SRZD


29/01/2016 21h35

Com samba sem rima para Manoel de Barros, sonho 'Azul-Sossego' é retornar à Sapucaí!
Redação SRZD*

O enredo "Circo do Menino Passarinho", da Acadêmicos do Sossego para o carnaval 2016, é uma homenagem ao poeta Manoel de Barros. A agremiação trará o universo de suas poesias para a Intendente Magalhães, com o intuito de ser campeã e retornar à Marquês de Sapucaí em 2017.

A poesia de Manoel de Barros tem como característica uma linguagem inovadora, o uso de expressões insólitas, distantes do lugar comum, e a inexistência de rimas fonéticas. Foi nesse espírito que a escola apostou em um samba com características semelhantes às do homenageado. A obra é assinada por Felipe Filósofo, Sergio Joca, Ademir Ribeiro, Fabio Borges, Fabio Personal e Bertolo. Em enquete promovida pelo SRZD-Carnaval, o samba da Acadêmicos do Sossego foi eleito pelos internautas como o mais bonito da Série B do Carnaval do Rio de Janeiro.

"Há algum tempo alimentávamos a ideia de fazer um samba sem rima, inspirados por "Raízes", samba da Vila Isabel para o carnaval de 87, de Martinho da Vila. Esse enredo sobre Manoel de Barros escancarou essa porta e nós mergulhamos na ideia", declarou Felipe Filósofo, um dos autores do samba, que é professor e doutorando em Filosofia pela UERJ. "O clipe do nosso samba para a disputa começa justamente com o próprio Manoel de Barros falando sobre o fato de ele não usar rima em suas poesias", afirmou Bertolo, que é formado em Mídia pela UFF e trabalha como assessor de comunicação.

Para o meu critério e gosto, é o melhor samba do carnaval de 2016, afirma historiador

O historiador Luiz Antônio Simas, reconhecido estudioso do Carnaval, comentou sobre a qualidade da obra que a azul e branca de Niterói levará para a Avenida.

"Eu acho que este samba da Sossego, para o meu critério e gosto, não é só o melhor samba do grupo B. É o melhor do carnaval de 2016, de uma forma geral. Acho que parte do mérito é dos carnavalescos, pela ousadia de propor um enredo sobre Manoel de Barros, o poeta pantaneiro das "desimportâncias". O carnaval precisa de ousadias. O grande mérito dos autores foi, a meu ver, o de unir forma e conteúdo. Acho que um samba sobre a poesia de Manoel deve mesmo ter uma pegada que dialogue com a obra do homenageado. O samba conseguiu isso. Além da letra, que abre mão das rimas - Manoel não rimava - e trabalha imagens presentes na obra do artista, a melodia em menor é sinuosa, imprevisível, cheia de nuances que desafiam a formalidade. Acho que esse ponto da melodia é um mérito imenso, já que a ousadia na letra é mais perceptível. E ainda arremata com um "lalaiá" maravilhoso, um recurso dos mestres das antigas para que os componentes tivessem o que Silas de Oliveira chamava de "tempo para respirar", mostrando que a modernidade pode dialogar de forma propositiva com a tradição. Um golaço, em suma".

'Estávamos mordidos'

Foto: DivulgaçãoOs compositores Felipe Filósofo, Fabio Borges e Bertolo também são autores de um dos hits do Carnaval 2016, o samba da Unidos do Viradouro. E a composição do samba da Sossego foi, segundo os autores, atravessada pela escolha do hino da agremiação vermelha e branca de Niterói:

"Compusemos o samba da Sossego durante a disputa da Viradouro. Estávamos mordidos porque plantaram boatos de que o nosso samba na Viradouro foi encomendado a um escritório. Isso nos motivou ainda mais para fazer o samba da Sossego", disse Bertolo. "Apostamos em um samba curto, de apenas 23 linhas, sem rima, sem refrão e em tom menor. Investimos em colocar o Zé Paulo Sierra para gravar o samba junto com o Ademir Ribeiro, que também é um dos autores do samba conosco e a "voz oficial" da nossa parceria. Inserimos a flauta como elemento extra, apostamos numa gravação bastante sofisticada. Um grande samba para a Sossego era também uma forma de calar a boataria, o que de fato aconteceu. Era o nosso nome que estava em jogo", afirmou Felipe Filósofo.

O processo de escolha do samba da Acadêmicos do Sossego foi feito por votação entre uma comissão de oito jurados. O samba campeão recebeu um total de sete votos, anunciados ao vivo, com cada julgador declarando seu voto publicamente. Os autores do samba contaram ao SRZD-Carnaval a proposta que desenvolveram durante o processo de composição do samba: "A letra foi feita sob medida para representar o universo de Manoel de Barros. Não é um enredo biográfico, mas focado na obra. Fizemos um samba que procura expressar a estética do poeta, na forma de um simulacro de sua poesia", afirma Felipe Filósofo.

Os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, que participaram do julgamento, explicam os critérios adotados para a escolha da samba: "Levamos em conta, principalmente, a poeticidade. Temos total consciência de que o samba é o elemento mais importante de qualquer desfile. A Rosa Magalhães faz questão de frisar, sempre, que nós, carnavalescos, trabalhamos em 'Escolas de Samba', e não em escolas de fantasias e alegorias. Mas no caso de um desfile que se propõe a apresentar imagens poéticas de um criador tão vivaz quanto Manoel de Barros, o texto escrito, no caso a letra, e a linha melódica do samba ganham ainda mais importância, se é que isso é possível. A poesia e a música estão interligadas; a lira, o símbolo do Sossego, é a origem da música e da poesia, na tradição de Homero. daí se falar em "lírica". O samba vencedor conseguiu captar tamanha carga simbólica", dissertou Haddad.

"Os autores mergulharam na memória da escola, na memória do gênero samba de enredo e nas invencionices poéticas do 'poeta da invencionática', que abria mão das rimas, buscando outras raízes, outras sonoridades, outras possibilidades estéticas. Podemos dizer que os compositores, seguindo os conselhos do homenageado, 'brincaram de carnaval' e construíram um samba que apresenta ao público o espírito do 'Circo do Menino Passarinho'. Algo inclinado ao sublime, experimental, livre das rotulações, simples e sofisticado a um só tempo, como as pinturas de Chagall, por exemplo, uma referência de Manoel de Barros. Um samba lírico, mais do que pertinente ao enredo", completou Bora.

O samba traz ainda uma homenagem ao presidente da escola, Luiz Gustavo Faria Gomes, o Gustavinho, que faleceu logo após o carnaval do ano passado. Os versos que se referem a este tributo são os seguintes: "Assim nosso menino ganha asas da saudade / Se torna passarinho gorjeando em tom menor / Nos acordes da lira voou / No céu estrelado beijou a lua / Adormeceu poeta / Sonhou Azul-Sossego, brincou de carnaval / Sonhou Azul-Sossego, brincou de carnaval".

"O trecho mais emocionante do samba fala sobre partida, morte. É uma licença poética para homenagear Manoel e Gustavinho simultaneamente. Nesse trecho do samba, fazemos da homenagem a Gustavinho um elo entre o enredo e a escola", comentou Sergio Joca, que é funcionário público e um dos parceiros do samba. "Esses versos abrangem os elementos da escola, a lira, que é o símbolo da agremiação, o azul e uma menção abstrata e poética ao nome da escola em forma de cor", completou Felipe Filósofo.

'O samba tem que ser fiel à sinopse e ao mesmo tempo voar para além dela'

Os autores apimentaram o debate sobre a crítica de samba-enredo, reivindicando maior espaço de fala para os compositores e maior criatividade no momento da composição, condenando o engessamento da forma de compor samba-enredo: "Para nós é importante falar de como o samba foi feito, qual foi a nossa proposta e qual estratégia nós adotamos para representar o enredo em forma de música", declarou Felipe Filósofo. "Sem querer generalizar, longe disso, mas às vezes a gente vê em comentários, de quem é dito especialista em samba-enredo, uma incapacidade para captar e interpretar a proposta de letra e melodia que pensamos".

"Para analisar samba-enredo não basta ler a sinopse e verificar a adequação do samba. É preciso observar se existe um algo mais na forma de contar aquela história, se aquela obra foi feita com capricho, se há uma construção em cima, ou se é apenas uma colagem melódica de frases soltas sobre o enredo. O samba tem que ser fiel à sinopse e ao mesmo tempo voar para além dela, sem fugir da proposta do enredo, mas sendo criativo na sua abordagem. A própria melodia tem que dialogar com o enredo. Não se pode contar uma história triste, poética ou emocionante, com uma melodia oba-oba, por exemplo. O 'humor' da melodia deve variar conforme o desenrolar da história contada na letra", observou Bertolo.

Os compositores aproveitaram para falar sobre o atual momento do samba-enredo, com a ascensão de obras e autores que apostam em fugir do padrão: "Os sambas do Toninho Nascimento e agora do Zé Katimba deram uma quebrada nessa pressão pelo samba funcional. Foi aberto um espaço para se investir em sambas menos convencionais. Acho importante que a gente tenha uma preocupação com adequação ao andamento, mas isso não significa que exista uma forminha, que só um determinado modelo funciona. Não pode ser que um espetáculo com tanta diversidade como o carnaval só possibilite uma única forma de fazer samba-enredo", afirmou Felipe Filósofo. "Na verdade, o que acaba existindo é uma acomodação, pois trabalhar com algo novo, com um enredo diferente, um samba diferente, exige uma adaptação e um esforço maior. A Sossego apostou em fazer esse esforço", acrescentou Fabio Borges.

*Com a colaboração de Hellen Manhães

Já curtiu a página do SRZD-Carnaval no Facebook?

 



Comentários
  • Avatar
    02/02/2016 16:45:06Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Desde que chegou ao grupo de acesso/Série B espécie de 3ª divisão do Carnaval Carioca em 2010, a escola de samba niteroiense Acadêmicos do Sossego obteve sua melhor colocação (5ª) em 2013. Ano passado a agremiação foi a 9ª colocada do Carnaval realizado na chamada Passarela Popular da Intendente Magalhães, no bairro suburbano Campinho, quando os desfiles foram organizados pela Associação Cultural Samba é Nosso (ACSN). Nem por isso, a Sossego deixa de sonhar alto. Ou seja, dia 09/02/2016, sendo a décima a desfilar, a agremiação pretende ser campeã desse grupo de acesso disputado por 16 escolas de samba, agora organizado pela liga cuja sigla é LIESB. Assim, a Sossego tem como objetivo ascender ao grupo de acesso/Série A espécie de 2ª divisão organizada pela liga que tem como sigla LIERJ e os desfiles são realizados no sambódromo do centro da cidade. Para tal façanha a Sossego apresenta em 2016 o enredo (Circo do Menino Passarinho) que homenageia o poeta Manoel de Barros (1916 a 2014). O tema e a sinopse propiciaram um ótimo samba sem rimas, isto é, não-convencional conforme é informado na notícia em questão. Ou seja, no Grupo Especial do Carnaval Carioca 1987 a Vila Isabel foi a 5ª colocada, quando apresentou enredo intitulado ´Raízes´ cujo samba de autoria de Martinho da Vila também não tinha rimas. Já o samba 2016 da Acadêmicos do Sossego, que pode ser ouvido aqui, de fato, além de sem rimas tem ótima qualidade. Tanto que venceu uma enquete realizada por um site do mundo do samba como o mais belo do grupo de acesso/Série B 2016. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

Comentar