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27/01/2016 16h22

Carnaval Japão: do ciclismo para o samba-enredo
Redação SRZD*

Uma volta ao mundo de bicicleta levou o japonês Yohei Inoue numa viagem de norte a sul do Brasil. No Paraná, ele conheceu o carnaval, comprou seu primeiro CD de samba e, ao retornar ao Japão, organizou a primeira festa de sambas-enredo em Tokyo. O "Enkara" - junção das palavras enredo e karaokê -, já dura dois anos e reúne ritmistas e passistas de todo o Japão para cantarem e dançarem os mais famosos sambas-enredo da história do carnaval carioca. O "Enkara" acontece mensalmente e, em cada edição, homenageia uma escola ou um período da história dos samba-enredos.

Pandeiro e tamborim

Yohei nasceu em Shinjuku, Tokyo, bairro da capital japonesa semelhante à Tijuca no Rio de Janeiro. De família de classe média, ele possui dois irmãos e, até chegar ao Brasil, nunca tinha ouvido falar de samba. Com o espírito de se aventurar e conhecer vários países, planejou uma viagem de bicicleta através do mundo. Foi parar no Brasil entre 1989 e 1990, e gostou muito da recepção que teve.

A primeira vez que o ciclista ouviu samba foi durante sua passagem pela cidade de Maringá, no Paraná. Ao chegar na cidade era carnaval e um amigo nikkei o levou a um baile em um clube. Ele ficou impressionado com a alegria e a música que tocava, principalmente quando foi executado o samba "Tristeza", de Niltinho Tristeza e Haroldo Lobo. "Depois daquele dia comprei meu primeiro CD de samba e não parei nunca mais", recorda o sambista.

Durante sua estadia no Brasil, Yohei lembra da culinária local e das mulheres bonitas. "A comida e a bebida eram ótimas. O povo do interior muito simples e gentil. Mas não entendia porque um país tão bom, com gente tão boa, havia um abismo social gigantesco entre pobres e ricos", questionava.

Ao terminar a volta ao mundo, Yohei retornou ao Japão e, apesar de ter conhecido vários países, suas culturas e seus gêneros musicais, comprou um pandeiro e um tamborim. O samba havia conquistado mais um fã.

Fotos: Yohei Inoue

Lua de Mel

Em 1996, Yohei passou a frequentar o Bloco Beabá, pequena agremiação carnavalesca da cidade de Hamamatsu, no Estado de Shizuoka, cerca de 250 km da capital japonesa. Na época viviam na cidade 10 mil brasileiros, a maioria descendentes de japoneses provenientes dos Estados de São Paulo e Paraná. Yohei passou a tocar surdo e, nos festivais de rua, o Bloco tocava sambas-enredo famosos como "Peguei um Ita no Norte" (Salgueiro, 1993) e "É hoje" (União da Ilha, 1982). Dois anos depois, o ciclista retornou à Tokyo e foi tocar na bateria da GRES Liberdade, onde passou a estudar o estilo de cantar dos "puxadores" cariocas. Continuou tocando surdo, mas nos eventos, pegava o microfone para puxar sambas-enredo, mesmo sem entender português.

"Gosto dos sambas da Portela, do Viradouro, da Mocidade, da Imperatriz, da Mangueira, da União da Ilha, do Salgueiro e do Império Serrano. Pra mim, a Portela faz sambas mais tradicionais. Mas em 2000 tive a oportunidade de desfilar na Viradouro. Por isso também gosto da escola e do samba daquele ano também", conta Yohei, que curtiu sua lua de mel se deslocando do hotel do Rio até a Viradouro para participar dos ensaios e aprender o samba.

Além de colecionar CDs, Yohei aprecia sambas antigos, principalmente os das décadas de 60 e 70. Ele não tem dificuldade em cantar as letras de sambas antológicos como "Os Sertões" (Em Cima da Hora, 1976) e "Os Cinco Bailes da História do Rio" (Império Serrano, 1965), além de outros cinquenta sambas-enredo. Para os cariocas a tarefa não é difícil. Mas para quem descobriu há pouco tempo esses sambas e não fala português, o trabalho de memorização é árduo. "Sempre procuro o significado da letra no dicionário para cantar melhor", revela o sambista, que é fã do Rixxa, mas também ouve Paulinho da Viola, Monarco, Cartola, Jamelão, Elis Regina, Roberta Sá, Paulinho da Mocidade e Dominguinhos do Estácio.

Fotos: Yohei Inoue

Brasil é o melhor

Em 2012, incentivado por amigos, Yohei reuniu uma turma num estúdio em Tokyo para cantar sambas-enredo. Como o aluguel de casas de show é muito caro, foi difícil achar um estúdio de gravação que aceitasse que os clientes comessem e bebessem enquanto cantam, tocam e dançam. Para a sorte do grupo, a festa pegou fama, juntando mais gente para "rachar a vaquinha". Daí o grupo se mudou para um bar de jogo de dardos, escondido num subsolo no centro da capital japonesa. "Quando estive no Brasil, em 2000, fui a muitos ensaios. Ficava olhando a emoção com que aquela gente cantava os sambas-enredo. Queria que o Japão fosse assim também", conta Yohei. "Foi assim que nasceu o Enkara", explica.

Quando tem dúvidas sobre a letra dos alusivos, dos sambas ou do que os puxadores cantam, Yohei conta com a ajuda de um amigo, carioca, ritmista da Portela, que reside em Tokyo, para fazer a tradução e explicar o significado das letras ou do enredo. Hoje o "Enkara" reúne mais de 80 pessoas de várias agremiações japonesas e é programado mensalmente. Nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, os participantes aproveitam para cantar os sambas do CD novo e imitar as baterias de cada escola. "Viajei mais de 80 países para descobrir que o melhor de todos é o Brasil. E o samba nasceu lá", finaliza o sambista.

*Marcello Sudoh é colaborador do SRZD-Carnaval no Japão


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