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Rachel Valença

Rachel Valença

CARNAVAL. Carioca, historiadora, filóloga e jornalista. Mestre em Língua Portuguesa pela Universidade Federal Fluminense. Coautora do livro "Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba". Pesquisadora do projeto de elaboração do dossiê "Matrizes do samba no Rio de Janeiro", para registro do samba carioca como patrimônio cultural do Brasil. No Império Serrano há 40 anos, foi ritmista e vice-presidente da escola.

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02/02/2016 18h01

Vida longa para os ensaios técnicos!
Rachel Valença

Acabaram, no último domingo, os ensaios técnicos de 2016. Mesmo animada com a proximidade do carnaval, fiquei melancólica. Porque, num certo sentido, o carnaval não promete tanta animação quanto tivemos na Sapucaí nas últimas semanas. Se por um lado o carnaval nos garante fantasias, alegorias, coreografias completas, tudo prontinho e bacana, a ele faltam algumas características que me alegram muito.

Em primeiro lugar, o componente que ali está (e que às vezes nem estará no dia do desfile principal) se diverte muito. Usa bermuda, camiseta e tênis ou outro sapato confortável. Mesmo em alas em que se improvisa um ou outro adereço, isso não chega a comprometer a alegria de brincar. A bateria é a principal beneficiária dessa regra: nada de punhos, golas, palas ou botas. Uma delícia. As baianas se enfeitam com maior ou menor capricho, mas nada daquele exagero que nossos carnavalescos criam para elas carregarem. As passistas sobem no salto, mas com cada roupinha leve e linda que dá gosto! E o casal que conduz o pavilhão evolui com graça e facilidade, mesmo não se descuidando do visual.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

Ah, se o carnaval fosse assim... Mas isso não é o principal. O que mais encanta é a participação do público. Gente que adora samba, que nem em sonhos teria condições de assistir ao desfile em boa localização, se apropria alegremente das frisas e arquibancadas e aproveita tudo. Observei no último domingo, após o encerramento do desfile, famílias que continuaram sentadinhas nas frisas, saboreando sua cerveja, felizes de estar ali e sem pressa de ir embora.

Esse é o verdadeiro público das escolas de samba. O público que grita o nome do seu vizinho ao vê-lo passar no cortejo, como grita o nome das celebridades com admiração e orgulho de vê-las de perto. Mas que grita também o nome de ídolos nossos, como Maria Helena e Chiquinho, ovacionados no ensaio da Imperatriz Leopoldinense. Gente que canta o samba de sua escola, e também o samba de outra escola, se ele consegue emocioná-lo. Que torce e vibra e não se cansa antes do final do ensaio, que não é o "espetáculo" em que o desfile se tornou, mas é algo muito caro ao coração desse povo, porque é antes de tudo cultura.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

E tanto é verdade que é cultura que nele está presente um fator fortíssimo da trajetória das escolas: a competição. O ensaio técnico não tem nota, não tem julgamento, não tem ranking, não tem campeão. Ninguém jamais impôs como condição às escolas que fizessem camisetas especiais, que levassem elementos alegóricos ou que paramentassem as alas de maior visibilidade para participar de algo singelo, que era apenas um ensaio no espaço em que a festa ocorreria. Mas o desejo de superar as concorrentes, a competição, a rivalidade - elementos presentes desde a origem das escolas - falaram mais alto.

Se dependesse de mim, o ensaio técnico, como instituição, não acabaria nunca. Ele se manteria como é, sem cobrança de ingressos, sem exigências e complicações. Ele se tornou um verdadeiro carnaval, que se desdobra nos fins de semana ao longo dos meses que antecedem a data oficial do calendário, dando ao componente oportunidade de usufruir mais uma vezinha a alegria de pisar aquele chão sagrado, palco de nossas emoções, e oferecendo a quem assiste a chance de apreciar sem custo algo muito divertido e bonito de ver.

Foto: SRZD - Igor Gonçalves

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Comentários
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    02/02/2016 18:20:46Almir Da Silva LimaMembro SRZD desde 21/11/2014

    Este prestigioso site estampou hoje mesmo, dia 02/02/2016, a notícia: ´Rômulo Ramos diretor de Harmonia da Mocidade Independente abandona a agremiação a cinco dias do Carnaval´. Em seguida, a notícia foi retirada. O meu comentário foi. Embora seja diretor da Mocidade Independente (MI), Rômulo Ramos (RR) é mera figura decorativa. Os que mandam na MI são o cappo-presidente de ´honra´ não-sambista verdadeiro, Rogério de Andrade (RA) e seu fiel-escudeiro o vice-presidente, na prática presidente-executivo, Rodrigo Pacheco (RP). Isso, porque apesar de ser um dos fundadores da MI, o presidente-executivo Wandir Trindade o Vô Macumba, é ´rainha da Inglaterra´. A MI permaneça sendo uma escola de samba comunitária e tradicional. Porém, a agremiação se encontra em processo de elitização apelidado de ´modernizadora estruturação empresarial´. Isso ocorre devido à época áurea & vitoriosa da MI, a agremiação ter sido confundida como ´vanguardista´. É um equívoco conceber-se filosoficamente uma agremiação como ´empresa´. Escolas de samba assim como clubes futebolísticos são instituições privadas de interesse público que lidam com paixão de seus adeptos/associados/torcedores. Os quais não podem ser tratados enquanto consumidores. Haja vista, escolas de samba e clube futebolísticos não têm enquanto razão de ser ou dogma da sociedade capitalista, o lucro. Já os dirigentes que comandam as agremiações e os clubes têm que ser do ramo, para poderem através de suas vocações, provar que são eficientes e ou competentes. Enfim, espero que as respeitabilíssimas comunidades da agremiação da estrela-guia de Padre e a própria Mocidade Independente não estejam sofrendo uma ´crise´ dessa às vésperas do desfile oficial 2016 e que possam ´brigar´ para voltar no desfile das campeãs. Saudações carnavalescas do portelense, Almir de Macaé.

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