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Carlos Nobre

Carlos Nobre

CULTURA AFROBRASILEIRA. Carlos Nobre é jornalista, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio. É mestre em Ciências Penais pela Universidade Cândido de Mendes. Autor de oito livros sobre discriminação racial, segurança pública e cultura afrobrasileira. Foi autor e coordenador da Coleção de Livros Personalidades Negras da Editora Garamond(RJ).

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13/01/2016 17h18

'Pelo telefone': nascimento polêmico há 100 anos
Carlos Nobre

A primeira melodia registrada como "samba" no país completa 100 anos, em 2016. Sua concepção, no entanto, envolveu praticamente toda a comunidade negra da antiga Praça Onze, no Rio de Janeiro.

Samba Pelo Telefone. Foto: Reprodução

Acusação de furto da melodia, disputas pesadas nos bastidores pela sua autoria, esperteza de alguns e dissensões de todos os tipos envolveram o registro do samba "Pelo Telefone", na Biblioteca Nacional, em 1916.

Quem documentou tudo isso foi o músico e cronista Almirante (Henrique Foreis Domingues) em seu livro clássico "No tempo de Noel Rosa" (Sonora Editora, RJ, 2013).

Almirante detalhou a grande disputa em torno da autoria de "Pelo Telefone", primeira melodia registrada como samba no país.

Segundo ele, em 1916, seis participantes de uma roda de samba na casa Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, criaram, num belo improviso o samba intitulado "Roceiro".

Sinhô. Foto: ReproduçãoEsse foi o primeiro nome que "Pelo Telefone" obteve.

Os criadores teriam sido Hilário Jovino Ferreira, Mestre Germano, Tia Ciata, João da Mata, J.B. Silva (Sinhô) e o jornalista Mauro de Almeida, que escreveu os versos.

No início, os autores não classificaram a melodia como samba, mas como partido alto ou tango. A primeira exibição pública da música ocorreu no Cinema Teatro Velo, à Rua Haddock Lobo, Tijuca, a 25 de outubro daquele ano.

Com o sucesso da música, uma nova apresentação ocorreu para a imprensa, em 3 de novembro. Segundo Almirante, aproveitando-se do êxito da música, o violonista Ernesto dos Santos, o Donga, registrou-a na seção de direitos autorais da Biblioteca Nacional e também em cartório como se fosse dele e de Mauro de Almeida. Na Biblioteca Nacional, "Pelo Telefone" recebeu sob o número de registro como 3.295, em 27 de novembro de 1916.

No entanto, em 1913, três anos antes, durante campanha contra o jogo do bicho em toda a cidade, os repórteres Castelar de Carvalho e Eustaquio Alves do vespertino "A Noite" instalaram na rua, defronte da redação, pequena roleta rústica oferecendo "fezinhas" ao povo.

Em 2 de maio de 1913, o jornal trouxe fotos da roleta de jogo cercada por populares assistindo à cena. E a manchete de primeira página: "O jogo é franco".

No subtítulo, acrescentava o jornal: "Uma roleta em pleno Largo da Carioca".

Devido à notícia escandalosa, motivo de comentário geral na cidade, o então Chefe da Polícia, Belisário Tavora, segundo Almirante, mandou destruir a roleta e os apetrechos da jogatina.

O assunto encerrou-se sem que qualquer compositor criasse canção mencionando o fato, explica Almirante.

E sem querer dar trégua aos viciados em jogo, outro chefe da polícia, Aurelino Leal, três anos depois, deu continuidade à campanha contra o jogo.

Em 30 de outubro de 1916, publicou uma nota oficial em todos os jornais:

"Ao delegado do distrito, ordenando-lhe que lavre auto de apreensão de todos os objetos de jogatina. Antes, porém, de se lhe oficiar, comunique-se-lhe esta minha recomendação pelo telefone. Recomende-se, outrossim, ao mesmo delegado que intime os diretores de clubes existentes na Av. Rio Branco e suas proximidades a se mudarem para outros locais, com prévia ciência, dentro do prazo de 30 dias, sob pena de serem cassadas as respectivas licenças".

No entanto, o tradicional humor dos cariocas se fez presente nesta ocasião. Nesse sentido, foram distribuídos pelas ruas folhetos anônimos com versinhos parodiando o samba e gozando o Chefe de Polícia.

Em outras palavras, o "Roceiro", criação coletiva da casa de Tia Ciata, recebia a contribuição pública. Nele foram inseridos versos que o iriam imortalizar dali por diante:

"O Chefe de Polícia
Pelo telefone
Manda me avisar
Que na Carioca
Tem um roleta
Para se jogar
Ai, ai, ai
O Chefe gosta da roleta,
Ô Maninha
Ai, ai, ai
Ninguém mais fica correta
Ô Maninha
Chefe Aurelino
Sinhô, sinhô
Faz o convite
Sinhô, sinhô
Pra se jogar
Sinhô, sinhô
De todo jeito
Sinhô, sinhô
O bacará
Sinhô, sinhô
O pinguelim
Sinho, sinhô
Tudo é assim"

Com o sucesso da nova versão popular em cima da música coletiva da casa de Tia Ciata, surgiram dúvidas sobre a autoria do samba. Fervilhavam debates nos cafés, esquinas e nas lojas de música sobre isso.

A esse respeito, em 4 de fevereiro de 1917, segundo Almirante, o "Jornal do Brasil" publicou pequena nota que criticava a esperteza de Donga e os versos encaixados na melodia por autores anônimos das ruas.

Na época, a melodia era considerada como tango. A nota citava os verdadeiros autores e dizia que Ernesto dos Santos, o Donga, era falso autor e rotulava-o como "caradura".

Eis a nota do "Jornal do Brasil" da época:

"Do Gremio Fala Gente recebemos a seguinte nota: Será cantado domingo, na Av. Rio Branco, o verdadeiro tango "Pelo Telefone" dos inspirados carnavalescos, o imortal João da Mata, o mestre Germano, a nossa velha amiguinha Ciata e o inesquecível bom Hilário; arranjo exclusivamente pelo bom e querido pianista J.Silva (Sinhô), dedicado ao bom e lembrado amigo Mauro, repórter da "Rua", em 6 de agosto de 1916, dando ele o nome de "Roceiro".

Aqui, algo já se estabelece, ou seja, o tango "Roceiro" vira de fato "Pelo Telefone", uma influência vinda das ruas que alterara a letra original do tango para satirizar o Chefe de Polícia da época.

Dando sequencia aos debates, Almirante escreve que Donga jamais respondeu e nem se defendeu na imprensa da acusação de ter surrupiado "Pelo Telefone".

Ou seja, diz ele: " silenciando-se totalmente, apesar dos severos protestos dos demais companheiros".

Com a incerteza de quem seria os autores da música tão celebrada, outros compositores aproveitaram para editar a mesma melodia e versos, usando diferentes títulos como "Chefia da Folia no Telefone", de Carlos A. Lima; "Ai, si a Rolinha Sinhô, Sinhô" de J.Menra, como tango; "No telefone, Rolinha, baratinha e Cia", de Maria Carlota da Costa Pereira, também como tango com motivos carnavalescos, explicou o estudioso.

Bom registrar que, naquela época, chamada de Belle Époque, início do século XX, começava-se um debate sobre autoria e direitos autorais no Brasil.

Assim, era comum sambistas venderem composições ou mesmo registrarem composições alheias como suas.

Considerado um dos autores originais de "Pelo Telefone", Sinhô, cognominado "Rei do Samba", e figura polêmica da casa de Tia Ciata, também era acusado se apropriar de músicas alheias. Um dos seus maiores acusadores era outro sambista famoso, Heitor dos Prazeres.

Heitor dos Prazeres. Foto: Reprodução

Reza a lenda que, certo dia, Heitor esperou a passagem de Sinhô entre a Rua de Santana e Frei Caneca. Sinhô viu Heitor no seu encalço, e quis mudar de calçada, mas não conseguiu. Heitor conseguiu alcançá-lo. E cobrou. Ou seja, acusou Sinhô de estar a registrando sambas seus como fosse dele, Sinhô.

Este, na maior cara-de-pau, teria respondido ao amigo dos batuques da Tia Ciata: "Samba é como passarinho, é de quem pegar".


Comentários
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    15/01/2016 00:24:05carlos nobre cruzAnônimo

    Parabéns, vocês acertaram em cheio. Sucesso para a escola na carnaval 2016!!!

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    14/01/2016 17:07:56Oswaldo Fernandes FilhoAnônimo

    Muito feliz por ser Torcedor da Única Escola de Samba que vai Homenagear o Centenário deste Feito. G.R.E.S. Bambas do Ritmo - Campeã do Carnaval 2015 em Três Rios - RJ

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