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Ricardo Nicolay

Ricardo Nicolay

CARNAVAL. Antropólogo, jornalista e quase geógrafo. Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Getúlio Vargas, mestre em Comunicação e doutorando em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Autor do livro "Território, rede e cultura da tradição - o fado do século XIX no mundo do século XXI". Colaborador do Departamento Cultural da Unidos de Vila Isabel. Apaixonado pela Vila Isabel e devoto fiel dos santos do Carnaval.

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17/12/2015 14h05

Cultura popular rendida: desfiles de escolas tradicionais fora da TV
Ricardo Nicolay

Em plenária realizada na última quarta-feira na sede da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), a Rede Globo de Televisão anunciou que quatro escolas de samba do Grupo Especial não terão os seus desfiles transmitidos ao vivo no carnaval de 2016. A maior emissora televisiva do país e o 17º maior conglomerado de mídia do mundo, segundo ZenithOptimedia, empresa especializada em marketing, mais uma vez deixará de televisionar o maior espetáculo de CULTURA POPULAR do Brasil para dar lugar à realities shows e telejornais que retratam "o show da vida". Sendo assim, informamos, com o mais profundo pesar, aos torcedores e amantes da Estácio de Sá, da Unidos de Vila Isabel, da União da Ilha do Governador e do Acadêmicos do Salgueiro que podem deixar as suas expectativas de lado e esperar por compactos de apenas 20 minutos transmitidos antes do desfile da terceira escola.

Ora, o que podemos tirar de uma situação como esta, que vem se repetindo com uma certa frequência? Por que não enxugar um pouco a programação da emissora durante 2 dias do ano? Afinal, ela ainda terá 363 dias para compensar a "perda" de não transmitir o "Fantástico" por inteiro, ou então uma eliminação importante (ou a grande prova do líder) no "Big Brother"! É bem verdade que a audiência televisiva dos desfiles e a vendagem dos CDs com os sambas de enredo vêm diminuindo, e, a esses fatos, podemos levantar inúmeras hipóteses, como a forma como são transmitidos (e comentados, principalmente), deixando muito a desejar quando colocamos em comparação todo o trabalho desenvolvido ao longo do ano para uma escola colocar o seu carnaval na rua; a qualidade e as formas de divulgação dos sambas de enredo; as chamadas para os desfiles (as famosas vinhetas), cada vez mais velozes e reduzidas à uma percentagem mínima de componentes das agremiações; dentre outros muitos fatores.

Foto: Riotur

O que mais espanta nisto tudo é que há uma mobilização muito maior por parte da imprensa carnavalesca em se manifestar contra a ditadura dos pacotes televisivos que são impostos para passarem por cima da nossa CULTURA POPULAR. Enquanto isso, ouvimos um silêncio quase que poético por parte da Liesa e das próprias escolas de samba, que nada fizeram para impedir um descaso como este, sendo subservientes a toda e qualquer "orientação" vinda da TV Globo. Por quê? Apenas pelo dinheiro que as escolas recebem pelos direitos de propaganda? Em tempos de crise, qualquer centavo está valendo, mas, até que ponto estes centavos não estão vindo para a cada ano que passa esconder ainda mais uma das maiores e tradicionais manifestações culturais do Brasil?

Se o capitalismo que dita regras, por que não abrirmos espaço para a livre concorrência - característica clássica do modelo capitalista - para a transmissão televisiva do Carnaval do Rio de Janeiro? O que legitima, então, não haver concorrência já que, pelo visto, o que vem regendo toda esta orquestra é o capital? A prosperidade do capitalismo é viabilizada e potencialmente mais forte quando se é aberta a livre concorrência. Havemos de lembrar que o Brasil não possui apenas uma emissora de televisão capaz de transmitir o desfile das escolas de samba do nosso grande espetáculo chamado Carnaval.

Em suma, muito me entristece ter a certeza de que estamos perdendo espaço enquanto CULTURA POPULAR para grandes modelos televisivos de sucesso. Com todas as críticas ao capitalismo no que tange à minimização da cultura, podemos encontrar formas mais produtivas e novos modelos para a transmissão das manifestações culturais pelas grandes indústrias mundiais de mídia. Mas, antes de agirmos, devemos nos conscientizar e expor o grave problema de submissão ao qual o Carnaval está se deixando levar. Para o filósofo esloveno Slavoj Zizek, nada garante que revoluções derrubarão a ordem atual em que as coisas se encontram, mas tudo depende das nossas atitudes.

Ainda mantenho o meu "Eu" naif que acredita que nem tudo está perdido!

Leia mais sobre o assunto:

- Desfiles da Estácio, Vila, Ilha e Salgueiro não serão transmitidos na TV

- Medo? Sobre a não transmissão: escolas evitam falar sobre o assunto

- Eu só queria entender...

- Carnaval 2016: transmissão atravessada

 

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Comentários
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    23/01/2016 03:26:42Felipe Porto AlegreMembro SRZD desde 23/01/2016

    Primeiramente um salve a toda família salgueirense e a toda família do samba. Venho por meio deste lamentar o assassinato do nosso querido samba. Foi-se o tempo em que eu variava a madrugada ansioso pela entrada do meu Salgueiro na avenida e aos prantos assistia empolgado o desfile de minha escola. Passo 365 dias do ano escutando sambas de enredo, vendo notícias, acompanhando os passos inclusive das outras escolas, resumindo, eu amo samba. Esta noite chorei ao saber que não poderei assistir minha escola pela TV pelo fato de a emissora que recuso dizer o nome "inovar" na transmissão do carnaval, deixando de transmitir 4 desfiles. Decisão ridicula e para piorar vai mostrar um compacto de 20 minutos do desfile de uma das favoritas? E ninguém vai contra essa decisão? Cadê a Liesa e as presidências das escolas? A toda poderosa está sufocando nosso samba de uma tal maneira que quer nos fazer acreditar que Thiaguinho é sambista. Essa emissora medíocre já assassinou o nosso samba e está nos fazendo digerir o seu cadáver.

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    22/12/2015 00:05:38augusto cesar da conceição alvesMembro SRZD desde 13/10/2010

    Não sei o que falar em relação a isso...primeiramente acho que a Riotur o órgão maior da instituição CARNAVAL deveria reivindicar uma regra para que isso aconteça. E alegar que os comentaristas são fracos e dar sugestões tais como: MARIA AUGUSTA,MIRO TEIXEIRA,AROLDO COSTA,MILTON CUNHA E MESTRE JORJÃO OU CIÇA. E pedir para toda poderosa que a parte de reportagem seja de grande qualificação de informações,pois quase todos aqui no Rio já sabem o tipo de materias os carros usam....fale sobre os Carros e o que eles significam dentro do enredo,falar de ala por ala etc......AH! prefiro o SCOBAR do que Thiago e a Fátima,pois cada um no seu quadrado. E o Scobar se supera na transmissões do acesso e vc ver que o cara correu atrás,leu a sinopse e dar o recado informativo de cada enredo.

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    18/12/2015 14:11:11PauloMembro SRZD desde 16/03/2010

    Carlos, concordo com tudo que você disse. Transmissão péssima e as escolas aceitam isso. A Manchete tinha uma equipe excelente e que dava aula de comentários. Se alguma coisa não for feita, daqui a pouco nem transmissão vai ter.

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    17/12/2015 19:54:40carlos henriqueMembro SRZD desde 07/02/2010

    A Globo tem um monopólio absurdo de uma festa popular que é parcialmente financiada pelo dinheiro público.A transmissão está a cada ano piorando, com análise de pessoas que não são ligadas ao mundo do samba. Posso citar por exemplo o Thiago Leifert, o que este ser entende de samba? Quando vão acabar com este monopólio. Será que não há meios jurídicos de impedí-lo? Uma liminar? Um decreto ou medida provisória de alguma autoridade, ou do povo? Algo deve e tem que ser feito e o momento é esse, pois além de não transmitir mais o desfile das campeãs, esta emissora ainda está amputando parte do desfile, de 12 escolas só 8 serão transmitidas ao vivo, ou seja, 1/3 dos desfile não será transmitido para que possamos ver a "EXCELENTE" programação desta emissora. Isso é um absurdo! Abaixo o monopólio da GLOBO!

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