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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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17/12/2015 19h23

Eu só queria entender...
Rachel Valença

Há coisas que eu vou morrer sem entender. Uma delas é por que a Liesa, que representa todas as escolas do Grupo Especial, não defende os interesses de todas de forma igualitária. Exemplo: acaba de ser anunciado que a Rede Globo, que tem contrato de exclusividade de transmissão do desfile das escolas de samba, não transmitirá ao vivo o desfile de quatro agremiações filiadas à Liesa.

Só para entender: em quê Estácio, União da Ilha, Vila Isabel e Salgueiro diferem das demais oito? Se a transmissão do desfile é negociada entre a Liesa e a Globo, que interfere até no horário de início da festa, por que motivo nossa Liga permite que quatro de suas filiadas sejam tratadas como mercadoria de segunda classe, com seu desfile compactado em 20 minutos?

Foto: Reprodução de Internet

Bem sabemos o enorme sacrifício que as escolas de samba vêm fazendo, em meio a uma reconhecida crise, para proporcionar ao público um espetáculo à altura das expectativas. Não é novidade, também, que a transmissão representa para a maioria das pessoas a única possibilidade de assistir ao desfile, já que os preços dos ingressos são incompatíveis com orçamentos combalidos. Se a poderosa Rede Globo não se interessa em transmitir o desfile todo, por que motivo negocia exclusividade? É simples. Porque sabe que, se outra emissora transmitir, sua programação será preterida. Assim foi, no passado, quando a Rede Manchete e a TVE tinham coberturas que davam um banho na Globo. Enquanto não detonou essas transmissões, a Globo sossegou.

Convenhamos: além de muita arrogância, é um desrespeito ao carnaval e ao samba do Rio de Janeiro. A tradução literal desse gesto é: "Eu tenho dinheiro, eu posso pagar, é meu direito não transmitir. Pago para que ninguém possa assistir!".

Que a Rede Globo pense e aja assim não me surpreende. O que não posso entender é por que as escolas de samba, por intermédio de sua entidade representativa, aceitam isso? Lembro-me dos debates a que assistimos durante o evento Carnavália-Sambacon deste ano. Num deles, numa mesa em que se tratava justamente da transmissão, quando severas críticas foram feitas à Globo, o presidente Jorge Castanheira, sempre educado, afirmou: "A Globo não é um mal, é uma grande parceira das escolas de samba". Desculpe, presidente, com todo o respeito pergunto: não é um mal para quem? Salgueiro, Estácio, Vila Isabel e União da Ilha, será que também a consideram parceiras?

Creio que quando fazemos um contrato de concessão, não levamos em conta apenas valores, pensamos na qualidade do serviço que será prestado. Na hora da assinatura, não se impõe como condição a transmissão da íntegra do espetáculo? Não se prevê uma multa por escola que deixe de ser transmitida? Afinal, quais os interesses que a Liesa defende, os da Globo ou os das suas filiadas, de todas elas? Há muito tempo percebo que não são os interesses do público em geral que ela defende, mas já nos acostumamos a isso. Mas trair os interesses das próprias escolas que a compõem já é demais.

Pelo visto, não há cláusulas que nos protejam de tamanho desrespeito. Só nos resta protestar com todas as forças e mostrar que não foi em vão a luta de Paulo da Portela, de Candeia e tantos outros para que o samba fosse respeitado.

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