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18/12/2015 08h29

Síndrome de Estocolmo no Carnaval
Anderson Baltar*

Por conta de um dia atribulado de trabalho, só agora tenho condições de escrever sobre a lamentável decisão da Rede Globo em mutilar, com requintes de crueldade e desrespeito, a transmissão do desfile das escolas de samba no Carnaval 2016. Muitos colegas colunistas já definiram, com a devida propriedade, o sentimento de frustração e revolta que tomou o mundo do samba desde a noite de quarta-feira (16), quando a notícia começou a circular. Desta forma, para não correr o risco de ser repetitivo, pretendo abordar a situação de uma forma mais ampla e procurando encontrar alternativas.

É público e notório que, há cerca de 15 anos, quando se institucionalizou o monopólio da transmissão televisiva, as escolas de samba cariocas passaram a se tornar reféns da Rede Globo de Televisão e seus interesses. Por conta de contrato, já assistimos grandes escolas abrindo desfiles, como um chamariz para o horário nobre da emissora. Também ficamos alijados, por muitos anos, da exibição das escolas do Grupo de Acesso por conta da tentativa de nacionalizar um evento local - no caso, o desfile paulista. Assistimos impotentes à redução do tempo de desfile e do número de escolas. Pior: constatamos a mutação do desfile em apenas mais um sensaborão programa da linha de shows, com a transformação do boxe de bateria em uma boate brega, a interrupção da narração para flashes bobocas em camarotes, a escalação muitas vezes inexplicável de comentaristas e a total falta de análise crítica das apresentações das escolas.

Muitos sambistas, especialmente os dirigentes, dizem: "não podemos fazer nada, são eles que pagam". O que mais me choca são as opiniões que vêm a seguir. Algo como "a TV é uma grande parceira, sem ela nós não teríamos a menor condição de fazer o grande espetáculo". Não tenho outra definição para esse estado de coisas do que dizer que os nossos dirigentes são acometidos de uma inexplicável Síndrome de Estocolmo em relação à TV Globo. Ninguém está confortável, ninguém gosta do produto. Mas ninguém tem coragem de contestar e ainda há quem diga que é ruim com a Globo, mas seria muito pior sem ela.

- Após insatisfação de sambistas, desfiles de 2016 serão transmitidos como em 2015

Foto: Divulgação / Riotur

Será? Talvez se as escolas de samba continuarem adormecidas em relação a uma visão profissional de Comunicação. O mundo do carnaval ainda engatinha em relação a conceitos simples de Marketing. A isso, soma-se uma visão eterna de vira-latas que o sambista tem em relação à mídia e que remonta aos tempos dos tripés pede-passagem, que sempre saudavam a imprensa escrita, falada e televisada. Na cabeça de muito sambista, é uma bênção ter uma grande emissora de TV transmitindo o desfile e, para não perder essa benesse, qualquer coisa deve ser aceita goela abaixo. Não!

A televisão é importante? Sem dúvidas. Mas não pode ser a principal fonte de receitas das escolas de samba. Especialmente em um momento em que a TV aberta decai a olhos vistos em matéria de audiência, relevância e faturamento. A própria TV a cabo já se encontra superada em vários aspectos. Estamos na era do streaming e do on demand, em que muitas pessoas já nem assistem mais os programas convencionais. Ao contrário, pagam serviços como Netflix e consomem canais do Youtube.

Qual o caminho? Abrir o leque de possibilidades de arrecadação. Com um boa estratégia de Marketing, é possível criar categorias de patrocínio, abarcando diversos tipos de segmentos. É seguir os bons modelos existentes, como o da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, nos quais as empresas se digladiam para ter o direito de ser a caneta ou o curso de inglês oficial do evento. Desta forma, vários tipos de companhias com diversas capacidades de investimento conseguirão chegar ao carnaval.

Além disso, é fundamental tratar bem o público que vai ao desfile, possibilitando uma boa experiência ao assistir ao desfile, com boas opções de consumo e entretenimento ao longo da Avenida. Que o acesso seja rápido, fácil e seguro. Que a comida seja boa. Que a fila no banheiro seja pequena. E, principalmente, que os ingressos sejam vendidos pela internet. Lugar de fax é no museu.

Tratando bem quem vai à Avenida, essa pessoa volta. E indica aos amigos. E faz a relevância do evento aumentar ainda mais. Não é o que assistimos nos últimos anos. Os ingressos já não se esgotam mais na velocidade anterior e podem ser comprados, em muitos casos, ainda no dia do desfile. Os milhares de turistas que vêm à cidade para o carnaval de rua não são nem um pouco estimulados para conhecer a Sapucaí. Estamos nos fechando em nosso mundinho e, pior, graças a estratégias equivocadas, deixando de conquistar outros corações. Com uma transmissão ruim e mutilada, quem vai passar a gostar das escolas de samba?

E, nem precisa dizer, acabar com esse tenebroso monopólio de transmissão. Não é possível que um terço de um evento de tamanha relevância não seja exibido para que um reality show seja priorizado. É um escárnio saber que a TV Globo trata o carnaval da mesma forma que trata um campeonato de MMA. E, aí, não se iluda, a relação tem de ser profissional. O contrato deve obrigar a transmissão do evento na íntegra. E ponto final. Não dá mais para tolerar o papo de que "eles são nossos parceiros". A relação é comercial e a transmissão de TV não pode ser encarada como quase uma esmola. Basta se impor. A Fifa exige das emissoras que compram os direitos à exibição das 64 partidas. E a Globo obedece.

Para finalizar, cabe retornar a um ponto que foi abordado pelo manifesto que ajudei a elaborar em 2012 e foi encampado pelo então candidato a prefeito Marcelo Freixo. É necessário, para ontem, que haja alguma regulamentação que impeça o monopólio. Lanço desde já a ideia de que formemos um grupo de sambistas e preparemos, em conjunto com deputados federais comprometidos com a cultura popular, um projeto de lei que faculte às TVs educativas o direito de transmitir, sem qualquer tipo de pagamento de direitos, qualquer evento cultural que tenha investimento público e relevância social. Desta forma, pelo menos, garantiríamos uma forma de o público não ser afetado por essa lamentável prática do "compro, mas não transmito", tão comum à Rede Globo de Televisão.

*em colaboração ao SRZD

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Comentários
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    18/12/2015 15:49:20Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    É enojadiça a notícia de que a TV Globo transmitirá os desfiles do Grupo Especial do Carnaval Carioca 2016 conforme 2015. O carnavalesco da Academia do Samba disse o mesmo quando viu o título de campeã ser dado pelos julgadores da LIESA à agremiação useira e vezeira em apresentar desfiles militarizados apelidados de técnicos supostamente sem erros, frios, monótonos e incapazes de emocionar o público. Na sociedade a direita quer o retrocesso de derrubar a presidenta devido ela e um partido de trabalhadores estarem governando junto com partidos da burguesia. Já o reformismo de quem propõe avanço objetiva reunir sambistas para repetir em 2016 no programa específico de governo de Arte & Cultura do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) o mesmo da candidatura deste parlamentar a prefeito carioca em 2012. A qual foi considerada à época a melhor alternativa. Espera-se que não se repita a concepção pequeno-burguesa de Arte e Cultura carnavalescas no programa de governo do parlamentar. O qual deve definir como princípio o salutar monopólio estatal a tudo que esteja relacionado com o mundo do samba e o Carnaval. Isto é, que tudo seja concebido, organizado e gerido pela prefeitura e RioTur. À LIESA, LIERJ, LIESB, Associação Cultural Samba é Nosso (ACSN) e federações dos chamados blocos de rua deve caber o honrosíssimo papel de órgãos privados consultivos, de apoio, sobretudo, de fiscalização dos bilionários gastos públicos. Quanto à transmissão televisa dos desfiles carnavalescos na Sapucaí deve ser posto em prática o seguinte. Uma lei federal que quebre via-contrato de concessão o nefasto monopólio privado da TV Globo, concedendo o mesmo direito de transmissão à TV Brasil. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    18/12/2015 12:10:47PauloMembro SRZD desde 16/03/2010

    Excelente texto. Parabéns. Que todos os jornalistas se manifestem em prol da transmissão na íntegra. Basta de imposição. Respeito é bom e todos gostam. Uma vergonha a LIESA e os dirigentes das escolas aceitarem isso.

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    18/12/2015 09:45:19Oswaldo Fernandes FilhoMembro SRZD desde 09/04/2009

    Onde Assino, Perfeito, se há investimento Público, nada mais Justo.

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