançar e por sua bateria. Depois conheci a Imperatriz Leopoldinense dos anos 90 e me encantei pela bateria. Mais maduro e acostumado com o universo carnavalesco, passei a apreciar a Portela. As passistas não usam muita coreografia e é possível identificar por trás da evolução delas as tradições do samba", analisa o artista. Também são da Portela, do Salgueiro e do Império Serrano os sambas de enredo que mais o agradam. "Confesso que não conheço muito porque não falo português e entrei no carnaval há pouco tempo. Mas gosto muito dos sambas das décadas de 70 e 80", afirma.

Alegoria budista. Imagem: Divulgação

Conhecedor das limitações do carnaval japonês, o carnavalesco arrisca uma análise. "Não dá para imitar. Os desfiles do Japão e no Rio são muito diferentes. Lá a expressão, a grandiosidade, a produção e o investimento são muito maiores", compara. "Além disso, como as escolas cariocas têm muita gente e muitas alas, é mais fácil desenvolver desfiles cujos enredos sejam históricos ou lineares. No Japão, esse estilo de desenvolvimento de enredo é muito complicado porque temos pouca gente desfilando e poucas alas. Por isso, aqui no Japão as fantasias deixam de expressar situações ou acontecimentos, e se resumem mais em definir personagens. Os temas são mais fechados. Mesmo com nossas dificuldades, eu prefiro me esforçar para mostrar temas cujo enredo conte uma história", explica. Foi com essa determinação que Mitadera desenvolveu um desfile sobre a história do budismo, em 2015, para o GRES Alegria.

Animismo sul-americano

Mitadera acha que o Brasil tem uma cultura única e que se destaca entre a cultura animista da América Espanhola (animismo é a visão do mundo em que entidades não-humanas possuem uma essência espiritual). "A proximidade geográfica entre os países sul-americanos e a distinção entre suas culturas é muito interessante. Além do samba, me interesso por webdesign, pela moda e pela arquitetura brasileira. Acredito que o país seja vanguarda nesses setores, sem perder suas tradições", afirma o designer.

Apesar de conhecer os segredos da profissão de carnavalesco, Mitadera se autoclassifica como passista. Ele gosta de dançar como as mulheres, mexendo os quadris e fazendo pose com as pernas, vestido de penas e o corpo à mostra. "Para os brasileiros, eu pareço gay. Não me importo. Esse é meu estilo. Gosto assim", confessa. Caracterizações à parte, ele se considera fã do Carlinhos do Salgueiro e está sempre vendo vídeos do passista no "YouTube". Mas apenas para aprender um pouco.

Atualmente sem escola, o carnavalesco espera uma chance para dar continuidade ao seu trabalho, se espelhando sempre no carnaval carioca e tentando superar as dificuldades de se realizar a "festa maior brasileira" em solo nipônico.

Camisa do enredo 2015. Foto: Divulgação.

*Marcello Sudoh é colaborador do SRZD-Carnaval no Japão.

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