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Francisco Ucha

Francisco Ucha

QUADRINHOS. Jornalista, desenhista, designer gráfico, publicitário e produtor cultural. Trabalhou no "Jornal do Commercio" e "O Globo". Reformulou o projeto gráfico do "Jornal dos Sports", em 1982, e do jornal "Folha Dirigida" e dos produtos de turismo do Grupo Folha Dirigida, em 2006. Trabalhou na Globo Vídeo, onde desenvolveu o "Jornal da Globo Vídeo", publicação mensal que chegou a alcançar 200 mil exemplares. Foi gerente de Comunicação e Marketing da Herbert Richers Video, e gerente de Marketing da Look Filmes. Editou o "Jornal da ABI", publicação oficial da Associação Brasileira de Imprensa, por 10 anos. Foi o curador da Mostra Quadrinhos'51 e do Festival Bruce Lee | 75 Anos. É gerente de Comunicação e Marketing da Sato Company.

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25/01/2016 12h06

Lavagem: um soco no estômago
Francisco Ucha

Resumir "Lavagem", do consagrado desenhista e roteirista (e também cineasta) Shiko, como uma história de terror é, no mínimo, deixar de lado toda a pungente crítica social inerente à obra.

Lavagem. Foto: Reprodução

Lavagem. Foto: ReproduçãoO roteiro nos mostra um dia na vida de um casal que vive (vive?) num casebre afastado dentro de um manguezal. O marido, uma pessoa grotesca, cria e fala com os porcos, e acha que a mulher o trai toda vez que vai à igreja. Ela é evangélica e treme quando o pastor grita nos cultos: "Tem hora que parece que é Deus passando a mão em mim", confessa a certa altura. Eles vivem no limite da sanidade, ou da insanidade.

Todos os dias, à noite, ela liga a televisão para ouvir a pregação do pastor, prepara o jantar, pede para o marido largar os porcos e entrar em casa antes que a maré suba. É uma vida de extrema pobreza, repressão e fanatismo religioso. Coincidentemente (ou não), nessa noite em particular, eles recebem a visita de um pastor que ficou preso no mangue por causa da maré alta, justamente quando ele ia pregar na cidade. Pede abrigo e se dispõe a ler "um pouco da palavra".

Lavagem. Foto: Reprodução

Ela aceita, contrariando o marido brutamontes. O pastor misterioso começa a ler a primeira carta de Paulo aos Coríntios, a partir do versículo 25 do primeiro capítulo, que descreve um Deus arrogante como uma criança cheia de vontades, "para que ninguém se vanglorie diante dele".

Lavagem. Foto: ReproduçãoMais do que a violência humilhante da condição humana mostrada até então, o que se vê a seguir é o resultado do conflito de uma verdadeira lavagem cerebral repressora que a mulher é exposta diariamente e que se contrapõe à brutal realidade de uma vida sem esperanças. Alucinação? Fanatismo? Assombração? Shiko nos mostra como a redenção pode ser tão assustadora quanto a loucura. Um verdadeiro soco no estômago.

Responsável pela edição de luxo, a Editora Mino caprichou no álbum de 72 páginas e capa dura, impresso em preto e branco, no excelente papel pólen bold, que valoriza o traço forte do artista. "Lavagem" foi baseada num curta-metragem homônimo dirigido pelo próprio desenhista, lançado em 2011 pela cooperativa de "curtas de baixíssimo orçamento da Paraíba", Filmes a Granel. Mas a história em quadrinhos ganha novas nuances, se comparada ao filme.

Lavagem. Foto: Reprodução

Shiko, você já deve conhecer: ele é o responsável por obras-primas independentes como "O Azul Indiferente do Céu" e "Talvez Seja Mentira", além da adaptação para os quadrinhos do romance "O Quinze", de Rachel de Queiroz, para a editora Ática, e da releitura do personagem Piteco, de Maurício de Sousa, em Ingá, para o selo Graphic MSP. E se você não conhece o trabalho desse artista, comece já a ler sua obra.

Lavagem. Foto: Reprodução


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