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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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27/11/2015 12h03

'O Mago das Cores'
Rachel Valença

Desde 1966, o Museu da Imagem e do Som vem registrando depoimentos de vultos marcantes de nossa cultura. Hoje, são mais de mil depoimentos gravados: antigamente em áudio, hoje em áudio e vídeo. O que muita gente não sabe é que a série Depoimentos para a Posteridade abriga preciosos documentos de sambistas, que ajudam a reconstituir a fantástica trajetória do gênero.

Lá João da Baiana, Ismael Silva, Natal da Portela e muito mais gente nos relatam fatos curiosos, heroicos, pitorescos, comoventes. Material indispensável para entender como se formaram e como evoluíram as escolas de samba cariocas.

Foto: Caru Ribeiro

Mas o samba não é só passado. Ele está vivíssimo e urge documentá-lo. Daí os Depoimentos para a Posteridade continuarem a registrar, ao lado de gente de teatro, cinema, TV, dança, música popular e clássica, literatura, artes visuais, também depoimentos de pessoas que na atualidade fazem Carnaval. Ano passado lá esteve Rosa Magalhães. Esta semana foi a vez do veterano Max Lopes gravar seu depoimento. Engraçado, denso, emocionante e muito importante.

Desde sua estreia na pequena Unidos de Lucas em 1976, obrigado a lidar com uma escola ainda convalescente de uma fusão desastrada entre Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela, totalmente carente de recursos, Max aprendeu a conviver com a adversidade, mas sem perder jamais a alegria. Sem ela, não há Carnaval. Seu relato mescla a sujeira, a pobreza, a precariedade dos barracões da fase heróica das escolas de samba a histórias engraçadas, picantes e irreverentes, que seu inquebrantável bom humor guardou por tantos anos.

Em meio a tudo isso, muitos assuntos importantes foram tratados: em que medida o carnavalesco deve se envolver na escolha do samba de enredo; como lidar com a questão do patrocínio, que, se dá ao artista mais recursos para pôr em prática suas ideias, em compensação muitas vezes cerceia sua criatividade com a imposição de enredos absurdos, como o da Mangueira em 2005; a eventual necessidade de dialogar com o poder paralelo que tenta dominar algumas das comunidades em que se faz samba; e até a importância da iluminação para a beleza de um carro alegórico. O que fica patente é quão vária e absorvente é a atividade de um carnavalesco.

Foto: Caru Ribeiro

A este tijucano de família avessa ao samba, ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que deu seus primeiros passos no Carnaval como passista no Salgueiro, e que foi, como tantos outros, aprendiz do mestre Fernando Pamplona, nunca faltou coragem para enfrentar dificuldades de toda ordem.

O que salta aos olhos é uma incrível capacidade de convencer os que o cercam de suas ideias: ritmistas que se recusam a usar certa indumentária ou determinada cor, presidentes que teimam em não enxergar o caminho a seguir ou o samba a escolher, e tantas outras situações que se repetem no cotidiano das escolas. Max foi corajoso e inovador ao ousar mexer e brincar com as sagradas cores da Estação Primeira, escola em que fez dez Carnavais, sagrando-se por duas vezes campeão (1984, o supercampeonato, e 2002). A coragem lhe valeu o título de Mago das Cores.

Afora esses dois títulos, foi campeão pela Imperatriz Leopoldinense com "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós", deixando em segundo o antológico "Ratos e urubus" de Joãosinho Trinta. Curioso que, desse desfile, o carro de que fala com mais entusiasmo não é do espetacular cavalo que todos guardamos na memória, mas sim o da águia, símbolo da República, que tanto mexeu com os brios portelenses...

Até mesmo os episódios mais dolorosos, como o do enredo Lamartiníada, que preparava para o Salgueiro para o Carnaval de 1979 e que acabou migrando para a Imperatriz em 1980, mas com outro título e outro carnavalesco - episódio que o afastou do Carnaval, desgostoso, por alguns anos - não são narrados com ressentimento. Só com emoção e uma lágrima furtiva. Max está de bem com a vida. Fala com orgulho de tudo que sua arte lhe deu: além de bens materiais, a alegria de trabalhar em equipe e de poder dividir com outros aquilo que aprendeu. E conta que gosta de desfilar fantasiado, no meio da escola. Segundo ele, na hora do desfile o carnavalesco não faz falta.

Sabe que ele tem razão? O que anda fazendo falta não é carnavalesco mostrando seu poder e sua sabedoria: é o amor ao Carnaval, a alegria de brincar, de participar, de se fantasiar, de sambar no pé. Tudo que Max Lopes mostrou ter de sobra.

Foto: Caru Ribeiro

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