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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.



19/01/2016 19h42

Os demônios de cada um
Rachel Valença

Pra frente é que se anda. Ou, traduzindo em verso tão caro aos sambistas, "a missão do homem é evoluir". Mas às vezes um fato insignificante nos obriga a voltar no tempo, mesmo que para sofrer mais um pouquinho lembrando o que nos afligiu e desgostou.

Há menos de um ano, ao relembrar aqui neste espaço o carnaval de 2008 do Império Serrano, em que tremendos sacrifícios foram recompensados com a vitória, não mencionei o fato de que a carnavalesca abandonou a concentração, irritada, xingando, reclamando da falta de condições materiais e dizendo que não iria acompanhar aquele "lixo". Foi de casa que ela assistiu o Império ser campeão.

Por que me calei, no texto de abril, sobre este detalhe? Márcia Lage é uma profissional de carnaval, em atividade, e achei que a divulgação de uma atitude impensada não acrescentaria nada à minha narrativa. Não me considero uma pessoa negativa, destrutiva. Pelo menos me esforço para falar do que é bom e esquecer o que é ruim.

No dia da vitória, Márcia Lage foi à quadra e no palco reverenciou de joelhos a escola campeã. A quadra lotada a tudo assistiu.

Fotos: Divulgação

A carnavalesca foi mantida pela escola, quis fazer a reedição do samba de 1976, mas dando ao enredo nova leitura e novo título. Tudo lhe foi concedido. Se faltaram recursos, isso se deveu à situação financeira da escola, jamais a qualquer contestação de seu projeto. Que grande ideia sua deixou de ser realizada por falta de recursos? Nossa organização também deixava a desejar, reconheço. Amadores, não assalariados, nos dividíamos entre o trabalho no barracão e nossa vida profissional. Mas, no tocante à organização, a carnavalesca não ajudava muito.

Poupo os leitores do relato minucioso dos problemas enfrentados naqueles meses, mas posso garantir que não era a gestão do barracão a única responsável pelos problemas surgidos. Para resumir, cito a dificuldade da carnavalesca de aceitar opiniões diferentes da sua, a pouca dedicação ao barracão, por conta de seus compromissos domésticos, mas, sobretudo, a instabilidade de seu humor.

Conheço Renato Lage desde 1983, quando chegou ao Império Serrano. Sempre tivemos afinidades e um relacionamento cordial, ao qual se acrescentou de minha parte, com o passar dos anos, grande admiração profissional. Por esta razão, nessa nova etapa de trabalho no Império, a partir de 2008, as portas da minha casa sempre estiveram abertas ao casal e tive com Márcia um bom entendimento. Por isto, passei a ser sempre chamada ao barracão, a qualquer hora, para acalmar seus frequentes ataques de fúria.

Foto: Divulgação

Socos nas paredes, gritos, palavrões, exigências descabidas para refazer coisas que estavam aceitáveis, caprichos de toda ordem, a necessidade de mostrar a todo momento quem era que mandava... Eu jamais viria a público trazer esses episódios já sepultados, e outros que nem ouso reproduzir, se não fosse sua infeliz ideia de atirar no Império Serrano em recente entrevista. Por que isso? A menos de vinte dias do carnaval, uma carnavalesca do grupo especial não tem assunto mais momentoso para abordar numa entrevista? Desculpe a franqueza, mas apontar defeitos nas escolas por onde andou parece uma justificativa para, seja por que motivo for, nunca ter conseguido deslanchar uma carreira solo. Foi daí talvez que lhe veio a palavra desanimado, com que tenta descrever o Império Serrano.

Foto: DivulgaçãoO imperiano pode ser acusado de tudo, menos de desanimado. Como bem define o Dr. Carlos Alberto Machado, que lá está há muitos anos, o Império Serrano é uma escola em que o fracasso sobe à cabeça: quanto mais apanhamos, mais crescemos. Não falta contingente, não falta animação, não falta baiana, não falta ritmista nem compositor de talento. Exportamos mestre-sala e porta-bandeira, passista, intérprete e muito mais. Há tantos anos na Série A, continua a mesma grande escola de samba. "Pouca coisa não vai me jogar no chão", já dizia o inesquecível samba-enredo de 1992.

Não deixarei sem resposta as palavras dessa carnavalesca, da mesma forma como reagi, anos atrás, às palavras impensadas do puxador Anderson Paz sobre nossa escola, proferidas na quadra de uma coirmã. Enquanto tiver voz, vou responder a todas as tentativas covardes de apequenar uma escola que é um dos maiores monumentos culturais desta cidade, infelizmente acima da compreensão de gente despreparada.

Uma pessoa que, ao terminar o carnaval de 2009, sentada ao meu lado na festa de entrega do Estandarte de Ouro, no Canecão, por três vezes me pediu perdão (assim mesmo, com esta palavra) devia ter consciência de que havia muito a ser perdoado. Dentro e fora do barracão, dentro e fora da Avenida. Tudo perdoado. Logo depois, li nos jornais sua contratação pela Mangueira. Raiva? Não. Alívio.

Na Mangueira não ficou muito tempo, um ou dois meses, creio. Vá lá saber as razões... Não vêm ao caso. Sou mulher e já vivi muito. Não tenho muita coisa de que me orgulhar nesta vida, à exceção da maravilhosa família que criei. Mas posso garantir que cheguei até aqui pelo que sou. Não vivo à sombra de ninguém e por isso aprendi que o maior patrimônio que se pode acumular é a amizade e o respeito de quem nos cerca. Amizade e respeito se conquistam.

Não me agrada nem um pouco ter de escrever essas palavras, ou, como diz a carnavalesca, "visitar o meu lado demoníaco". Mas, para defender o Império Serrano de críticas sem fundamento e sem veracidade, também sou capaz de visitar o meu. Ainda não viram nada.

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Comentários
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    22/01/2016 10:30:01Guilherme RodriguesMembro SRZD desde 22/01/2016

    Parabéns Rachel pelo Texto. Criticar uma "empresa" por onde passou é natural de muita gente. Agora, olhar para trás e ver o que poderia ter feito para melhorar ninguém faz. Não creio que o "desanimo" citado pela Sra.Lage seja o chão da querida escola Imperiana. Visto que sempre foi uma escola aguerrida nos momentos bons ou não tão bons assim. Sou Salgueirense e não concordo com o fato de alguns leitores desejarem o mal ao nosso querido Salgueiro por conta de palavras mal proferidas pela Sra. Lage. Mas que essas palavras seja um combustível para que o Império Serrano faça um desfile monumental e retorne ao seu devido lugar.

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    21/01/2016 18:30:50Francesco Oliva OlivaMembro SRZD desde 21/01/2016

    NÃO SEI SE ESSA DESTEMPERADA MERECE O SEU LOUVÁVEL COMENTÁRIO RESPOSTA? NOS 52 ANOS VIVIDOS DENTRO DA ESCOLA PARTICIPEI DE MUITOS DESFILES AQUEM DE NOSSA HISTÓRIA E TRADIÇÃO NO QUE TANGE A ALEGORIAS, ADEREÇOS, FANTASIAS, PORQUE ISSO É COM O PODER DA GRANA. SOMOS UMA ESCOLA QUE PRESERVA EM MUITO NOSSAS RAÍZES E DE COMPONENTES EM SUA MAIORIA DE COMUNIDADES CARENTES. AGORA, NESSE TEMPO JAMAIS PARTICIPEI DE DESFILES QUE FALTASSE GARRA, ÂNIMO,MUITA EMOÇÃO E PAIXÃO. É SÓ PERGUNTAR A ALGUÉM VIVIDO NO MUNDO DO SAMBA DE QUALQUER AGREMIAÇÃO E ELE VAI DIZER: O IMPÉRIO "É UMA ESCOLA DE SAMBA" E DE MUITO CHÃO!SE ELA É DO RAMO VAI SABER O QUE É DIZER ISSO? MEXER NA PAIXÃO DO IMPERIANO É ARRUMAR BRIGA PRA LÁ DE MUITOS KILÔMETROS. PARABÉNS RACHEL PORQUE NESSE COMENTÁRIO VOCÊ EXPRIME DE MANEIRA LÚCIDA E CONTUNDENTE A PAIXÃO QUE MOVE TODO IMPERIANO, BRIGA-SE NA ESCOLA, DISCUTE-SE, COMO SOMOS UMA GRANDE FAMÍLIA, MAS QUANDO MEXEM NA NOSSA HONRA? O FULGOR DA IMPÉRIO SERRANO JAMAIS SE APAGARÁ, SERÁ PERPÉTUO! E DESSA ACREDITO POBRE COITADA QUE VIVE NA ABA DO SEU MARIDO DEVE SER CINZENTO/APAGADO. FORTÍSSIMO ABRAÇO: CHICO OLIVA(GALERIA DA VELHA GUARDA).

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    21/01/2016 11:04:58Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Relutei em redigir este comentário em função do respeito que nutro pela vizinha & coirmã em Madureira de minha amada Águia Altaneira & Guerreira que também é de Oswaldo Cruz, a escola de samba Império Serrano. Respeito esse que igualmente nutro pela blogueira deste site, Rachel Valença, 100% imperiana de cuja 2ª agremiação da coroa imperial fundada em 23/03/1947, a da 1ª coroa imperial é a coirmã tijucana fundada em 08/12/1940, a blogueira foi vice-presidente. Por tudo isso considero o texto em questão louvável em quase tudo, menos na parte que a blogueira entra na carcomida estória maniqueísta do bem e do mal, acabando ´por atravessar o samba´ quando fez o seguinte. Depois de corretamente ter criticado os chiliques de autoritarismo da aludida carnavalesca atualmente salgueirense agora desafeta dela assim como a intolerância de fundo religioso pentecostal do citado intérprete oficial da coirmã são-gonçalense em relação ao Império Serrano. A imperiana blogueira deste site fez uso da elitista & preconceituosa expressão gente ´despreparada´(sic) se referindo ao citado intérprete e à carnavalesca. Agravando o elitismo e o preconceito em relação à carnavalesca, a blogueira criticou-a democrática e corretamente como desprovida de carreira solo de sucesso, porém utilizou a incorreta expressão ´viver à sombra de alguém´. Ou seja, a blogueira dá a entender pretender entrar na questão subjetiva da relação afetiva e conjugal da carnavalesca. O que é lamentável. Por fim, embora eu seja admirador do talento enquanto sambista do citado intérprete ´nem tanto´ do da carnavalesca, não me proponho a bancar o falso ´advogado´ de ambos. Mas, sim respeitá-los conforme faço em relação à blogueira deste site Rachel Valença. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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    21/01/2016 10:21:49AntonioMembro SRZD desde 28/06/2011

    Estava até torcendo para o Salgueiro largar na frente e deixar de ser vice. mas essa "senhora" me tirou do sério... que venha mais um vice campeonato. O Império sem banqueiro tem os mesmos 9 títulos do Salgueiro. Imagina se tivesse um dono. Estavamos lá na frente ! Acho que o Renato não está chegando junto, por isso ela está destilando veneno.

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    21/01/2016 09:51:25Oswaldo Fernandes FilhoMembro SRZD desde 09/04/2009

    Depois de Sua Passagem pelo Glorioso Império Serrano, e Rapidíssima Passagem pela Mangueira ela só confirmou o que todos já sabiam. Sem a Muleta ( Renato Lage ) ela não consegue caminhar.

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    21/01/2016 07:55:14GildaMembro SRZD desde 27/05/2010

    Sou admiradora,grande Imperiana, belas palavras Rachel Valença, meus respeitos!!!! Um grande abraço!!!

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    20/01/2016 08:48:35EDUARDOMembro SRZD desde 12/04/2009

    Existiram erros, mas pai de Yemanjá nunca foi Netuno, e Marabô nunca foi uma sereia com golfinhos,e as moradas das entidades femininas das águas,muito mal pesquisadas,mesmo usando a liberdade poética....Não precisa se falar mais nada,quando fazemos um enredo temos que fazer pesquisas e coerência,para que não se tenha notas baixas em enredo,quando desenhamos uma alegoria ela tem que ser coerente ao que se apresenta e se propõe,para se elaborar um projeto de carnaval,existem vários pontos a ser analisados,para ser feitos um bom carnaval na avenida.lembrando que a plástica e responsabilidade do artista dito como carnavalesco.independente do acabamento, pois quando não se há dinheiro ,há se criatividade.sempre

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    20/01/2016 08:36:16EDUARDOMembro SRZD desde 12/04/2009

    existiram erros, mas pai de Yemanjá nunca foi Netuno, e Marabô nunca foi uma sereia num golfinho....não precisa se falar mais nada,quando fazemos um enredo temos que fazer pesquisas e coerência,para que não se tenha notas baixas em enredo.Então q

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    20/01/2016 08:36:15EDUARDOMembro SRZD desde 12/04/2009

    existiram erros, mas pai de Yemanjá nunca foi Netuno, e Marabô nunca foi uma sereia num golfinho....não precisa se falar mais nada,quando fazemos um enredo temos que fazer pesquisas e coerência,para que não se tenha notas baixas em enredo.Então q

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    20/01/2016 07:21:27Jacqueline PaqueletMembro SRZD desde 20/01/2016

    Olha esse texto está parecendo carta de rival desprezada! Será que a frustração está desde 1983? Não se esqueça que atrás de um homem bem sucedido sempre existe uma grande mulher! No caso desse casal existe cumplicidade! Conhece? Pois é...

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    20/01/2016 01:58:18carlos alberto machadoMembro SRZD desde 16/04/2009

    Uma escola que não tem dono não precisa de salvador.Uma escola com Tenho a história se preocupa menos com umbigo e nas condições samba .Uma escola democrática aceita opiniões divergentes ,mas não tolera absurdos .Rachel tive orgulho bem participar da sua equipe e de ser seu amigo Tenho a satisfação de estar desfilando desde 1972 e hoje na velha guarda ,juntos e animados...

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    20/01/2016 01:58:17carlos alberto machadoMembro SRZD desde 16/04/2009

    Uma escola que não tem dono não precisa de salvador.Uma escola com Tenho a história se preocupa menos com umbigo e nas condições samba .Uma escola democrática aceita opiniões divergentes ,mas não tolera absurdos .Rachel tive orgulho bem participar da sua equipe e de ser seu amigo Tenho a satisfação de estar desfilando desde 1972 e hoje na velha guarda ,juntos e animados...

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    20/01/2016 00:14:55Marcelo MoutinhoMembro SRZD desde 12/11/2010

    Ops, "descenço" não. "Descenso". Perdão pelo lapso de ortografia

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    19/01/2016 23:00:34Diego SilvaMembro SRZD desde 20/02/2010

    Obrigado Rachel por defender nossa Escola, temos problemas sim, mas resolvemos em casa e com pessoas realmente amam a escola.

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    19/01/2016 22:30:37Ronaldo MartinsMembro SRZD desde 24/11/2009

    Bravo Rachel Valença! Precisamos de pessoas como você. Quem é Marcia Lage, senão mulher do Renato Lage? Saudações Imperianas.

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