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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



09/12/2015 17h22

Inaugurada Casa do Jongo da Serrinha
Carlos Nobre

Dança onde os participantes improvisam o corpo e os versos, dando umbigadas, numa roda animada, ao som de atabaques, o jongo se firmou no subúrbio durante a chegada de afrodescendentes da região do Vale do Paraíba para o Rio de Janeiro, no início do século XX. 

Casa do Jongo da Serrinha. Foto: Carlos Nobre

Os bairros onde se desenvolveu foram os morros de São Carlos, Salgueiro, Mangueira e Serrinha. Com o passar das décadas, o jongo quase que desapareceu no Rio de Janeiro. Mas, na Serrinha, ele cresceu, e por isso, se tornou no maior reduto desta manifestação afro na cidade.

Há sete dias, estive presente na inauguração da Casa do Jongo, na Rua Compositor Silas de Oliveira, em Madureira, que contou com a presença de diversos grupos artísticos, além, é claro, dos próprios jongueiros. Do início da rua até o local onde fica a Casa do Jongo, foi criada uma espécie de desfile de sambistas e jongueiros.

A concentração começou nas esquinas das Ruas Silas de Oliveira com Edgar Romero, na subida da Serrinha, onde nasceu a escola Império Serrano. Passistas, baianas, integrantes da Velha Guarda, ritmistas e casais de mestre-sala e porta-bandeira mostravam impaciência para entrarem em cena. Quando veio a ordem para o desfile começar, os tambores dos blocos entraram em cena e os corpos iniciaram o movimento de danças afro.

Maura Luísa e Matheus. Foto: Carlos NobreDe repente, a rua é tomada por mais foliões.

Ou seja, a eles se juntam dois casais de mestre-sala e porta-bandeira: Agata, 10 anos, e Fernando, 12, e também Maura Luisa, 30, e Matheus, 19, que bailam na rua, com movimentos envolventes, num utópico duelo de corpos entre o masculino e o feminino.

Por volta de metade da manhã, a festa começa a definir sua tradição quando um grupo de homens e mulheres do Império Serrano forma uma procissão de umas 25 pessoas.

A caminhada, ao som de atabaques, é liderada por Dona Maria do Jongo, 94 anos, e pelo seu filho Ivo Mendes, 70 anos, vestidos de branco, que sobem a rua em direção à Casa do Jongo, que será inaugurada dentro em pouco.

Dona Maria do Jongo e seu filho. Foto: Carlos Nobre

O estilo imperial de mãe/filho chama atenção dos presentes. Por sua vez, os moradores da Silas de Oliveira abrem as salas para apreciar os folguedos.

Mais atrás, o terceiro casal de mestre-sala e porta-bandeira sobe a rua só envergando o pavilhão do Jongo da Serrinha.

"Esse é um dia muito feliz para mim", diz Dona Maria do Jongo, fundadora do Império Serrano, juntamente com os filhos. Ela começa a falar da importância da dança para a comunidade e diz que tudo vem da ancestralidade.

Ivo Mendes explica que a vitalidade da mãe, aos 94 anos, é devido a "essa coisa de ser negro, de ter muita resistência e não ficar abatido". Ela tem dois filhos, quatro netos e quatro bisnetos.

O som dos tambores aumenta na rua.

Surgem mais blocos, alguns femininos, cujas alas mesclam quatro cores nas fantasias. Os blocos tentam alcançar o pelotão de vanguarda de Dona Maria do Jongo. Atrás deles, veio grupo de foliões do jongo: mulheres, em geral, jovens, em cima de pernas de pau, dando um ar circense ao evento. Por fim, os grupos param em frente a duas barracas.

Ali, ocorrem apresentações de dançarinos do jongo.

Instalada em um espaço com cerca de dois mil metros quadrados, a Casa do Jongo contará com salas administrativas e para o ensino de cursos, além de espaço para exposições, cineclube, lojas, horta comunitária, terreiro para rezas e terreiro para jongo e capoeira.

Segundo Dione Boy, coordenadora da Associação Cultural Jongo da Serrinha, o local era um galpão abandonado e agora se transformará num espaço de muitos encontros, de beleza, de cultura.

O jongo foi tombado pelo IPHAN como o primeiro bem imaterial do Estado do Rio.


Comentários
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    12/01/2016 22:57:04Belforroxense IguassuanoMembro SRZD desde 14/01/2013

    Meu Império Serrano, a que ponto chegou? Tanto fizeram que conseguiram! Colocaram a agremiação numa situação vexatória. Corre o risco de sucumbir. Estamos testemunhamos a queda de braço entre politiqueiros em escala nacional, Congresso x Palácio do Planalto. Não se importam se estão quebrando o país. O mesmo acontece, em uma escala menor, dentro do Império Serrano. Esses politiqueiros não irão descansar em quanto não acabarem com a escola. É lamentável saber que o Império Serrano de verdade, hoje, só existe na memória.

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    17/12/2015 11:27:52carlos nobre cruzAnônimo

    Parabéns pelas suas observações. O que ocorre é o seguinte fenômeno: o desfile das escolas atingiu níveis hollywoodianos, mas as relações de produção do carnaval continuam arcaicas. Você expressa isso nesse texto. Não é de agora que isso rola. Somente com organização os trabalhadores do carnaval podem almejar algum beneficio. abraços.

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    11/12/2015 08:50:46Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Reproduzo aqui o meu comentário, em outro site, sobre a notícia informando ter sido criada a primeira Orquestra de Agogôs do Brasil. Parabéns à iniciativa do ritmista-diretor e agora maestro regente Sidcley Fernandes. O comentário que critica como ´terceirização´ (sic) alguém ter que pagar para desfilar em ala de agogôs na bateria ou bateria-orquestra de escola de samba. Além de tal comentário não ter provado nada, o substantivo (terceirização) é usado inadequadamente. O debate deve ser se as apresentações desta pioneira orquestra serão amadorísticas ou profissionais. Defendo que sejam profissionais, justas e à altura do talento do citado ritmista, diretor e agora maestro regente de orquestra. O que não pode é o que ocorre em certo site do mundo do samba que anda explorando profissionais do meio como mão-de-obra barata, quando tais especialistas são usados sob os apelidos de blogueiros e ou vídeos-blogueiros. Tais sambistas acabam ocupando amadoristicamente espaços pertencentes aos profissionais de Comunicação Social, obviamente que tenham a imprescindível especialização em mundo do samba e Carnaval. Tudo, para que do ponto de vista da consciência de classe & sindical enquanto artistas-trabalhadores que são os sambistas se conscientizem e busquem se organizarem unificada e nacionalmente em um único sindicato. Por exemplo, conforme os patrões das empresas de Comunicação Social e das Indústrias Gráficas organizados nas poderosíssimas Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e Associação Nacional de Jornais e revistas (ANJ). Ou seja, para que não ocorra com os trabalhadores-artistas inclusos os sambistas, a divisão sindical que há entre gráficos, jornalistas e radialistas, notadamente, assim como com os demais dos citados ramos da produção nacional. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    11/12/2015 08:50:46Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Reproduzo aqui o meu comentário, em outro site, sobre a notícia informando ter sido criada a primeira Orquestra de Agogôs do Brasil. Parabéns à iniciativa do ritmista-diretor e agora maestro regente Sidcley Fernandes. O comentário que critica como ´terceirização´ (sic) alguém ter que pagar para desfilar em ala de agogôs na bateria ou bateria-orquestra de escola de samba. Além de tal comentário não ter provado nada, o substantivo (terceirização) é usado inadequadamente. O debate deve ser se as apresentações desta pioneira orquestra serão amadorísticas ou profissionais. Defendo que sejam profissionais, justas e à altura do talento do citado ritmista, diretor e agora maestro regente de orquestra. O que não pode é o que ocorre em certo site do mundo do samba que anda explorando profissionais do meio como mão-de-obra barata, quando tais especialistas são usados sob os apelidos de blogueiros e ou vídeos-blogueiros. Tais sambistas acabam ocupando amadoristicamente espaços pertencentes aos profissionais de Comunicação Social, obviamente que tenham a imprescindível especialização em mundo do samba e Carnaval. Tudo, para que do ponto de vista da consciência de classe & sindical enquanto artistas-trabalhadores que são os sambistas se conscientizem e busquem se organizarem unificada e nacionalmente em um único sindicato. Por exemplo, conforme os patrões das empresas de Comunicação Social e das Indústrias Gráficas organizados nas poderosíssimas Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e Associação Nacional de Jornais e revistas (ANJ). Ou seja, para que não ocorra com os trabalhadores-artistas inclusos os sambistas, a divisão sindical que há entre gráficos, jornalistas e radialistas, notadamente, assim como com os demais dos citados ramos da produção nacional. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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