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Nyldo Moreira

Nyldo Moreira

TEATRO E MÚSICA. Jornalista, especializado em cultura e economia. Ator e autor de peças de teatro. Apresentou-se cantando ao lado de artistas, mas não leva isso muito a sério. Pratica a paixão pela música em forma de textos e críticas. Como diretor, esteve a frente de dois curtas, um deles que conta a vida no teatro. 

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15/12/2015 13h52

O claustrofóbico e pontual 'Oleanna'
Nyldo Moreira

Foto: DivulgaçãoOs atores do espetáculo abrem, aos finais das apresentações, um diálogo com a plateia para discutir sobre o que foi visto. "Claustrofóbico", foi como um espectador descreveu "Oleanna". E realmente, com todo o louvor, é essa a palavra representativa. "Oleanna", o texto de David Mamet, dirigido por Gustavo Paso, incita, agonia, incomoda demais, por ser impecavelmente estruturado. As cenas adentram ao nosso pensamento e nos acorrentam nas poltronas, para causar uma profunda reflexão a respeito da incomunicabilidade entre os humanos. Como pode em um diálogo de dois personagens haver tanto déficit de comunicação, tantos equívocos? Há, sim! Em nosso cotidiano isso é recorrente e problemático! Em "Oleanna" tem um final destruidor.

Fernando Vieira interpreta um professor universitário, com toda sua atmosfera de provedor da educação e detentor de seu tempo e intelecto. Luciana Fávero dá vida a uma aluna que dificilmente consegue compreender as aulas de seu docente. Pouco conseguiu absorver da leitura do livro escrito pelo professor e sua resenha acabou prejudicada. A problemática da comunicação entre o professor e a aluna extravasam as aulas e os dois passam a não se compreenderem no próprio gabinete do docente. O que o professor diz é amplamente deturpado pela aluna, que tira o controle do professor ao denunciá-lo para um comitê na Universidade Oleanna.

O texto funciona muito bem cumprido pela equipe de produção e pelos atores como uma válvula de espasmo injetada no público. O diálogo vai nos deixando inquietos, com as pernas balançando, com vontade de subir ao palco e esclarecer os problemas naquela conversa. A costura do texto não tem fio sobrando, não tem fio faltando. É exata! E apesar de ser atemporal cai como uma luva nas mãos da atualidade.

Durante a temporada em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo, dois atores intercalaram o personagem do professor. Em algumas apresentações, Miwa Yanagizawa, e em outras Fernando Vieira. Assisti a última sexta feira em cartaz, com Fernando Vieira.

Luciana Fávero sabe como usar seu tempo em cena, sua marcação nas cenas é resultado de um profundo trabalho de imersão no texto e de uma consistente direção, que também coloca-se como público para direcionar seus atores. Luciana é a grande responsável por espetar no público as agulhas da incomunicabilidade, de sua maldade e até de sua sucinta razão sobre aquele professor afoito para resolver seus problemas externos.

Fernando Vieira, o professor afoito para resolver seus problemas externos (que giram em torno da compra de uma nova casa com sua esposa), descarrega junto ao texto uma genuína carga dramática. Abusa das expressões selecionadas na gaveta de um impecável ator de teatro. Fernando respeita os tempos do texto e insere neles desenhos faciais como se os descrevessem em palavras.

A luz é de uma simplicidade luxuosa, o cenário é funcional e parte importante do diálogo, pois um depende do outro para a dinâmica das cenas. Toda a produção, direção e atuação adentram como uma fina linha dentro de um furinho de agulha e saem espetando sem medo, porque sabe que vai costurar muito bem!

'Oleanna' esteve em cartaz no Teatro Eva Herz, em São Paulo, e terminou sua temporada na capital no último final de semana.

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Comentários
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    15/12/2015 16:10:43Suzy RêgoAnônimo

    Nyldo, como é saboroso ler suas críticas teatrais, você vai bem além do que mergulhamos com belos espetáculos, você traduz a montagem como um todo, com um olhar elucidador e entusiasmado pela arte cênica. Parabéns, mais uma vez.

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