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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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12/01/2016 11h11

Feliz 2016, com muito samba bom
Rachel Valença

Ao menos em um aspecto não há dúvida de que o ano que se inicia será bem melhor que o anterior: estamos comemorando, em 2016, uma das melhores safras de sambas de enredo dos últimos anos. Apesar da mesmice na programação visual e na produção do disco, vale a pena tê-lo, porque o conjunto de obras ali reunido tem uma qualidade compensadora.

Comecemos pelo que há de melhor: o samba de enredo da Imperatriz Leopoldinense, uma joia rara de título longo, que prova que de onde menos se espera... pode vir alguma coisa. O enredo sobre Zezé de Camargo e Luciano, convenhamos, não é glorioso, mas o samba de Zé Catimba e parceiros o redimiu. Nem as vozes enjoadas da primeira passada conseguem comprometer a beleza da melodia e da letra. E logo chega a segunda passada, com a bonita interpretação de Marquinhos Art?Samba, confirmando a pujança desse gênero musical que insiste em nos surpreender.

Surpresa maravilhosa é também o samba do Salgueiro. Gente, o que é aquele refrão final? É de ressuscitar múmia, coisa de louco... Já no início, prudentemente, se pede licença ao povo da rua e entre lua e estrelas a descrição da indumentária do malandro, de chapéu, terno de linho e sapato bicolor, nos mostra a ginga de um mestre-sala que corteja as madrugadas. Vem a força do refrão do meio e depois a riqueza melódica de um passeio que culmina por uma surpreendente mensagem de paz, precedida do belo verso "Quem me protege não dorme". Não há mais dúvida: lá vem Salgueiro!

Foto: Reprodução de Internet

Tal qual a Imperatriz, a Unidos da Tijuca tem também um samba limonada: de um enredo amargo, extraiu um bonito samba. Com citação quase explícita ao samba anterior da escola, é a melodia rica e dolente que chama para si a atenção do ouvinte, que quase esquece os lugares-comuns a que a letra recorre. É um samba bonito, que honra as assinaturas ilustres que leva.

Ilustres são também os nomes que assinam o samba de enredo da Vila Isabel, terra de poetas. E não decepcionam a grife Vila Isabel. No samba se misturam folguedos e palavras de ordem de forma harmônica e emocionante. A alegria da gente sofrida, a beleza de uma cultura que é resistência, acho que a mistura de tudo isso deixaria Miguel Arraes feliz.

Ter num mesmo disco quatro obras dessa qualidade já nos deixaria apaziguados com o gênero samba de enredo. Mas não para aí. Portela e Mangueira também capricharam e nos proporcionam momentos de alegria e emoção. Nas asas da águia protagonista, uma lição de autoconfiança, indo também buscar em citações de sambas do passado ("nas asas da poesia", "abre a janela pro mundo que Paulo criou") a força necessária para acrescentar a seu pavilhão mais uma estrela. Mangueira consegue trazer um samba que mescla a força e a doçura da homenageada no ótimo enredo. Não falta poesia, não falta misticismo, não falta força, tudo em boa medida. Anima o componente, agrada aos analistas e é uma delícia para cantar e sambar. O estreante Ciganerey, com a difícil tarefa de substituir insubstituíveis, se sai mais do que bem, prenunciando um bom desfile.

A Beija-Flor também se sai a contento no processamento de seu enredo em samba. Um enredo sem maiores encantos vira um samba de boa qualidade. O refrão do meio é a parte mais impregnada da tradição da escola, o que nos dá a sensação de algo muito familiar ao ouvido. Mas a segunda parte, que se segue a ele, é forte, muito mais em melodia do que em letra, para desembocar no refrão final, autorreferenciado, perdendo precioso espaço para descrever o enredo (ou não há tanto assim a descrever?).

Sete bons sambas, sem dúvida. Mais da metade do disco. Lucro para quem ouve. Dos cinco restantes, os de São Clemente e Estácio de Sá são perfeitamente passáveis, só não podendo ser ouvidos muitas vezes seguidas, porque geram monotonia e a sensação de mesmice. A Mocidade Independente, que tem um bom enredo, na minha opinião não foi feliz na escolha do samba, mas se fizer um grande carnaval, quem sabe se salva?

Grande Rio e União da Ilha confirmam a máxima de que sinopses fracas geram sambas fracos. Não é todo dia que os milagres acontecem. Seria esperar demais dos seus protetores dos sambistas. Mas estamos no lucro, com uma safra muito boa e a sensação de que nem tudo está perdido.

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Comentários
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    13/01/2016 14:42:26Rodrigo_FJBMembro SRZD desde 23/09/2014

    Sete bons Sambas??? kkkkk No máximo uns três... ano péssimo de sambas!

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    12/01/2016 17:01:11Neylhor Alves PernambucanoMembro SRZD desde 10/01/2013

    Concordo em gênero, número e grau!

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